Beja recebeu o Terras sem Sombra, festival nas transumâncias do mundo

Fim de semana intenso, em que um trio de instrumentistas norte-americanas descobriu o coração do Alentejo

«Claudino, olha as ovelhas! Eu estou de costas e estou a vê-las a fugir!» E o rebanho de ovelhas corria e corria, espavorido com tanta gente, escapando ao controlo dos pastores alentejanos e beirões que, no domingo, dia 7 de Abril, estiveram na Herdade do Monte da Ponte, perto de Beja.

Os pastores alentejanos, vestidos com os trajes tradicionais com pele de ovelha, e aos que tinham vindo, nessa madrugada, do concelho da Guarda, agasalhados com espessas mantas de lã, juntaram-se ali, no meio do campo, com uma chuvinha miudinha a cair, para recriar a transumância, o movimento pendular e milenar que levava os rebanhos das serranias do norte, quando o frio apertava, para as pastagens verdejantes do sul.

Aquele domingo culminou mais um fim de semana do Festival Terras sem Sombra, desta vez em Beja.

Mas o programa tinha começado no sábado à tarde, dia 6, com a visita cultural, que se iniciou no antigo palacete da Família Vilhena, em pleno centro histórico da cidade, onde hoje funciona a Empresa Municipal de Águas e Resíduos de Beja, a EMAS.

Guiado pelo engenheiro de recursos hídricos Rui Marreiros, diretor da EMAS, e por José António Falcão, historiador de arte e diretor geral do Festival Terras sem Sombra, um grupo de mais de 50 pessoas foi depois conhecer as fontes, chafarizes e poços de Beja, que, desde tempo imemoriais, garantiram a riqueza da cidade – chafarizes da Suratesta, de Santa Clara e do Cano e ainda o Tanque dos Cavalos.

José António Falcão recordou que, em Beja, há «mais de uma centena de poços, fontanários e chafarizes inventariados», que vão agora integrar a publicação sobre a História da Água de Beja, dos século XV a 1960, da autoria de Marta Páscoa, a editar pela Câmara de Beja.

Nos arrabaldes, essas estruturas serviam para dar de beber aos grandes rebanhos que cruzavam as planícies alentejanas, mas também para regar as férteis hortas que envolviam a cidade de Beja.

Os hortelãos eram os «profissionais da água» de então, «antepassados do engenheiro Rui Marreiros e dos 122 funcionários da EMAS». A empresa municipal, sublinhou o engenheiro, «cuida deste património com muita atenção».

 

O primeiro chafariz visitado, junto à estrada para Évora, foi o de Suratesta, com origem provavelmente no século XVI, mas implantado na orla de uma quinta onde já houve, há quase 2000 anos, uma villa rustica romana.

Os chafarizes eram, recordou José António Falcão, «locais de licenciosidade» e «muito privilegiados para namoros. As pessoas vinham abastecer-se de água e muita coisa acontecia…», comentou o historiador, arrancando uma gargalhada da assistência.

Outro dos chafarizes visitados foi o do Cano, junto de um dos bairros históricos da cidade de Beja, o das Alcaçarias. «A água que sobejava ia para a horta do Cano, que era uma das mais ricas de Beja».

No século XIX, «com as preocupações sanitaristas, os tanques de lavagem não podiam ser ao ar livre» e construiu-se então um tanque coberto, uma bonita estrutura que ainda hoje existe e que pôde ser visitado.

Quando era usado, «certos dias eram para lavar lãs, outros para linhos e algodões», sempre com água corrente.

O Tanque dos Cavalos, o último a ser visitado, foi palco, em 1919, já nos tempos da I República, «de uma cena de pancadaria entre os pastores de Seia e Manteigas e o hortelão que tomava conta da água, o que obrigou à intervenção da GNR a cavalo». José António Falcão explica que esse episódio dá a noção da importância da água, mas revela também que «a transumância continuou até aos tempos da República».

 

À noite, teve então lugar o momento mais importante do Festival, o concerto do Trio Delphi, constituído pelas norte-americanas Liana Bérubé (violino), Michelle Kwon (violoncelo) e Elizabeth Schumann (piano).

