A 24 de Junho de 1874, o “primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo visitou Tavira

Após visitar Beja, Mértola e as Minas de São Domingos, como já aqui recordámos, o presidente do conselho de ministros […]

Após visitar Beja, Mértola e as Minas de São Domingos, como já aqui recordámos, o presidente do conselho de ministros e também ministro da Guerra, Fontes de Pereira de Melo, empreendeu a visita ao Algarve.

Era um tempo em que a região era remota e ignorada, como nos dá conta José de Beires, então governador civil de Faro: “O Algarve é a província menos conhecida de Portugal; não se sabe o que produz e muito menos o que é susceptível de produzir, porque é muito pouco visitado, quer por nacionaes quer por estrangeiros, nem é isso de admirar attendendo-se aos exccessivos incommodos e depezas que actualmente custa uma viagem ao Algarve”.

A pequena cordilheira serrana impossibilitava o acesso fácil à região e, sem vias de comunicação, o Algarve fora votado ao esquecimento pelo Reino de Portugal durante séculos.

Por isso, o governador José de Beires não tinha dúvidas em considerar a ligação ferroviária de Faro a Casével (Castro Verde), término da linha desde 1870, como “uma das primeiras, senão a mais importante necessidade” da província.

Com a construção da via férrea suspensa, indeterminadamente, desde 1866, e sem uma ligação por estrada ao Alentejo (que o governo abandonara, com a desculpa da dotação da região com o caminho de ferro), o isolamento continuava.

Mas que província remota era esta? O que produzia? Façamos então uma breve caraterização, baseado no “Relatorio apresentado à Junta Geral do Districto de Faro na sessão ordinária de 1874”, pelo já citado governador civil José de Beires.

Assim, em 1873, a população da região era de 188 186 habitantes, que se distribuíam por 69 027 fogos. No distrito, existiam a funcionar, públicas, 51 escolas masculinas (frequentadas regularmente por 1 924 rapazes) e 8 femininas (351 raparigas), enquanto particulares eram 16 masculinas (546 alunos) e 49 femininas (804 alunas).

Havia ainda 34 escolas noturnas (857 alunos). Não obstante, apenas 13%, das cerca de 30 mil crianças, entre os 6 e 14 anos, frequentavam estabelecimentos de ensino. No Liceu Nacional de Faro, o único da região, estavam inscritos 120 alunos ordinários e 267 voluntários.

A indústria da pesca constituía uma das maiores riquezas. Empregava 5 462 pessoas, aos quais se adicionavam 200 a 300 marítimos que a ela se dedicavam ordinariamente, bem como 130 na pesca especial de atum, corvina e sarrajão.

Relativamente às embarcações, existiam 148 botes, 138 lanchas, 85 abrangeis, barcos, artes ou calões e 50 caíques, bem como 76 canoas e 7 rascas e faluchos.

No que toca ao setor agrícola, em 1872, apenas 51% da superfície da região era cultivada, sendo que os principais cereais colhidos, no ano seguinte, foram o trigo (1 209 995 alqueires), cevada (319 329), milho (271 281) e centeio (131 583). Nos legumes, predominou a batata (503 659 alqueires), o grão (38 600) e os tremoços (31 630). Não obstante a quantidade (estimada por cima), quer de cereais quer de legumes produzidos, estes foram inferiores aos quantitativos consumidos.

Relativamente aos frutos secos, evidenciava-se o figo (880 604 arrobas), a amêndoa (140 120 decalitros) e a alfarroba (183 315 arrobas).

Tinha também proeminência a colheita de laranja (21 651 milheiros) e limão (11 640 milheiros). Frutos que se exportavam com abundância para o país e para o estrangeiro (principalmente o figo, então o “ouro” da região).

Os vinhedos, que haviam sido muito afetados pelo oídio, produziram 232 316 decalitros de vinho, enquanto a produção de aguardente se cifrou em 33 976 decalitros.

Na pecuária, destacava-se o gado lanígero (49 112 cabeças), caprino (40 114), suíno (32 753), bovino (17 386) e asinino (15 267 cabeças).

Era este Algarve distante e misterioso, que ia receber um dos maiores estadistas de Portugal, António Fontes Pereira de Melo.

Na verdade, a província não era de todo alheia à sua família. O seu pai, João de Fontes Pereira de Melo, havia-se destacado em Alcoutim, aquando as invasões francesas, ao serviço do capitão de fragata José Joaquim Alves.

Naquela vila raiana, estabeleceu João de Melo uma ponte no rio, garantindo a passagem do exército espanhol, que vinha acossado pelos franceses, ficando estes últimos em S. Lucar, por lhes ser de imediato impedida a passagem. Também Fontes participara na batalha naval do Cabo de São Vicente, em 1833, ao lado das tropas liberais, onde se alistara voluntariamente.

