«O Algarve tem crescido bem» mas é preciso diversificar, diz o CEO do Novo Banco

Na região, «há uma limitação que são as pessoas», diz António Ramalho

António Ramalho, CEO do Novo Banco – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

«O Algarve tem crescido bem nos últimos anos, em relação ao resto do país», mas o peso dos serviços, em especial do Turismo, é maior que a média nacional, pelo que a «diversificação da base produtiva regional é um desafio importante para o futuro». O diagnóstico foi feito por António Ramalho, CEO do Novo Banco, na semana passada, durante um jantar de trabalho em Faro, com jornais regionais, entre os quais o Sul Informação.

Para este responsável, «os níveis de crescimento do Algarve são bons, mas muito assentes no turismo». Na região, «há uma limitação que são as pessoas, porque há falta de trabalhadores para responder às exigências crescentes do Turismo».

Por outro lado, defende, «não tivemos ainda arte e engenho de, diversificando a oferta de serviços complementares», criar «capacidade no turismo e reduzir a importação de bens, criando mais consistência na oferta da cadeia que o turismo permite».

António Ramalho acrescentou que «os grandes desafios que se vão colocar ao Algarve são potenciar esta estrutura do turismo, criando mais RevPar (rendimento por quarto) em cima do turismo, e simultaneamente, conseguir que o turismo e o seu efeito multiplicador se verifiquem mais sobre a região e não sobre a importação ou outras regiões do país».

O diagnóstico apresentado pelo presidente do Conselho de Administração do Novo Banco, sobre o Algarve no Contexto Nacional, começa por salientar que o PIB algarvio (de cerca de 9 mil milhões de euros) representa apenas 4,6% do PIB português, sendo esta a região NUTSII com menor peso no continente.

No entanto, o PIB per capita, ou seja, por habitante, do Algarve é o 2º mais elevado do país, logo a seguir a Lisboa. Mas esta não é uma boa notícia já que, lembrou António Ramalho, «o PIB per capita elevado penaliza a região na captação de fundos estruturais europeus».

Por outro lado, sublinhou o CEO do Novo Banco, a região algarvia «vive de serviços e cada vez mais», com o Turismo a ganhar peso.
Em 2017, por exemplo, 87% do VAB da economia regional provinha dos Serviços, 3% da Agricultura, floresta e pesca, e apenas 10% do setor da Indústria transformadora e extrativa, que inclui ainda a construção e até o tratamento e distribuição de água, o saneamento e gestão de resíduos.

Ou seja, salientou, «o Algarve tem vindo a perder cada vez mais na indústria», que, por exemplo em 2005, representava 16% do VAB (embora certamente com grande peso da construção e não propriamente da indústria de per si).

Créditos: Depositphotos

Ora, apesar do crescimento que a economia da região tem verificado nos anos mais recentes, António Ramalho chama a atenção para uma «questão limitadora desse crescimento, que é a falta de pessoas».

«Há uma redução da população ativa, que é atualmente de 268 mil pessoas, mas que será de apenas 235 mil em 2080», frisou. «Isto restringe o crescimento do potencial produtivo» da economia algarvia.

E nem os trabalhadores imigrantes conseguem atenuar esta realidade, já que o seu número também sofreu uma aparente diminuição, apesar de ter havido uma «pequena recuperação nos anos recentes».

«As projeções apontam para uma relativa estagnação da população da região a médio prazo (e uma queda a longo prazo), com um aumento da população idosa (incluindo o contributo de reformados estrangeiros), e uma continuada redução do peso da população em idade ativa, o que constitui um desafio importante para as perspetivas de crescimento» do Algarve.

O CEO do Novo Banco, na sua análise sobre a realidade económica da região, apontou também que o fator demográfico é importante ainda noutro aspeto: o da taxa de desemprego.

Nos últimos anos, salientou, «a taxa de desemprego no Algarve registou uma descida mais acentuada que no conjunto do país, atingindo, em 2018, 6,4% da população ativa».

Mas «a remuneração média dos trabalhadores no Algarve é menor que no resto do país». Por outro lado, apesar de o emprego estar fortemente concentrado nos Serviços (83%), com o grande peso do Turismo já referido, o aumento do ganho médio mensal tem sido menor nos trabalhadores algarvios dos Serviços, que noutros setores, como a Educação.

Na região do Algarve, no que concerne ao volume de negócios das empresas, destacam-se os setores do Comércio, Alojamento e Restauração e da Construção.

Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

Esta região tem um peso de apenas 2,4% no total nacional do volume de negócios das empresas, mas essa expressão é «claramente superior no Alojamento e Restauração, com um peso de 13,6%, e na Construção, com 4,7%».

«Verifica-se que tem havido um crescimento positivo em todos os setores», mas é sobretudo nos do Comércio, Alojamento e Restauração e da Construção que se nota esse acréscimo. «Estamos a crescer em setores onde estamos mais fortes, o que não tem acrescentado muito à diversificação das atividades», explicou aquele administrador.

Em relação aos pilares setoriais, o Turismo, como já se viu, é quem se destaca. «O Turismo do Algarve tem um peso decisivo na economia portuguesa», representado perto de 50% do VAB gerado pelo turismo.

No entanto, «em 2018, surgiram alguns sinais de moderação da atividade associada a turistas estrangeiros», o que pode fazer soar sinais de alarme.

António Ramalho salientou que «um terço da quota de hóspedes estrangeiros no Algarve é do Reino Unido. Mas a flutuação recente da libra e as dúvidas sobre o Brexit criam muitas instabilidades». E a França, que é «um fenómeno recente de crescimento», não chega para suprir a quebra dos britânicos.

Ainda quanto ao Turismo, os seus proveitos estão em crescimento, mas «em desaceleração», sobretudo no Algarve, onde, em relação ao resto do país, tem sido «menor o crescimento do rendimento por quarto» e onde continua a ser «maior a sazonalidade na ocupação».

O Turismo, acrescentou o presidente do Conselho de Administração do Novo Banco, «é uma extraordinária alavanca» para a economia regional.

Só que, porque a atividade económica estão tão focada no turismo, tendo pouca expressão outros setores, como as pescas ou a agricultura, a região acaba por «desperdiçar em parte esse efeito de alavanca, por não produzir o que o turismo exige». É que, muito do que é consumido no Algarve, para alimentar o alojamento turístico e a restauração, vem de fora da região e até de fora do país.

No seu encontro com os responsáveis pelos jornais regionais algarvios, António Ramalho falou ainda do posicionamento do Novo Banco na economia do Algarve. 51% das empresas com volume de negócios superior a 2,5 milhões de euros, são clientes deste banco, sendo que esses clientes representam «quase dois terços do volume de negócios da restauração e do alojamento».

Por tudo isso, o Algarve tem um peso de 11% na atividade do NB, o que «é significativo», segundo o seu CEO.

O encontro de António Ramalho com os jornalistas integrou-se na «Summit do Algarve Os Nossos Campeões», que decorreu no passado dia 21, no Centro de Congressos dos Salgados, com a presença de muitos campeões algarvios, nas mais diversas áreas.

O responsável pelo banco privado aproveitou ainda a sua deslocação à região para visitar empresas e negócios que são clientes do NB.

No dia anterior, António Ramalho presidiu à cerimónia de entrega, ao Museu Municipal de Faro, da obra «Torre de Babel», uma pintura flamenga do século XVII, da coleção de arte do Novo Banco.

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