Transição energética da Europa começa numa pequena escola da Culatra

Projeto piloto de transição energética Culatra 2030 já está em marcha

Tudo começará num edifício, neste caso, uma escola. Depois, seguir-se-á toda uma ilha e, mais tarde, vilas, cidades e, quem sabe, regiões ou mesmo países inteiros. O Culatra 2030, um projeto piloto de transição energética de âmbito europeu, já está em marcha e vai dar a conhecer o caminho que fez até aqui num workshop que começou ontem, na sede da CCDR do Algarve, no centro de Faro, e  termina hoje, dia 14, na ilha-barreira que dá nome ao projeto.

Na quarta-feira, dia 12, um dia antes do início do workshop internacional “Culatra, Uma Comunidade Energética Sustentável”, representantes da Universidade do Algarve (UAlg), da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC), da Organização Não Governamental Make it Better  e do Secretariado para as Energias Limpas estiveram à conversa com os jornalistas na sede da CCDR, em Faro.

Cerca de um ano depois de ter sido selecionado pelo Secretariado Europeu para as Energias Limpas nas Ilhas (Clean Energy for EU Islands) para ser um dos seis projetos piloto para a transição energética, a nível europeu, e apontar o caminho para esta mudança, as entidades que lideram o processo revelaram o que já fizeram até agora e apontaram algumas metas para o futuro – o que, de resto, estão a fazer desde ontem, em conjunto com os muitos parceiros do projeto.

Em Novembro, foi publicada a agenda de transição para as energias limpas da Culatra, o documento que servirá de base a todo o trabalho que será desenvolvido na próxima década.

Neste documento, são apontadas cinco grandes áreas de atuação, desde logo a energia, já que um dos grandes objetivos do Culatra 2030 é tornar esta ilha autossutentável, do ponto de vista energético, recorrendo a fontes naturais, nomeadamente ao Sol, através de painéis fotovoltaicos.

Mas esta agenda para a transição também toca outras áreas, como a água, os resíduos, a climatização de edifícios e o transporte marítimo.

«Neste momento já estamos a desenvolver trabalho no terreno. Neste último ano, foram muitas as entidades que se associaram ao projeto, desde empresas, como a EDP Distribuição e a Sun Concept, mas também entidades públicas. A nossa maior vitória foi ter conseguido ter connosco as sete entidades com jurisdição no território», resumiu André Pacheco, coordenador do Culatra 2030 e investigador do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da UAlg.

É que a Culatra está no centro de um autêntico novelo de jurisdições, tendo em conta a quantidade de entidades que têm uma palavra a dizer em parte ou na totalidade da ilha: a Câmara de Faro, a CCDR, a Capitania do Porto de Olhão, a Docapesca, a Agência Portuguesa do Ambiente – ARH do Algarve, o Parque Natural da Ria Formosa/ICNF e a Sociedade Polis.

 

Ilha da Culatra – Foto: Fabiana Saboya|Sul Informação

 

E o que já foi feito, em concreto?

«Submetemos uma proposta ao Programa Operacional Mar 2020 para equipar a AMIC com painéis solares para o carregamento de barcos eletrosolares. Isso permitirá aos viveiristas terem um barco que não utilize combustíveis fósseis. No futuro, isto permitirá certificar os bivalves da Culatra como sendo Carbono Zero», revelou André Pacheco.

Também já há projetos para equipar diversos equipamentos com painéis solares fotovoltaicos, nomeadamente «a escola, os apoios de pesca, o Centro Social, a sede da AMIC», entre outros.

«A escola da Culatra tem todas as condições necessárias para ser totalmente autónoma, dada a orientação do edifício e o local onde se encontra», disse.

Paralelamente, o Culatra 2030 esteve «a desenvolver trabalho com as entidades, de modo a podermos fazer uma gestão mais eficiente dos fundeadores, em parceria com a Docapesca e o PNRF».

Neste caso, a ideia é, por um lado, regular o estacionamento de veleiros junto à ilha – «chegam a estar mais de 300 barcos ancorados aqui, no Verão, sem qualquer critério e sem se saber o que fazem aos resíduos», lembrou Sílvia Padinha, da AMIC -, e, por outro, funcionar como meio de financiamento de um fundo que será criado para ajudar os moradores a instalar telhas fotovoltaicas nas suas casas.

