Culatra quer tornar-se exemplo de que é possível viver só com energias limpas

A Universidade do Algarve e a Associação de Moradores da Culatra estão a trabalhar em conjunto para tentar fazer da Culatra um exemplo regional e nacional de transição energética

Foto: Pablo Sabater|Sul Informação

Dotar o núcleo piscatório da Culatra, em Faro, de uma rede energética totalmente assegurada por fontes renováveis e limpas, gerida de forma integrada e inteligente, associada a um compromisso com a preservação dos valores ambientais e com a sustentabilidade, é o sonho conjunto do Centro de Investigação Ambiental e Marinha (CIMA) da Universidade do Algarve e a Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC). O objetivo é fazer desta comunidade um exemplo a nível nacional, provando que é possível viver só com energias limpas e contribuindo para a transição energética.

Esta é, para já, «uma ideia de projeto», mas que já está bem madura, na mente tanto de André Pacheco, vice-diretor do CIMA e coordenador da equipa de energias renováveis marinhas deste centro de investigação, como de Sílvia Padinha, presidente da AMIC. A visão já foi, de resto, oficialmente apresentada, durante uma conferência sobre a Estratégia de Especialização Inteligente do Algarve, que decorreu ontem, quarta-feira, em Albufeira.

O Sul Informação navegou até à Culatra, para se encontrar com André Pacheco e Sílvia Padinha e perceber melhor o que é que o futuro pode reservar, para esta comunidade centenária do concelho de Faro.

«No fundo, isto é uma chamada à ação colaborativa, da Associação de Moradores da Ilha da Culatra, da Universidade do Algarve e das empresas regionais e nacionais, para desenvolvermos um projeto de demonstração de uma comunidade energética sustentável, na Ilha da Culatra. Nesse sentido, idealizámos uma série de fases e etapas para a concretização desta ideia, que estivessem todas enquadradas na Estratégia de Especialização Inteligente do Algarve , na estratégia nacional e, também, nas orientações da União Europeia para as energias limpas», explicou André Pacheco, ao Sul Informação.

«Contribuímos, desta forma, para a transição energética, que tantas vezes é discutida e falada, mas que ainda não está executada. Podemos fazer da Culatra um exemplo em termos nacionais e regionais de algo que é possível fazer com a tecnologia existente e que pode ter um impacto na vida das pessoas», acrescentou.

Ou seja, não é preciso inventar nada. «A Culatra é o local ideal para testar uma série de conceitos que já são realidade. Estamos a falar de tecnologias maduras, que existem no mercado, mas também de as tornar integradas, através deste conceito de comunidade energética», acrescentou o investigador do CIMA.

A energia fotovoltaica, captada por painéis solares – seja nos próprios edifícios, seja num campo de painéis a criar -, energia eólica e, eventualmente, de energias marinhas – a especialidade da equipa coordenada por André Pacheco -, são algumas das soluções já existentes, que é possível aplicar. Além disso, a Culatra foi dos primeiros locais do país onde a EDP instalou contadores inteligentes, que podem dar uma grande ajuda, nomeadamente na fase de diagnóstico dos consumos.

O caminho a ser trilhado não é, admite, simples, já que «é necessário reduzir os resíduos, o consumo de eletricidade e olhar para a ilha como um sistema dinâmico, de modo a conseguir que a Culatra deixe de ser consumidora, para passar a ser produtora».

E não se trata, apenas, de produzir energia, mas também de armazená-la, bem como de explorar «novas tecnologias que já existem no tratamento de resíduos e até da água para autoconsumo, que permita a sustentabilidade ambiental e que a ilha se torne um exemplo».

Assim, muito do trabalho terá de ser feito pela própria comunidade da Culatra. Daí que, antes de tudo, se tenha de «discutir as questões ligadas a esta visão, de uma forma muito mais séria, com a comunidade. Esse será o próximo passo. Uma coisa são as ideias que temos, outra é discuti-las com os moradores. Porque isto só fará sentido se a comunidade vir que as soluções que nós gostaríamos de implementar vão ao encontro das suas necessidades. É preciso que percebam a mais-valia», acredita André Pacheco.

Uma tarefa que a Associação de Moradores assumiu «com entusiasmo», até porque, no futuro, terá de ser a AMIC a pegar nas rédeas e a levar o projeto para a frente – ainda que com o apoio do CIMA e da UAlg.

«Penso que não será difícil, temos tido batalhas muito mais duras e conseguimos superá-las. Esta não será, de certeza, uma batalha difícil, até porque tem uma mais-valia associada. Para além da questão ambiental, há também uma questão social muito forte», considerou Sílvia Padinha, numa conversa com o Sul Informação.

Este será, apenas, «mais um desafio», a juntar aos muitos que esta comunidade já enfrentou ao longo de cerca de 150 anos. «O nosso trabalho, enquanto associação, tem sido sempre encontrar soluções para os problemas. E esta situação não é diferente. Penso que todos temos a consciência de que estamos a viver numa zona muito frágil e todos nós vivemos dos recursos naturais».

«A Ria Formosa tem um potencial enorme, a vários níveis, e nós, enquanto residentes permanentes e querendo continuar neste meio, temos de o preservar. O que nós queremos é o equilíbrio entre o Homem e o meio», acrescentou a dirigente da AMIC.

Assim, as cerca de 400 famílias que aqui vivem e trabalham irão «abraçar esta ideia. Agradecemos que se tenham lembrado da Culatra para este projeto-piloto, é mais uma oportunidade que temos para mostrar que estamos favoráveis a tudo o que são os comportamentos corretos e a ajudar a alterar algumas mentalidades».

