Pintura flamenga do século XVII é um «filme extraordinário» no Museu de Faro

Diretor do Museu e presidente da Câmara de Faro esperam que relação com o Novo Banco Cultura «não se esgote» neste protocolo

«Isto é um filme extraordinário que está aqui», diz, entusiasmada Ana Paula Rebelo Correia, apontando para a «Torre de Babel», a pequena pintura flamenga do século XVII, de autor desconhecido, que desde esta terça-feira, 19 de Fevereiro, passou a figurar no Museu Municipal de Faro.

É que, no quadro, um óleo sobre madeira, com apenas 40 por 57,5 centímetros, está representada a Torre de Babel, inacabada, que se ergue em espiral até ao céu, mas à sua volta há «todo um universo de atividades», que fervilham. Os pormenores são tantos, «como num filme», mostrando como era a vida e o que se pensava nesse século XVII flamengo, que Ana Paula Rebelo Correia, especialista em história de arte, explica que, o ideal, até seria ver esta pintura «com uma lupa».

Trata-se de uma «peça religiosa, mas que tem um pé no profano», que se integra de forma perfeita no Museu de Faro e no seu acervo de pintura «extraordinário». «Estou contentíssima que a obra tenha vindo para o Museu de Faro», «está no sítio certo, não tenho dúvida nenhuma», garantiu a especialista.

Quem também não tem dúvidas disso é Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, que considerou que a pintura, que integrava o acervo do Novo Banco e agora passará a estar exposta em permanência na capital algarvia, «chega num momento muito feliz do nosso museu», que se tornou um dos mais visitados da região.

António Ramalho, CEO do Novo Banco, salientou, por seu lado, que «este é o 15º museu» com o qual a instituição bancária estabelece uma parceria para distribuir as obras que antes estavam dispersas pelas salas da administração e de jantar do banco. Agora, no seguimento de um projeto do Novo Banco e do Estado Português, prevê-se a distribuição desse acervo por museus nacionais e por espaços museológicos de outras tutelas.

O que interessa, salientou António Ramalho, «não é a propriedade da obra, mas a sua partilha». É que o projeto Novo Banco Cultura tem «uma preocupação de descentralização», «envolvendo «municípios e museus» em todo o país.

Quanto ao tema da pintura flamenga, a Torre de Babel, António Ramalho sublinhou a «multiculturalidade de Faro», que se tornou um «centro de atividade internacional».

O tema da multiculturalidade foi também sublinhado por Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro, salientando que a cidade, desde as suas origens, e pela sua localização junto ao mar e pela diversidade de povos que por aqui passaram (e continuam a passar, graças ao aeroporto e ao turismo), sempre foi «uma espécie de Torre de Babel».

Marco Lopes disse ainda que a «partilha idealizada pelo Novo Banco é mais do que democratização da cultura, é um ato de cidadania». Por isso, fez votos que esta Torre de Babel seja o «símbolo de uma linguagem única de partilha de cultura e de defesa do património».

A pintura flamenga, que vem enriquecer o acervo do Museu, que nada tinha dessa proveniência, «também serve um dos objetivos da cidade», que é a candidatura a Capital Europeia da Cultura.

O diretor do Museu exprimiu também um desejo: «que esta relação [entre o Novo Banco Cultura e a Câmara de Faro] não se esgote nesta obra de arte» e possa «ser alargada».

Um desejo partilhado pelo presidente Rogério Bacalhau, que fez votos que «a parceria que se estabelece com o Novo Banco se possa estender a outros campos».

No início da sessão, a diretora regional de Cultura do Algarve, que até assumir o cargo em Dezembro passado era professora da Universidade do Algarve, recordou que tem «trazido todos os meus alunos a visitar esta sala» do Museu, que vai agora «ficar muito enriquecida com este quadro». «Toda a cidade vai ganhar, porque esta nova obra vai certamente trazer gente a Faro», acrescentou.

Recordando a sua especialização em estudos clássicos, Adriana Freire Nogueira disse ainda que esta Babel remete para o «indo-europeu», «essa língua que se pensa que poderá estar na base de todas as línguas europeias».

No fim da sessão, depois de assinado o protocolo de parceria entre autarquia e instituição bancária, Ana Paula Rebelo Correia, especialista e investigadora em história de arte, falou um pouco sobre a pequena pintura flamenga e o projeto Novo Banco Cultura.

Recordou que a obra que agora figura no Museu de Faro, bem como muitas outras, integrava o «acervo que pertencia ao BES, mas que não estava constituído como coleção», antes estando espalhado «pelas salas de jantar e da administração» do antigo banco. «Muitas destas obras estiveram anos fora do olhar do publico, nunca tendo estado expostas».

