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«O Algarve de Artur Pastor» desvenda-se em Lagoa até 31 de Março

«O Algarve de Artur Pastor» | Arquivo Municipal de Lisboa - a "tourada do mar"

«O Algarve de Artur Pastor» | Arquivo Municipal de Lisboa – a “tourada do mar” — Atum “pegado”, Tavira [entre 1943 e 1945]. PT/AMLSB/ART/050216

A primeira grande exposição das fotografias de Artur Pastor patente no Algarve abriu ontem no Convento de S. José, em Lagoa, onde pode agora ser vista até 31 de Março. E merece bem ser visitada, porque, naquelas comoventes imagens de um mundo a preto e branco, nos anos 40 e 60 do século passado, está um Algarve do qual hoje só se encontram vestígios.

A exposição «O Algarve de Artur Pastor» é o culminar da 2ª edição dos Encontros de Fotografia de Lagoa, que incluíram ainda uma photo fair, exposições de fotografia e de postais ilustrados antigos e um concurso internacional. Mas, como disse Nuno Loureiro, diretor dos Encontros, na abertura da mostra, «fazer melhor do que isto será agora muito difícil».

«O Artur era alentejano, mas apaixonou-se pelo Algarve. Às vezes, quando vínhamos para cá, ele estava mal disposto, mas mal começávamos a viagem ele ficava logo com boa disposição», recordou a D. Rosalina, viúva do fotógrafo, que esteve presente na sessão, com os dois filhos do casal, Artur e José.

«As suas fotos têm um cariz muito ligado à nossa identidade e esta exposição é isso mesmo. Muito dificilmente, em futuros Encontros, conseguiremos descobrir outro fotógrafo que nos dê esta aproximação à identidade do Algarve», acrescentou, por seu lado, Nuno Loureiro.

A sessão de abertura começou com um pequeno vídeo, feito a partir de uma sequência de luminosas fotos de Artur Pastor com crianças, no Portugal de há meio século. Uma sequência que deixou a assistência emocionada, nomeadamente Francisco Martins, presidente da Câmara de Lagoa, que teve de falar logo a seguir. «Não tenho palavras depois de ver estas fotos. Vi ali realmente as crianças, vi ali o meu filho de dois anos. Ele era um daqueles meninos que comia uma maçã», comentou o autarca.

Artur Pastor em ação, fotografado por Artur Pastor (filho)

Artur Pastor em ação, fotografado por Artur Pastor (filho)

«O Algarve de Artur Pastor» mostra um conjunto de 61 fotografias a preto e branco e apresenta-se como uma viagem na região, de Odeceixe a Vila Real de Santo António, focando dois períodos considerados «particularmente interessantes» do percurso fotográfico do autor: as décadas de 40 e de 60 do século passado.

As 61 imagens do núcleo central da exposição são provenientes do Arquivo Municipal de Lisboa, a quem a família há algum tempo entregou o espólio do fotógrafo. De início, não foi fácil convencer os responsáveis por esse arquivo a ceder as fotos requisitadas para a mostra em Lagoa, algumas delas impressas e apresentadas ao público pela primeira vez.

A exposição integra também livros (nomeadamente o muito requisitado e esgotadíssimo «O Algarve», de Artur Pastor, que chega a custar centenas de euros nos alfarrabistas) e três maquetes para três livros que Pastor nunca chegou a publicar, catálogos, recortes de jornais e outros documentos.

Há ainda um pequeno núcleo de postais ilustrados, com fotografias de Artur Pastor, na sua maioria provenientes da coleção de Nelson Fantasia, um colecionador de Estoi que esteve presente na abertura da exposição. «É uma coisa quase inédita, já que, quanto a esta coleção de postais, sabe-se que tem fotos dos anos 40, mas não se sabe quando foi produzida, quantos postais eram na totalidade. A própria família só possui quatro desses postais. Por isso, até agora ainda não se conseguiu saber quantos postais havia na totalidade», explicou Nuno Loureiro ao Sul Informação.

O segundo núcleo apresenta 12 imagens bem mais recentes, dos anos 90, a cores, da Costa Vicentina, feitas pouco antes do falecimento do autor (em Setembro de 1999). Para ver, há ainda dois vídeos: «As crianças de Artur Pastor» e «A Paisagem de Artur Pastor», ambos exibidos no auditório.

Além das fotografias que são, obviamente, o coração desta mostra, o diretor dos Encontros chama a atenção para a qualidade dos textos escritos por Artur Pastor, e que também podem ser, em parte, apreciados nas salas do Convento de S. José, que receberam obras para acolher esta exposição. «De início, quando comecei a pesquisar para esta exposição, o que me fascinou mais nem foram as fotografias, que em parte já conhecia, mas os textos», contou Nuno Loureiro.

Olhão, pela objetiva de Artur Pastor | Arquivo Municipal de Lisboa

Olhão, pela objetiva de Artur Pastor | Arquivo Municipal de Lisboa — [Gente no bairro da Barreta], Olhão [entre 1943 e 1948]. PT/AMLSB/ART/023321

Artur Pastor, nascido em Alter do Chão, em 1922, fez a tropa no quartel de Tavira e deve ter sido então que se apaixonou pelo Algarve. Tirou o curso de Regente Agrícola, em Évora, e foi ao serviço do Ministério da Agricultura que começou a fotografar, correndo o país de lés a lés.

«Fotografou sistematicamente, dos anos 40 aos anos 90, o país todo. E havia sítios que ele fotografava repetidamente», recorda Nuno Loureiro que, para preparar esta exposição, fez um intenso trabalho de pesquisa.

Pastor era um fotógrafo eclético, que «tanto fotografava paisagem, como retrato, vida real, imagens encenadas, como a icónica imagem da jovem algarvia sentada no burrinho».

Mas o autor era também «muito cuidadoso e muito organizado, o que permite ter acesso a uma quantidade enorme de fotografias, devidamente classificadas».

A exposição «O Algarve de Artur Pastor» pode agora ser visitada no Convento de S. José, em Lagoa, até 31 de Março. Para as escolas e associações, do concelho de não só, está a ser delineado um intenso programa de visitas acompanhadas, que darão a conhecer às várias gerações este Algarve, agora quase perdido. «O objetivo é que esta exposição seja muito visitada e que isso permita uma redescoberta da identidade do Algarve», explica Nuno Loureiro.

Mas os planos do diretor dos Encontros de Fotografia de Lagoa não se ficam por aqui: «tenho a esperança de conseguir editar um livro sobre esta exposição, com a totalidade das fotografias que tinham sido pedidas ao Arquivo Municipal de Lisboa, e que eram 90, mas também com os postais, para que seja um livro representativo da região. Financiamento para isso há!».

 

Abertura da exposição «O Algarve de Artur Pastor» e visita às restantes exposições:
(Fotos Elisabete Rodrigues/Sul Informação)

 

HORÁRIO: A exposição pode ser vista no Convento de S. José de terça-feira a sábado, das 9h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. Encerrado ao domingo e segunda-feira.

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