Antes do início do concerto, que encheu por completo a antiga igreja do convento de S. Francisco, atual Pousada, Sara Fonseca, responsável pela organização do Terras sem Sombra, agradeceu ao Grupo Pestana «por permitir outro concerto em Beja, numa igreja». Aludia assim à retirada do apoio, por parte da Diocese de Beja, há dois anos, a um Festival que o próprio Papa Francisco acarinhou e que recebeu até o apoio da Rádio Vaticana.

José António Falcão, diretor geral do Terras sem Sombra, também iria aludir a essa questão, sublinhando que «de milagre em milagre, se faz este festival. Num momento em que algumas portas aqui bem perto se mantêm fechadas, é de salientar as portas que se abrem».

Herro Mustafa, ministra conselheira da Embaixada dos Estados Unidos da América em Lisboa, e uma habituée do Terras sem Sombra, garantiu, falando em português: «gostamos muito deste festival, porque mostra ao mundo o Alentejo». E recordou que, ainda nessa tarde, tinha plantado, no jardim público de Beja, mais uma árvore, a que deu o nome de «Tolerância», juntando-se assim ao sobreiro que, há dois anos, tinha plantado em Santiago do Cacém, e a quem batizara como «Compaixão».

«Com um pouco de compaixão e de tolerância, podemos resolver a maioria dos problemas do mundo», frisou a embaixadora.

Paulo Arsénio, presidente da Câmara de Beja, que participou em toda a programação do festival no seu concelho, sublinhou, por seu lado, a importância «cultural e económica» do evento, mas também a coincidência do fim de semana por terras pacenses marcar, precisamente, o «meio do festival».

E José António Falcão, acrescentaria, para dar o tom ao concerto que se seguiu, pleno de virtuosismo: «este festival não é apenas uma série de concertos, mas uma história da música escutada em capítulos».

E depois, das mãos do Trio Delphi, vindo de San Francisco, na Califórnia, para o Convento de São Francisco, em Beja, saiu um contemporâneo e muito interessante «Trio para Piano e Cordas nº1», de Pierre Jalbert, seguido do conhecido «Trio para Piano e Cordas nº2, em Mi bemol maior, D.929», do romântico Franz Schubert. Momentos de puro encantamento, saudados por ovações entusiásticas do público, constituído por gente de todo o país, do Algarve ao Porto, passando por muitos espanhóis.

 

No domingo de manhã, apesar do céu muito nublado e da chuvinha que começou a cai, foi a vez da ação de biodiversidade que sempre encerra os fins de semana do Terras sem Sombra.

No Agroturismo Xistos, integrado na Herdade do Monte da Pedra, recriou-se o movimento secular da transumância dos rebanhos, que desciam das serranias da Beira, no Inverno, até às planícies do Alentejo, usando as rotas dos pastores, protegidas por regras com muitos séculos, as canadas reais no termo de Beja.

Foi preciso aguardar a chegada de um grupo de pastores da Serra da Estrela, que tinham partido do concelho da Guarda às 4h00 da manhã, já não a pé, com os seus rebanhos e cães, mas de autocarro. Na herdade do Monte da Pedra, esses homens das Beiras iriam juntar-se aos pastores alentejanos e trocar experiências.

José António Falcão recordou o trabalho dos pastores, «elementos determinantes do desenvolvimento da ovinicultura no nosso território, desde há milénios», «vivendo noite e dia com as ovelhas, arrostando perigos, sujeitos a dificuldades, meses longe das suas famílias».

O investigador espanhol Feliciano Novoa, um medievalista que há anos estuda a transumância, sublinhou que «a Península Ibérica vestiu a Europa do Norte durante séculos», com a lã das suas ovelhas, sendo os pastores «altamente especializados e protegidos por legislação régia especial».

«Quem ousasse roubar gado ou atacar um pastor era, pura e simplesmente, enforcado», recordou José António Falcão.