Regressemos, todavia, a 1874 e à viagem ministerial. Na tarde de 24 de Junho, era o ilustre parlamentar esperado em Vila Real de Santo António pelas autoridades do distrito e pela Câmara Municipal, que lhe ofereceu, nos paços do concelho, um “lunch”, abrilhantado por uma música da vila.

O séquito partiu então para Tavira, por estrada. Em Cacela, encontravam-se as autoridades municipais tavirenses que acompanharam o estadista, num cortejo composto de 15 a 20 trens até à Veneza algarvia. A cidade engalanara-se e disso já o “Diário de Notícias” tinha dado conta na edição de 09/06/1874, ao transmitir que se preparavam “grandes festejos para quando ali chegar o sr. presidente do conselho”.

Pelas 18h30, a comitiva entrava em Tavira, estralejando nos ares muitas girândolas de foguetes. Aguardavam o insigne visitante o Batalhão de Caçadores 4, destacamento de cavalaria, autoridades e grande multidão de povo. O Batalhão formado em linha, de fileiras abertas, com a bandeira na frente, fez a continência.

O ministro seguiu para o quartel da sub-divisão, sempre acompanhado por muitos tavirenses, encontrando-se também as janelas apinhadas de damas. Feitos os cumprimentos da oficialidade, o chefe de governo saiu para conhecer a cidade.

Segundo o periódico lacobrigense “Gazeta do Algarve”, Tavira deslumbrava. Vejamos, apesar de longa, a descrição do acontecimento, que aquele jornal inseriu na edição de 01/07/1874: “nas margens do rio, na extenção d’um kilometro, erguiam-se a curta distancia elegantes postes, encimados alternativamente por bonitos galhardetes e candieiros. De poste para poste estendia-se em arcos uma longa grinalda de verdura e flores, da qual pendia grande número de balões de cores variadas. Ao centro da ponte haviam vestidos de custuosas tellas e ornados com galhadertes azues e brancos formosos pavilhões, um ao centro, que deixava livre o transito, e dois aos lados. Estes últimos estavam ricamente tapetados e adornados com cortinas de damasco e tule enfeitadas de rendas brancas. A mobília era estofada de verde, em um, e no outro de azul. Ao centro de cada pavilhão pendia um lustro. Em todo o comprimento das guardas da ponte haviam festões de murta, adornados com duas bandeiras cruzadas e um galhardete no cume. No logar, onde cruzavam as bandeiras, estava collocado o escudo das armas portuguezas. Em cada uma das extremidades da ponte erguiam-se duas grandes collumnas, sobre cujos capiteis avultavam duas espheras cor de roza, illuminadas a petróleo. Entre ambas as columnas pendurava-se uma linda grinalda de flores, em que se achavam suspensas d’um lado as armas de Tavira tendo no verso este dístico «Ao ex.mo presidente de ministros» e do outro as armas reaes, com este, «Viva a independência nacional»”.

A cidade extasiava naquele São João desusado, e mais ainda à noite, pois apesar da ventania, estavam iluminados o edifício da Câmara Municipal, a ponte, margens do rio, e alguns imóveis particulares, tendo o “Diario Illustrado” estimado um total de 3 000 luminárias.

Na guarda principal, além da iluminação, havia também um repuxo, com adornos produzindo “maravilhoso effeito”. No rio, navegavam muitos botes, “vistosamente adornados e illuminados com balões, conduzindo a seu bordo grande numero de damas e cavalheiros”.

Às 20h00 foi servido o jantar, oferecido pelo general da sub-divisão, a 23 convivas (que seriam os principais membros da comitiva), tocando durante o ato a banda de música.

Findo o jantar, Fontes Pereira de Melo deslocou-se para a ponte. Quando o presidente do conselho entrou no pavilhão, as bandas de Caçadores 4 e de Vila Real de Santo António tocaram o hino, subindo das margens do rio inúmeros foguetes.

Até à 1h00 e de acordo com o “Diario Illustrado”, o entusiasmo foi indescritível. À saída, o estadista foi cercado pelos tavirenses que o acompanharam até ao quartel, onde pernoitou.

Na manhã seguinte, visitou os quartéis, hospitais e asilo. Após o almoço, foi despedir-se das corporações e principais cavalheiros da cidade, mostrando-se “altamente agradado e reconhecido pelo acolhimento que ali recebera”.
Tavira maravilhara o chefe de governo que partia, com a sua comitiva por estrada para Faro.

(Continua)

 

Nota: As imagens utilizadas são meramente ilustrativas e correspondem a postais ilustrados.
Nas transcrições, manteve-se a ortografia da época.

 

 

Aurélio Nuno Cabrita

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação

 

 

 

 

 

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