Festival Terras sem Sombra aprofunda cada vez mais os laços com Espanha

«Queremos manter esta matriz ibérica», revelou José António Falcão

O Festival Terras sem Sombra, que este fim de semana está na cidade raiana de Elvas, apresenta na sua 15ª edição «aspetos de certo modo novos: por um lado, o festival abrange, neste momento, os quatro distritos do Alentejo, ao mesmo tempo que se estendeu à vizinha Espanha».

«É um festival que já integrou a Extremadura e, portanto, tem carácter ibérico», disse José António Falcão, diretor geral do Terras sem Sombra, em entrevista ao Sul Informação.

«Houve uma adesão entusiástica de um e de outro lado da fronteira. A nossa escala aumentou do ponto de vista geográfico, mas também do ponto de vista de número de participantes e até de numero de atividades, cerca de meia centena, que vão ter lugar em 2019», acrescentou aquele responsável.

O Festival, que começou por ser apenas do Baixo Alentejo, mas agora se estende a todos os quatro cantos da maior região portuguesa e até já passou a fronteira, esteve, durante o mês de Março, na Extremadura, com concertos e outras atividades em Valência de Alcântara e Olivença, localidades extremenhas com grande ligação a Portugal.

«Esta aposta num festival que se estendeu a todo o Alentejo e, ao mesmo tempo, integrou também a Extremadura, parece uma aposta ganha», salientou José António Falcão.

O diretor geral do festival sublinha a «grande aceitação do público espanhol: as igrejas em Espanha são substancialmente maiores que as nossas, têm uma capacidade que ultrapassa as 600 pessoas, e estavam, nas duas localidades onde estivemos, em Valência de Alcântara, primeiro, depois em Olivença, verdadeiramente à cunha. Era casa cheia, mas mesmo completa, não cabia mais uma pessoa».

E o público espanhol adere não só do seu lado da fronteira. Nos concertos no Alentejo, também há espanhóis em grande número, que seguem com entusiasmo todas as atividades propostas pelo programa, como aconteceu em Beja e, este fim de semana, em Elvas.

José António Falcão confessou, na sua entrevista ao Sul Informação, que «gostaríamos muito de continuar esta caminhada que temos vindo a fazer com Espanha, a dois níveis: por um lado, com o Governo Autónomo da Extremadura, que nos convidou para termos um mês português em terras espanholas». O objetivo, adiantou é «continuar esta experiência, provavelmente até alargando a outras terras, porque a Extremadura é um território desconhecido para muitos portugueses e para muitos espanhóis. Tem realmente qualquer coisa de terra prometida que vale a pena conhecer».

Por outro lado, salientou, «tem sido muito profícua a colaboração com o Governo central espanhol, com o Ministério da Cultura e dos Negócios Estrangeiros de Espanha. Por isso, queremos manter esta matriz ibérica».

 

José António Falcão, no fim de semana em Beja

Um exemplo do grande interesse que este Festival desperta em Espanha é o facto de o fim de semana em Beja ter sido acompanhado por um grupo de estudantes, e seus professores, do Mestrado de Jornalismo Cultural da Universidade Complutense de Madrid. «Existe hoje uma grande curiosidade, um interesse verdadeiro por parte de Espanha em relação a Portugal. Nós éramos uma espécie de grandes desconhecidos que estávamos aqui ao lado, uma espécie de irmãos que falavam pouco entre si».

Por isso, «esta possibilidade de termos connosco o master de jornalismo cultural, o mestrado, com os seus professores e seus alunos, revela que o Alentejo desperta interesse. Nós temos qualquer coisa, não sei se de pioneiro, se de experimental, que os cativou. Estiveram aqui dois dias, participaram em todas as atividades, fizeram imensas perguntas, conversaram com as pessoas, e vão fazer eles próprios as suas peças», considerou José António Falcão.

«Alguns destes jovens são já jornalistas profissionais, que estão agora a fazer uma especialização. São pessoas que trabalham em jornais como o El País ou na Rádio Nacional de Espanha, que estão a iniciar a sua carreira profissional e é bom que a iniciem conhecendo Portugal».