Tendo em conta todo o trabalho de investigação e recuperação que, também deste lado da fronteira, tem estado a ser promovido sobre a transumância, o diretor geral do Terras sem Sombra anunciou um desejo: «levar um rebanho alentejano, com as cores de Portugal, até às Portas do Sol, em Madrid», nessa jornada extraordinária em que o coração da capital espanhola continua a ser atravessado por milhares de ovelhas transumantes.

Tanto os pastores alentejanos, como os beirões já não são do tempo dessas longas transumâncias de centenas de quilómetros, entre a Serra da Estrela e o Campo Branco alentejano. Mas os do sul falam ainda de ir «até Mértola ou até ao pé da Vidigueira, quatro ou cinco dias de viagem, com o rebanho, os cães e uma burra para carregar os parcos haveres, mais tarde um trator». Os da Serra da Estrela iam das serranias até Idanha, em busca de pasto para as suas ovelhas.

«Eram transumâncias mais locais, já que as mais longas são algo mais antigo», explicou José António Falcão.

Com a chuvinha a cair, os cerca de 50 pastores beirões e alentejanos andaram pelas terras da herdade atrás de um rebanho de ovelhas, só que estas, nada habituadas a ver gente, sobretudo tanta gente (mais de uma centena de pessoas, no total), fugiam espavoridas à sua frente e nem o trabalho da «Pirata», uma cadela pastora arraçada de Border Collie, as conseguiu conter.

No meio deste magote de gente, seguiam três mulheres maravilhadas com tudo o que viam, ouviam e cheiravam: as músicas americanas Liana Bérubé, Michelle Kwon e Elizabeth Schumann. E por isso os seus telemóveis encheram-se de fotografias com a burra «Rita» e o pastor que a conduzia, com as ovelhas, com os pastores alentejanos, com as suas samarras, e beirões, com as mantas à costas, da paisagem. Sorrisos desdentados, fartas bigodaças, rostos curtidos pelo sol, pelo frio e pelos anos, tudo isso invadiu os telemóveis do trio de norte-americanas.

«Nós vimos de San Francisco, na Califórnia, que é uma grande cidade, e nunca tínhamos visto nada disto! É maravilhoso este contacto com a natureza e com as tradições», disse Liana Bérubé ao Sul Informação.

 

Depois de um passeio de duas horas, sob chuva miudinha, atrás das ovelhas, pelas colinas verdejantes da herdade, seguiu-se o almoço nos pavilhões da Ovibeja. A ementa, como não podia deixar de ser, incluiu ensopado de borrego (que não foi do agrado de um grupo de jovens estudantes do mestrado de Jornalismo Cultural da Universidade Complutense de Madrid, que vieram a Beja para fazer reportagem sobre o festival), queijos, enchidos, pão e vinho. Dieta mediterrânica, pois claro!

Antes, houve a demonstração da tosquia de uma ovelha e, sobretudo, para deslumbramento do trio de músicas americanas, que não perderam pitada, houve cante alentejano. Munidas dos seus telemóveis, Liana, Michelle e Elizabeth gravaram em vídeo o «som da terra» daquele grupo de homens. «É tão lindo!», confessou Liana.

E porque o Festival Terras sem Sombra se faz por capítulos, no próximo fim de semana de 27 e 28 de Abril ruma ao Alto Alentejo, a Elvas. Nota importante: a participação em todas as atividades é livre e não necessita de inscrição.

 

ELVAS
27 de Abril
Património: 15h00 – Confluências Raianas: Arte Popular e Arte Contemporânea em Elvas
Santuário do Senhor Jesus da Piedade, Avenida da Piedade, Elvas

Concerto: 21h30 – Igreja de Nossa Senhora da Assunção (Antiga Catedral)
Antonio de Cabezón: Itinerários pela Europa ao Serviço do Rei
Órgão Juan de la Rubia

28 de Abril
Biodiversidade: 09h30 – Resistir ao Invasor: O Jacinto-de-água e a Bacia do Guadiana
Ponto de encontro: Hotel de Santa Luzia, Avenida de Badajoz

 

O que resta da programação:

