A importância de se ser pequeno

As humildes e minúsculas diatomáceas são generosas na sua pequenez, tão generosas que nelas tudo tem importância e significado

Acredito que poucos saberão o que é uma diatomácea. É um ser minúsculo, quatro vezes mais fino que um cabelo humano. Mas estão praticamente em todo o lado do nosso planeta desde que exista água, pois é nesse meio que elas vivem. E aí coabitam com outras espécies bem maiores e complexas que elas, espécies que dominam e ocupam lugares muito mais preponderantes na cadeia alimentar.

Mas voltemos às diatomáceas e à sua função. São elas, apesar do seu tamanho insignificante e de serem umas felizes desconhecidas, que nos ajudam a respirar. Verdade. Elas usam a sílica proveniente dos depósitos que chegam aos cursos de água e ao mar para criarem as suas carapaças e estas, por sua vez, permitem-lhes realizar a fotossíntese, reproduzirem-se e, se houver alimento em abundância, duplicam o seu número a cada 24 horas. O oxigénio que produzem ajuda a que o planeta se mantenha em perfeito funcionamento.

Aliás, mesmo depois de mortas, são úteis. Se pensarmos nos grandes desertos de sal que existem no mundo (desde o maior, localizado na Bolívia, o Salar de Uyuni, ou outros em diversos pontos do continente americano – o mais conhecido o de Nevada -, do continente africano – Botswana, Tunísia, Etiópia -, da Ásia – Irão, para dar apenas alguns exemplos), estaremos a contemplar em quase todos áreas que foram fundos oceânicos e, como tal, esse sal contém uma alta concentração de diatomáceas que morreram e que forraram e continuam a forrar as profundezas marinhas.

E já nem vou falar de outros locais na terra que todos sabemos terem sido, em alguma época da história do planeta, mares. As diatomáceas estão lá e quando a erosão e o vento atuam e levam pó para longe, transportando as partículas que as compuseram, levam um importante fertilizante natural, que permite o crescimento de novas plantas, a manutenção de áreas verdes tão determinantes para a produção de água e, consequentemente, de oxigénio, vital para a vida na terra.

Esses pequeninos organismos são promotores de equilíbrio, num planeta que subsiste e trabalha como um todo, porque na natureza, incluindo em nós, tudo é partilhado e tudo tem o seu lugar.

As humildes e minúsculas diatomáceas são muito mais importantes do que as julgamos, até porque, repito, a maior parte de nós não sabe que elas existem. São generosas na sua pequenez, tão generosas que nelas tudo tem importância e significado.

A natureza, às vezes, espelha-se na forma como nos organizamos socialmente. Se olharmos à nossa volta, percebemos que também funcionamos quase que no formato de uma cadeia alimentar, replicando e mimetizando comportamentos dos demais seres vivos: uns mais agressivos e predadores e, logo mais visíveis; outros mais passivos e contemplativos e, por isso, menos destacados; e outros tão pequenos e insignificantes que aparentemente ninguém sabe que eles existem. Todavia, uns sem os outros não funcionamos, porque, lá está, sem a realização da função de cada um, nada acontece e tudo para.

Ser-se pequeno não é sinónimo de ser-se insignificante. Pelo contrário. A importância que cada um tem está no modo como olha para a vida e para aquilo que faz e que pode fazer, aquilo que pode construir. E é aí que está o significado verdadeiro e último de cada um de nós.

Um pequeno moinho de vento pode não ter grande importância para quem tem acesso quotidiano à água, mas fará toda a diferença para os que precisam de tirar água de um poço e garantir o sucesso das suas colheitas e a subsistência da sua família.

Um pequeno buraco no gelo pode não ser importante para os gestores de uma grande companhia de pesca, mas fará a diferença para o pescador que precisa dele para ter um peixe para o seu jantar.

Uma pequena notícia num jornal qualquer do mundo pode não garantir um Pulitzer, mas quem sabe se não faz a diferença entre a condenação ou a libertação de alguém?

Um gesto de carinho pode não trazer de volta quem se perdeu, mas pode dar tanto conforto a quem sofre…

Tomamos tantas coisas como certas… Tomamos tantas coisas como insignificantes…. E sobretudo, fazemos de tantas pessoas um juízo tão pequeno.

Olhamos para o lado e desvalorizamos muito do que é importante e inflacionamos o que não o merece. Apetece dizer como Oscar Wilde: «Viver é a coisa mais rara do mundo – a maioria das pessoas apenas existe».

Empurramos a vida, como um carrinho de supermercado, magoados por tantas palavras, por tantos gestos, por tanta falta de respeito. Ou ao contrário, seguimos inchados de nós mesmos, das nossas vontades, do “eu quero, porque quero, porque nada mais me interessa”.

Como na famosa e deliciosa peça deste mesmo autor, The Importance of Being Earnest, importa não aceitar a realidade como garantida, importa ser capaz de olhar para além do óbvio, importa, porque a palavra é mesmo essa e é esse o sentido desta quase aliteração, dar importância a tudo e a todos, ser “Earnest”, dizer a verdade. Porque ser pequeno implica quase sempre ser-se muito grande.

 

Autora: Sandra Côrtes Moreira
É licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Universidades de Lisboa e Algarve e mestre em “La Educación en la Sociedad Multicultural” pela Universidad de Huelva.
Desempenha as funções de coordenadora do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara Municipal de Silves e é assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, com quem colabora, integrando também a equipa da Pastoral do Turismo.

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