«Não há falta de mão de obra na hotelaria, há é falta de condições de trabalho»

Sindicato diz que setor do Turismo está a chegar «ao limite da escravatura»

Tiago Jacinto

As soluções para a falta de mão de obra na hotelaria passam pelo aumento de salários e pela melhoria das condições de trabalho. Esta é a opinião dos sindicatos do setor que, esta terça-feira, numa ação pública, na Oura, em Albufeira, distribuíram um comunicado aos veraneantes, com as suas sugestões para resolver o problema da falta de trabalhadores nos hotéis e restaurantes da região.

Tiago Jacinto, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve, disse aos jornalistas que «existem vários problemas no setor, mas o principal não é a falta de mão de obra. O principal é, sim, a incapacidade de fixar trabalhadores. O que verificamos é que, quando voltamos a determinado local, não encontramos os mesmos trabalhadores».

Para o sindicalista, «a primeira razão para isto são os baixos salários. A hotelaria e o turismo estão a crescer dois dígitos, mas os salários dos trabalhadores estiveram bloqueados durante 10 anos».

A juntar a isto, «as empresas deixaram de pagar os feriados e o trabalho suplementar».

Veraneantes receberam comunicado

Também a precariedade é outro problema. «Precisamos de trabalhar 12 meses por ano, mas agora chega a haver pessoas contratadas à semana, ao dia ou até à hora». Segundo Tiago Jacinto, «tem havido um agravamento dos contratos a prazo, do trabalho temporário e dos estágios. Chegam estagiários, às centenas, de outras regiões do país, que, no fim do estágio, não ficam empregados. É mão de obra a custo zero que acaba por ocupar postos de trabalho».

O sindicalista também realça a «crescente dificuldade dos trabalhadores em conciliar a vida familiar e privada com a profissional. As empresas, desde o Governo PSD/CDS, deixaram de ter a obrigatoriedade de comunicar os horários à ACT. Isto leva a que haja alterações de horário de um dia para para o outro e ao prolongamento das jornadas de trabalho».

Também é apontada ao anterior Governo outra crítica: «acabou com a Carteira Profissional. Isto leva a que um cozinheiro possa sair de uma cozinha para ir trabalhar a seguir para um jardim. Há uma estratégia montada para desvalorizar o trabalho e isto leva à degradação do serviço. Há pessoas novas, sem experiência, a trabalhar no setor e isso reflete-se na qualidade do serviço. É importante repor a obrigatoriedade da Carteira Profissional nos setores que trabalham com o público», considera Tiago Jacinto.

Segundo o sindicato, tem também havido «um aumento de casos de assédio moral no trabalho. Temos trabalhadores que, com mais de 20 anos de casa, nos contactam porque querem despedir-se».

Veraneantes receberam comunicado

Por tudo isso, considera Tiago Jacinto, «Não há falta de mão de obra, há é falta de condições de trabalho».

Maria das Dores Gomes, da Federação de Sindicatos da Hotelaria e Turismo, concorda com o diagnóstico feito por Tiago Jacinto e acrescenta que «há trabalhadores que se reformam deste setor, com reformas de miséria, porque algum do valor que receberam não foi sujeito a descontos. A pressão é muito grande e já há situações de troca de comida e dormida por salários. Estamos a chegar ao limite da escravatura».

Há ainda «muitos trabalhadores que nem sabemos se existem. São clandestinos e a própria ACT não tem meios para fiscalizar».

Para António Goulart, da União de Sindicatos do Algarve, para resolver todos estes problemas, o que é preciso é «mudar o paradigma» do setor do turismo no Algarve e acabar com a ideia de «que os trabalhadores ficam “congelados” e “descongelam” no Verão, ficando prontos a “servir”».

Goulart explica que a falta de mão de obra existe porque os trabalhadores «não querem ir para o setor» e «os patrões acabam a competir com outros setores que oferecem melhores condições».

Para o responsável pelos sindicatos no Algarve, «há uma agenda escondida: o que é dito hoje pelas empresas é o mesmo de há 20 anos, com o objetivo de importar mão de obra de outros países. Nós acolhemos esses trabalhadores de braços abertos, o que não aceitamos é que haja o objetivo de trazer esses trabalhadores para baixar os salários».

Este ano e ao fim de longos meses de negociações, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve chegou a acordo com a Associação dos Industriais da Hotelaria e Similares do Algarve (AHISA) para aumentar os salários dos trabalhadores da hotelaria em 3%.

No entanto, assume Tiago Jacinto, o acordo atingido no novo Contrato Coletivo de Trabalho «não é satisfatório». Isto porque, «estava congelado desde 2009. Só conseguimos uma nova revisão em 2017. São muitos anos sem a revisão das tabelas salariais. A inflação subiu 10%, mas os dois aumentos salariais acordados, em 2017 e em 2018, não chegam para repor o valor da inflação. Achamos o aumento pequeno, mas foi o acordo possível», conclui.

 

Sobre este tema, leia ainda a reportagem Emprego no turismo aumentou, precariedade manteve-se e salários subiram «um bocadinho»

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