CUBA
4 de Maio
15h00 – No País de Fialho de Almeida: Lugares e Memórias do Autor d’Os Gatos
21h30 – Igreja Matriz de São Vicente
Coração Viandante: Canções de Amor e de Embalar no Oriente e no Ocidente
Soprano Manila Adap
Piano Alberto Urroz
5 de Maio
09h30 – Tesouros da Terra: Geologia e Castas Tradicionais em Cuba
Ponto de encontro: Igreja matriz de São Vicente, Largo 5 de Outubro, Cuba

FERREIRA DO ALENTEJO
11 de Maio
15h00 – Património do Tempo: A Villa do Monte da Chaminé e a Romanização no Baixo Alentejo
Ponto de encontro: Jardim Municipal, R. Zeca Afonso, Ferreira do Alentejo
21h30 – Villa Romana do Monte da Chaminé
A Música como Passaporte: Um Roteiro Magiar
Guitarra e direção musical Ferenc Snétberger
Soprano Orsoly Janszo
Violino László Horvath
Clarinete Elemér Fehér, Béla Lakatos
Clarinete baixo, tárogató Norbert Sandor
Piano Benjamin Urban
12 de Maio
09h30 – Vizinhos Discretos: Insectos e Sustentabilidade nos Campos de Ferreira
Ponto de encontro: Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Rua Mariano Feio, Ferreira do Alentejo

ODEMIRA
25 de Maio
15h00 – A Montanha Mágica: História e Histórias de São Martinho das Amoreiras
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras
21h30 – SÃO MARTINHO DAS AMOREIRAS – Igreja Paroquial de São Martinho
Noutras Margens: Obras Americanas e Europeias para Flauta
Quartetazzo
Flauta Emilse Barlatay, Trinidad Jiménez, Leticia Malvares, Carmen Vela
Percussão Epi Pacheco
26 de Maio
09h30 – Mãe-d’Água: Expedição à Serra da Vigia
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras

BARRANCOS
8 de Junho
18h30 – Cineteatro Municipal
Convite à Viagem: Geografias, Memórias e Tempos do Canto Lírico
Contralto Ellen Rabiner
Piano Nuno Margarido Lopes
21h30 – Ler o Céu e as suas Tradições: Da Astrologia à Astrofísica
Ponto de encontro: Cineteatro, Baldio, Barrancos
9 de Junho
09h30 – Todos por Um: Prevenção e Combate do Fogo na Raia
Ponto de encontro: Jardim do Miradouro, Rua 1.º de Dezembro, Barrancos

SANTIAGO DO CACÉM
22 de Junho
15h00 – Corte na Aldeia: O Palácio da Carreira
Ponto de encontro: Palácio da Carreira, Largo do Capitão-Mor J. J. Salema de Andrade, Santiago do Cacém
21h30 – Igreja Matriz de Santiago Maior
Onde Está a Minha Casa? Tradição e Vanguardas na Música Checa (Séculos XIX-XX)
Československé Komorní Duo
Violino Pavel Burdych
Piano Zuzana Beresova
23 de Junho
09h30 – Mansa Corrente: O Curso Médio do Rio Sado
Ponto de encontro: Junta de Freguesia de Ermidas-Sado, Rua 25 Abril, n.º 2, Ermidas do Sado, Santiago do Cacém

SINES
6 de Julho
15h00 – Dentro do Olho do Cíclope: O Farol do Cabo de Sines
Ponto de encontro: Farol de Sines, Cabo de Sines
21h30 – Castelo de Sines
Longe, mas Perto: Identidades Musicais Contemporâneas nos EUA
Kronos Quartet
Violino David Harrington, John Sherba
Viola da gamba Hank Dutt
Violoncelo Sunny Yang
7 de Julho
09h30 – Nereu e Proteu: Vigiar e Cultivar o Mar
Ponto de encontro: Paços do Concelho, Rua Ramos da Costa, Sines

19 de Outubro [18h30]
Campo Maior Centro Cultural
Entrega do Prémio Internacional Terras sem Sombra

 

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

 

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