Este foi um Festival que «cresceu, tornou-se mais interessante e, ao alargar-se a novas geografias, integrou também outras realidades, que vieram complementar e levar mais longe aquilo que já fazíamos».

Um dos aspetos mais importantes que José António Falcão em relação ao Terras sem Sombra é o facto de ele trazer «uma visão cosmopolita da cultura a territórios rurais como estes, do Alentejo e da Extremadura».

Por outro lado, há «uma grande interação que vamos tendo com o público, que é não apenas regional e nacional, mas ibérico e internacional. Nota-se que há uma interação, que estas pessoas chegam às nossas comunidades, estão aqui durante uns dias e identificam-se com as próprias experiências». Ou seja, não se trata de um festival toca e foge, mas antes de um evento que parte das raízes para cativar o seu público, levando-o a integrar-se, por uns dias, num mundo diferente…e a querer voltar.

 

José António Falcão, numa das visitas do ano passado

Com o Festival Terras sem Sombra a entrar na sua metade final, José António Falcão recordou que «a programação que nos aguarda até Julho é suficientemente variada para permitir desfrutar de diferentes perspetivas da música. Vamos continuar com um ciclo de grandes intérpretes, de grandes solistas, que em alguns casos vêm pela primeira vez até nós».

Outro aspeto interessante desta edição de 2019 é «a reflexão do papel da mulher na música, que muitas vezes passa um bocadinho despercebido. Mas nós temos alguns espetáculos em que os artistas que estão em palco são mulheres e isso chama a atenção para essa realidade diferente», garantiu o diretor.

Este ano, com o tema genérico «Sobre a Terra, sobre o Mar – Viagem e Viagens na Música (Séculos XV-XXI)», o Festival tem como país convidado os Estados Unidos da América. E José António Falcão sublinha o privilégio que tem sido «podermos mostrar o que há de mais interessante na música norte-americana dos nossos dias, ao nível de compositores e de intérpretes. Porque a música norte-americana é um continente em parte desconhecido na Europa. E estamos a pôr aqui uma lança em África, estamos a trazer programações que têm interesse para um público muito lato». De tal forma a programação é interessante que «têm estado connosco os principais críticos musicais de Espanha, França, Itália, acompanhando este trabalho».

No fim de semana em Beja, que teve como convidados o Delphi Trio, constituído por Liana Bérubé, Michelle Kwon e Elizabeth Schumann, três jovens músicas norte-americanas, de San Francisco, uma das participantes foi Hero Mustafa, a ministra conselheira da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, já uma verdadeira habituée do Terras sem Sombra. Desta vez, depois de ter plantado mais uma árvore em terras alentejanas (no jardim público de Beja), Hero Mustafa assistiu, à noite, ao concerto na antiga igreja do Convento de São Francisco, hoje pousada.

Mas, a abrir a edição de 2019, o cante alentejano já tinha sido pela primeira vez levado a Washington DC, tendo o grupo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, acompanhado pelo seu ensaiador Pedro Mestre, atuado no John Kennedy Center for the Performing Arts, uma das mais importantes salas de espetáculos da capital norte-americana.

Tudo boas razões para que José António Falcão possa dizer que «a interação com os Estados Unidos tem decorrido da melhor maneira».
«A Cultura é, realmente, a casa de todos, o sítio onde nos sentimos todos à vontade. E tem havido uma verdadeira integração dos músicos norte-americanos, que desfrutam muito desta deslocação ao Alentejo. Vindo aqui, estão a conhecer uma realidade, que, em alguns aspetos, é muito distante do seu quotidiano, mas identificam-se com ela».

Além disso, acrescentou o diretor do festival na sua entrevista ao Sul Informação, «esta capacidade que a música tem de juntar as pessoas e torná-las felizes flui naturalmente aqui».

É que, sublinhou, «queremos que os artistas sejam os primeiros embaixadores do Alentejo. A experiência que eles aqui têm com o público, que os recebe de uma maneira muito atenta e respeitadora, é extraordinária. O facto de estarem aqui pessoas dos mais diversos quadrantes…os músicos têm essa sensibilidade, apercebem-se de qual é o publico que está a escutá-los».