«Já tiramos proveito do peixe, do marisco e de outras coisas que a natureza nos dá. Agora, temos mais esta oportunidade de aproveitar o mar, o vento e o sol e viver aqui com uma harmonia maior», resumiu Sílvia Padinha.

Este sonho de transformar a Culatra numa comunidade energética exemplar não depende, ainda assim, apenas da vontade de quem ali vive e da UAlg. Daí que um dos primeiros passos tenha sido sondar quem trabalha com as tecnologias necessárias e na produção e distribuição de energia elétrica.

«Na semana passada tivemos a visita aqui à Culatra de uma série de empresas que demonstraram muito interesse nesta ideia. E nessa troca de impressões surgiram algumas conclusões que são extremamente importantes», revelou ao Sul Informação André Pacheco.

O feedback recebido apontou, desde logo, para a necessidade de envolver a população. «Todos os equipamentos que forem instalados aqui na ilha são da AMIC. Assim, é importante capacitar a comunidade para manter e preservar estes equipamentos e colaborar com as empresas e com a universidade», enquadrou o investigador do CIMA.

Mas há também «uma necessidade urgente de começar a debater esta questão com a AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, com a Agência Portuguesa do Ambiente, com o Parque Natural da Ria Formosa, com a Autoridade Marítima e com a Entidade Reguladora de energia, porque a instalação de dispositivos de energias renováveis ainda continua a ter bastantes restrições», para mais numa zona protegida, como aquela onde a ilha está inserida.

«Temos de olhar para esses obstáculos como uma oportunidade para mudar mentalidades e só o conseguiremos fazer – e que as mudanças passem, depois, para as leis – se conseguirmos criar, de certa forma, um regime de exceção para a Culatra, de modo a que este seja um projeto demonstrador de um sistema que pode, mais tarde, ser replicado noutros locais, seja em meio urbano ou comunidades isoladas», preconizou André Pacheco.

Desta forma, a Culatra poderia tornar-se uma referência no processo de transição energética, em que os combustíveis fósseis e outras fontes de energia pouco (ou nada) sustentáveis são gradualmente substituídos por fontes renováveis e limpas.

Mas, como é que isso se consegue?

«Para o conseguir, temos de criar exemplos práticos de como é que poderá ser feito. Por exemplo, temos aqui uma escola com uma exposição a Sul inacreditável. Com técnicas muito simples de bioarquitetura e com as energias renováveis integradas em redes inteligentes, é possível que as crianças da Culatra estejam a estudar numa das escolas mais modernas do país dentro em breve. Isto teria uma capacidade transformadora enorme. Porque as crianças vão levar esta mudança para as suas casas. É aqui que começa a consciencialização e a capacitação», acredita André Pacheco.

Escola Básica da Culatra

Sílvia Padinha mostra-se em sintonia com o vice-diretor do CIMA, considerando ser «importante que seja dado conhecimento e formação, para que nós possamos mudar os hábitos. É muito bonito falar em sustentabilidade. Mas o que é que é isso, para a maior parte das pessoas? O que é que é preciso fazer?».

«Aqui há essa vertente, quanto a mim, muito interessante, pois também será transmitida aos mais jovens, que, aos poucos, conseguem convencer os adultos a mudar os seus comportamentos. É pelos mais novos que temos de começar. Em casa, as famílias respeitam cada vez mais as opiniões dos filhos e os hábitos deles acabam por educar os pais. Penso que este é o caminho para “entrar” em casa das pessoas», disse.

Sílvia Padinha lembrou que, ao longo do tempo, se conseguiu sensibilizar a comunidade piscatória da Culatra para a mudança de hábitos. «Toda a gente pensava que os pescadores não iam aderir ao projeto “Mar sem Lixo”. A Culatra foi a primeira comunidade, no Algarve, e a segunda a nível nacional a juntar-se. Houve 130 pescadores e mariscadores que aceitaram o desafio e que, hoje, não só trazem de volta o lixo que produzem, como também o que vão recolhendo nas suas redes, para o depositar nos sítios próprios».

Para já, tendo em conta que ainda não há um projeto concreto, não é possível avançar custos nem prazos. Mas há já uma ideia sobre potenciais fontes de financiamento.

Além do CRESC Algarve 2020 e do Fundo Ambiental, «há também aqui uma vertente científica e de inovação, pelo que poderemos pensar, também no Horizonte 2020 e no PO SEUR».

«Como universidade somos uma instituição idónea e assumimos uma posição de aconselhamento da Associação de Moradores. Este é um projeto para a comunidade e tem de ser a AMIC a pegar nele. Nós estamos disponíveis para colaborar com os moradores e com as empresas para encontrar os meios para a execução do projeto», segundo André Pacheco.

Sílvia Padinha, por seu lado, considerou que esta ideia «chega na altura certa, porque as casas terão de ser todas alvo de vistoria e poderíamos olhar para isto, para perceber quais são as exigências e tentar desde já fazer as alterações necessárias».

Até porque já foi aprovado o PIR da Culatra e «ainda há tempo para introduzir algumas alterações». Sílvia Padinha disse ao Sul Informação que acredita que haverá abertura da parte da APA e da Câmara de Faro para que as adaptações ao plano sejam realizadas. «Estamos a começar, por isso, o melhor é começar da maneira certa».

«Tem de haver vontade política e nós vamos ter de fazer com que haja vontade política», ilustrou, a rir, Sílvia Padinha.

Fotos: Pablo Sabater|Sul Informação

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