«Conseguimos criar um protocolo entre as três associações da ilha [AMIC, Associação União Culatrense e Associação Nossa Senhora dos Navegantes] para começar a implementar medidas de redução do plástico. Já foi criado um copo único, de metal, que passará a ser usado em todas as festividades e iniciativas que tiverem lugar na ilha, para podermos reduzir drasticamente a poluição dentro da Ria Formosa», enquadrou André Pacheco.

O mesmo protocolo prevê a criação de um fundo que permitirá aos proprietários das casas substituir os telhados atuais, que na sua maioria contém amianto, por coberturas fotovoltaicas, conseguindo, de uma vez, retirar um material potencialmente cancerígeno e colocar as habitações individuais a contribuir para o objetivo da autosustentabilidade energética da ilha.

Os apoios a atribuir não serão a fundo perdido, mas também «não serão cobrados juros», o que, só por si, «já é uma ajuda preciosa».

 

Escola Ilha da Culatra

 

Por outro lado, os responsáveis pelo projeto, no âmbito de um «consórcio europeu com três dos maiores distribuidores de energia da Europa: a EDP Distribuição, a Indesa e a EDF», avançaram com outra candidatura, neste caso ao Horizonte 2020, gerido diretamente pela Comissão Europeia, para um «demonstrador de conceitos de redes inteligentes, com distribuição inteligente para a comunidade da Culatra».

Afinal, realça André Pacheco, a ideia do Culatra 2030 «não é atingir a autonomia energética, mas sim uma produção descentralizada», que permita que a ilha dê à rede a mesma ou mais energia do que a que consome.

Ou seja, «não queremos tirar mercado à EDP». No fundo, será aproveitada uma mudança recente na lei, que permite que os consumidores sejam, simultaneamente, produtores, e que obriga as empresas de distribuição a criar mecanismos para a acolher e distribuir na sua rede global.

Tudo isto foi decidido em parceria com a comunidade local. «Temos vindo a evoluir este projeto e a população evoluiu connosco», resumiu Silvia Padinha, presidente da AMIC.

Se assim não fosse, mais valia não avançar, acredita, já que um projeto desta natureza «só é viável se for economicamente e socialmente possível».

Parte dos desafios têm a ver com hábitos de preservação e proteção da natureza, nomeadamente com a redução de plásticos. E, garante Silvia Padinha, estão ser levados a sério pelos culatrenses.

«No Dia do Pescador, usámos pela primeira vez os copos únicos e, quando acabou a festa, foi incrível ver que não havia lixo nenhum no chão. Nada de copos de plástico e de resíduos», contou.

Por outro lado, foi dado início a um projeto de reutilização das redes abandonadas, «também chamadas de fantasma», que estão a ser transformadas em sacos. «Esses sacos são entregues aos turistas, que são desafiados a trazer o seu lixo e outro que encontrem na praia, para que o possamos depositar nos locais corretos», revelou a presidente da AMIC.

Ao mesmo tempo, estão em marcha outros projetos, como «a compostagem e a criação de hortas comunitárias».

 

 

Estas e outras vitórias dos responsáveis do Culatra 2030 estão a ser apresentadas ao diferentes parceiros desde ontem, no workshop “Culatra, Uma Comunidade Energética Sustentável”.

Aqui, segundo José Nunes, da Make it Better, serão apresentados os resultados de um ano de trabalho, nomeadamente os do diagnóstico participativo que esta entidade sem fins lucrativos fez na Culatra.

A ONG trabalhou «com diferentes grupos da comunidade» e promoveu múltiplos encontros, durante os quais desafiou os culatrenses a explanar quais as necessidades que sentiam, não só ao nível energético, mas em todas as áreas.

Isso permitiu criar planos de ação, que «serão como reservatórios de projetos». Aqui, cabe um pouco de tudo, desde a autonomia energética, até ao problema da água, que poderá ser resolvido com uma central de dessalinização, mas também questões como o acesso a cuidados de saúde e respostas para os mais idosos.

A experiência da Make it Better foi positiva, admite José Nunes, que não poupa elogios aos culatrenses. «Eles percebem como ninguém as questões ligadas à sustentabilidade, porque lidam com elas diariamente. Há muitos preconceitos em relação a estas comunidades, mas passando por lá, como nós passámos, eles não sobrevivem», afirmou.

Também Maja Jurisic, a representante da Secretariado Europeu para as Energias Limpas nas Ilhas, realçou o forte sentido de comunidade e «a relação de confiança que já existia entre a associação e a população». Aliada ao suporte académico garantido pela UAlg, esta foi uma das razões que levou esta entidade da União Europeia a escolher a Culatra como um dos projetos piloto que apontarão o caminho para a transição energética da Europa.

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