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Mais dragagens no estuário do Rio Arade só com campanha arqueológica

Passado e futuro encontram-se: Cristóvão Fonseca e Helder Mendes

As futuras dragagens no estuário do Rio Arade, no canal de navegação interior e na bacia de manobras, para dar mais condições ao porto de cruzeiros, terão de ser antecedidas e acompanhadas por campanhas arqueológicas, para que não se repita os erros do passado.

Esta foi uma das conclusões da tertúlia «Os barcos do Arade…48 anos depois», que no sábado decorreu no restaurante Faina, no Museu de Portimão, tendo como convidado Helder Mendes, antigo realizador da RTP e mergulhador, uma das pessoas que, nos anos 70, descobriu o famoso «barco viking», ainda hoje envolto em mistério.

Helder Mendes, hoje com 86 anos, foi o realizador, nos anos 60, da série de documentários «Segredos do Mar», na RTP, que veio preencher uma lacuna na divulgação do conhecimento do mar, abordando três temas principais: biologia marítima, pesca profissional e atividades submarinas.

E foi graças a esta série e ao facto de ser mergulhador que Helder Mendes se cruzou com os vestígios arqueológicos dos barcos do Arade, nos anos 70, postos a descoberto pelas dragagens que então decorriam, para aprofundar a bacia de rotação dos navios.

Numa palestra de cerca de 45 minutos, acompanhada por imagens da época, nomeadamente os desenhos então feitos, Helder Mendes recordou que, apesar dos seus esforços, quando nada se fez para aprofundar a investigação sobre os vários barcos descobertos nas areias e no lodo do fundo do rio, «sofri pela oportunidade que se perdeu para dar um contributo à nossa história naval».

Muitos dos vestígios perderam-se ou foram destruídos, pelas dragagens, mas também quando «a parede de areia do talude da bacia de manobras se foi esboroando e os barcos deixaram de estar espetados na areia e protegidos por quatro ou cinco metros de lodo, e ficaram à mercê das âncoras dos barcos à superfície, que os foram partindo». Parte dos vestígios acabou por ser encontrada em terra, nas zonas de deposição dos dragados. Muitas das peças encontradas ao longo de décadas nas areias depositadas estão agora nas coleções de museus, como o de Portimão, ou nas mãos de privados.

Depois do trabalho de prospeção arqueológica feito entre 1998 e 2000 pelo Grupo de Estudos Oceânicos (GEO), no troço final do Arade (entre o cais e a foz), as primeiras campanhas arqueológicas subaquáticas sistemáticas no estuário tiveram lugar no início dos anos 2000 (2001, 2002, 2004 e 2005), capitaneadas por Francisco Alves, que era, então, responsável pelo Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS).

Mas foram apenas quatro períodos de Verão e depois a investigação voltou a parar. Uma das principais vitórias dessas campanhas foi a relocalização de vestígios de embarcações e de numerosos artefactos, que tinham sido descobertos durante os trabalhos de dragagem do estuário em 1970 e 1982.

Mesmo assim, na tertúlia de sábado, Helder Mendes, que mergulhou e viu esses vestígios nos anos 70, contou como, em 2001, teve de ajudar o arqueólogo subaquático Francisco Alves a redescobrir a localização de um dos navios então encontrados no fundo do Arade, aquele que viria a ser o famoso Arade1.

Mais tarde, dois dos arqueólogos subaquáticos que colaboraram nessas campanhas do CNANS – Cristóvão Fonseca e José Bettencourt – voltaram ao Arade, com um projeto do Centro de Humanidades (CHAM) – Unidade de Investigação Interuniversitária da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 2012 e em 2016, para curtas intervenções que se dirigiram «apenas ao que estava à superfície».

Durante este corrente mês de Junho, Cristóvão Fonseca e José Bettencourt estão de novo no Arade, mas para uma campanha de escavações subaquáticas, que conta com o apoio financeiro de várias entidades, nomeadamente do Grupo dos Amigos do Museu de Portimão, que organizava a tertúlia de sábado. Cristóvão Fonseca foi também um dos convidados da tertúlia, onde lhe coube falar sobre «os barcos do Arade 48 anos depois…e no futuro».

O arqueólogo subaquático começou por lembrar que, no estuário do Arade e na sua embocadura, «há ainda muito por conhecer e muito por investigar». «Só com as dragagens de 1970 se começou a ter uma perceção da riqueza arqueológica» da zona, mas as investigações começaram muito mais tarde, quase trinta anos depois.

A campanha deste mês de Junho destina-se, explicou, a «intervir em sítios que já são conhecidos e obter dados mais concretos sobre esses contextos».

A riqueza do Arade, porto natural desde há milénios, reside na sua «longa diacronia», com vestígios arqueológicos «desde a Idade do Ferro até à atualidade», passando pelas inúmeras «ânforas romanas», pelos «vestígios islâmicos», ou mesmo pelo tal navio de «casco trincado», atribuído aos vikings, mas nunca estudado na sua totalidade. O facto de o estuário ser usado como «fundeadouro» e ter ainda sido palco de naufrágios justifica esta profusão de testemunhos, preservados ao longo dos séculos no meio anaeróbico (sem oxigénio) dos sedimentos de lodos e areias.

E no futuro? Cristóvão Fonseca admitiu que a dragagem do canal e da bacia de rotação do porto de cruzeiros de Portimão será «uma mais valia para a região». No entanto, avisou, «será muito importante» que, «ao contrário do que se passou nos anos 70», se investigue antes de avançar com esses trabalhos, sempre destruidores. «Hoje temos capacidade de fazer de forma diferente», defendeu. «Mais que capacidade, temos obrigação!», comentou uma das pessoas que enchiam por completo a sala onde decorreu a tertúlia.

O arqueólogo acrescentou que, de acordo com a lei, «o que é conhecido tem de ser salvaguardado», pelo que o plano das dragagens terá que «ter isso em conta».

Por outro lado, havendo um projeto científico em curso, «terão que se articular connosco». «Podemos não ser nós a fazer os trabalhos arqueológicos e de salvaguarda necessários, até porque isso engloba aspetos comerciais que não têm nada a ver connosco, mas terá de haver medidas para minimizar o impacto destas dragagens».

A verdade é que não se sabe quando avançarão as dragagens no Arade. A ministra do Mar anunciou-as em Dezembro de 2016, quando foi constituída a Comissão Instaladora da nova entidade «Portos do Algarve», mas, até agora e que se saiba oficialmente, nem as dragagens, nem a nova entidade avançaram.

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