Por outro lado, os músicos, que sempre participam das atividades de património e biodiversidade que integram um fim de semana de festival, misturados com o público, acabam por sentir «uma grande afinidade emotiva e até espiritual com a nossa maneira de ser».

É, aliás, este o «espírito» do Festival Terras sem Sombra: «nós pretendemos realmente que o Alentejo tenha uma programação cosmopolita, que não só descentralize a cultura até nós, e nos traga a música mais interessante a nível global, mas, ao mesmo tempo, oferecermos experiências muito genuínas, que nos toquem a todos, não apenas aos que estamos cá, mas também aos que nos visitam nesta ocasião».

Já no próximo fim de semana, de 11 e 12 de Maio, o festival ruma a Ferreira do Alentejo.

 

 

FERREIRA DO ALENTEJO
11 de Maio
15h00 – Património do Tempo: A Villa do Monte da Chaminé e a Romanização no Baixo Alentejo
Ponto de encontro: Jardim Municipal, R. Zeca Afonso, Ferreira do Alentejo
21h30 – Villa Romana do Monte da Chaminé
A Música como Passaporte: Um Roteiro Magiar
Guitarra e direção musical Ferenc Snétberger
Soprano Orsoly Janszo
Violino László Horvath
Clarinete Elemér Fehér, Béla Lakatos
Clarinete baixo, tárogató Norbert Sandor
Piano Benjamin Urban
12 de Maio
09h30 – Vizinhos Discretos: Insectos e Sustentabilidade nos Campos de Ferreira
Ponto de encontro: Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Rua Mariano Feio, Ferreira do Alentejo

 

ODEMIRA
25 de Maio
15h00 – A Montanha Mágica: História e Histórias de São Martinho das Amoreiras
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras
21h30 – SÃO MARTINHO DAS AMOREIRAS – Igreja Paroquial de São Martinho
Noutras Margens: Obras Americanas e Europeias para Flauta
Quartetazzo
Flauta Emilse Barlatay, Trinidad Jiménez, Leticia Malvares, Carmen Vela
Percussão Epi Pacheco
26 de Maio
09h30 – Mãe-d’Água: Expedição à Serra da Vigia
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras

 

BARRANCOS
8 de Junho
18h30 – Cineteatro Municipal
Convite à Viagem: Geografias, Memórias e Tempos do Canto Lírico
Contralto Ellen Rabiner
Piano Nuno Margarido Lopes
21h30 – Ler o Céu e as suas Tradições: Da Astrologia à Astrofísica
Ponto de encontro: Cineteatro, Baldio, Barrancos
9 de Junho
09h30 – Todos por Um: Prevenção e Combate do Fogo na Raia
Ponto de encontro: Jardim do Miradouro, Rua 1.º de Dezembro, Barrancos

 

SANTIAGO DO CACÉM
22 de Junho
15h00 – Corte na Aldeia: O Palácio da Carreira
Ponto de encontro: Palácio da Carreira, Largo do Capitão-Mor J. J. Salema de Andrade, Santiago do Cacém
21h30 – Igreja Matriz de Santiago Maior
Onde Está a Minha Casa? Tradição e Vanguardas na Música Checa (Séculos XIX-XX)
Československé Komorní Duo
Violino Pavel Burdych
Piano Zuzana Beresova
23 de Junho
09h30 – Mansa Corrente: O Curso Médio do Rio Sado
Ponto de encontro: Junta de Freguesia de Ermidas-Sado, Rua 25 Abril, n.º 2, Ermidas do Sado, Santiago do Cacém

 

SINES
6 de Julho
15h00 – Dentro do Olho do Cíclope: O Farol do Cabo de Sines
Ponto de encontro: Farol de Sines, Cabo de Sines
21h30 – Castelo de Sines
Longe, mas Perto: Identidades Musicais Contemporâneas nos EUA
Kronos Quartet
Violino David Harrington, John Sherba
Viola da gamba Hank Dutt
Violoncelo Sunny Yang
7 de Julho
09h30 – Nereu e Proteu: Vigiar e Cultivar o Mar
Ponto de encontro: Paços do Concelho, Rua Ramos da Costa, Sines

 

19 de Outubro [18h30]
Campo Maior Centro Cultural
Entrega do Prémio Internacional Terras sem Sombra

 

 

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