Tratava-se, sublinhou, de «obras cuja história, identidade e memória estavam por descobrir». No total, no que diz respeito à pintura, são 98 peças, das quais 94 quadros e quatro mapas portulanos, do século XVI ao início do século XXI. É, por isso, «uma coleção eclética, porque tem um pouco de tudo».

O projeto Novo Banco Cultura, sublinhou, veio dar a esse acervo «uma identidade» e «recuperar a memória e a história de cada peça», acabando por constituir-se numa coleção que «permite retraçar grandes momentos da história da Europa».

Ana Paula Rebelo Correia confessou a uma plateia atenta gostar «muito» de pintura flamenga, acrescentando que esta obra, em particular, «mereceu um estudo especial», que passou por análise detalhada no Instituto José de Figueiredo.

A investigadora elogiou ainda o «olho de lince» do diretor do Museu de Faro, ao escolher o local, na sala de pintura antiga, para expor esta «Torre de Babel», que é «uma pintura pequenina», como eram as obras dos pintores da Flandres desse século XVII, que usavam madeira em vez da tela preferida pelos italianos.

«Esta pintura está feita numa só tábua», explicou. E nela, o autor tentou «pôr o máximo de universos, tentou pôr o mundo numa coisa pequenina». «Se vos desse uma lupa a cada um, veriam que esta obra é como um filme, está cá tudo!».

Ana Paula Rebelo Correia acrescentou que a Torre de Babel, que é um tema bíblico do Antigo Testamento, só «aparece tardiamente na iconografia cristã», porque surge sobretudo na época da Reforma e Contra Reforma, nas lutas entre Católicos e Protestantes. Simboliza, entre outras coisas «a ideia da ambição humana», explicou aquela especialista em história de arte.

No pequeno quadro, que nem chega a ter 40 por 60 centímetros, está então representada essa Torre de Babel mítica, «de planta circular e arquitetura complexa».

Mas ali à volta há elementos da arquitetura clássica que os pintores flamengos tinham ido beber a Roma, há a recriação de um estaleiro que certamente seria igual ao das grandes catedrais, pedreiros a trabalhar um bloco de pedra, centenas de pessoas que se ocupam das mais variadas tarefas do dia a dia, dromedários, burros e mulas a transportar materiais para a construção da torre, barcos à vela no mar, azenhas a funcionar.

É, mais do que uma evocação da construção dessa mítica Torre de Babel, o quadro é um retrato da vida e do pensamento da época e da região em que a obra foi pintada. Um verdadeiro «filme»…ou uma gigantesca prancha de banda desenhada.

Como concluiu a historiadora de arte: «só espero que esta obra suscite muitos momentos de contemplação».

 

O que é o projeto Novo Banco Cultura

O protocolo entre o município de Faro e o Novo Banco foifeito no âmbito da parceria anunciada em 2018 entre o Estado e esta instituição bancária, que vai permitir, até ao primeiro semestre deste ano, ceder um total de 37 obras a 20 museus de 14 regiões do país.

Esta iniciativa está integrada na estratégia do Novo Banco – adquirido pelo fundo norte-americano Lone Star – para realizar parcerias com entidades públicas e privadas, como museus e universidades, para depósito do seu património cultural e artístico.

O património cultural e artístico do Novo Banco inclui a Coleção de Pintura, com cerca de cem quadros do século XVII ao século XX, a Biblioteca de Estudos Humanísticos de Pina Martins, que está à guarda da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Coleção de Numismática e a Coleção de Fotografia, já qualificada pelo presidente do Novo Banco como «a joia da coroa».

O Algarve segue-se assim a Castelo Branco, Guarda, Guimarães, Setúbal, Caldas da Rainha, Figueiró dos Vinhos, Lisboa, Viseu, Torres Novas, Óbidos, Madeira e Açores, que previamente também receberam obras das coleções da entidade bancária para exposição permanente em museus locais.

Em finais de Janeiro, teve lugar a cedência, ao Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, de dois mapas portulanos do século XIX da autoria de José Fernandes Portugal, e de duas pinturas de José Júlio de Souza Pinto para o Museu de Angra do Heroísmo.

Depois da cedência de uma pintura flamenga do século XVII ao Museu Municipal de Faro, e em 27 de Abril está prevista a cedência de uma pintura francesa do século XVIII para o futuro Museu de Peniche.

Até ao final do primeiro semestre, uma pintura flamenga do século XVII irá para o Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, pinturas portuguesas do século XVII vão para o Museu Regional Rainha D. Leonor, em Beja, pinturas portuguesas do século XX para o Museu Municipal do Crato e uma pintura europeia do século XVIII para o Museu de Lamego.

Para António Ramalho, CEO do Novo Banco, o objetivo é que «as obras fiquem em Portugal, mas sejam partilhadas e abertas à fruição do público em geral».

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

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