Há 80 anos: Presidente da República Óscar Carmona visitou o Algarve em 15 de Fevereiro de 1932

“Ao entrar o comboio [presidencial] na estação de Faro subiram ao ar centenas de foguetes, ouvindo-se clamorosos vivas num indescritível […]

“Ao entrar o comboio [presidencial] na estação de Faro subiram ao ar centenas de foguetes, ouvindo-se clamorosos vivas num indescritível entusiasmo. A estação estava apinhada de gente” – (Diário de Notícias de 16/02/1932)

Há precisamente 80 anos o Algarve recebia em festa o chefe de Estado António Óscar de Fragoso Carmona. Eram volvidos seis anos de Ditadura Militar e Carmona ocupava, desde 9 de Julho de 1926, o cargo de presidente da República.

Temporariamente acumulara também a chefia do Governo, para a 15 de Abril de 1928, através de eleições, de que foi o único candidato, tornar-se chefe de Estado eleito.

O Ministério era presidido pelo General Domingos da Costa de Oliveira, e nele participava, na pasta das Finanças, António de Oliveira Salazar, uma personalidade que havia muito se destacava, não só no país, como no exterior.

Portugal atravessava em 1932 uma situação delicada, “perante a temerosa crise económica que assoberba o mundo”, que a Ditadura Militar tentava minimizar e simultaneamente impor-se, debelando as diversas revoltas (Reviralho) que tentavam restaurar o «bloco político-social do 5 de Outubro».

Algumas dessas insurreições tiveram forte adesão no Algarve, como a que ocorreu nos primeiros dias de Fevereiro de 1927.

Os algarvios também viviam, por aqueles dias, momentos difíceis, que o presidente da comissão distrital da União Nacional, Dr. Ramalho Ortigão, não deixou de elencar perante tão ilustre visitante: “O Algarve está doente, o seu comércio empobrecido, a sua indústria arruinada, e a sua agricultura vegetando”.

A visita do chefe de Estado ocorria, por isso, num momento sensível em termos sociais, económicos e políticos, existindo inclusive grande expetativa pela forma como este seria recebido na região.

Rodrigo de Sousa Pinto, nas colunas do semanário “O Algarve”, referia mesmo que a visita presidencial devia “marcar para a província o início de uma nova era de paz, de concórdia, de trabalho e, consequentemente de prosperidade.”

Advertia ainda que “aqueles que ao lado da Ditadura têm estado sempre ou com ela simpatizam, se unam cada vez mais (….). Os outros que têm combatido a situação que o movimento do 28 de Maio criou, convençam-se de que o passado, com os seus erros e os seus crimes, nunca mais voltará e, portugueses acima de tudo venham para o nosso lado, engrossar as hostes do bom combate”.

Rodrigo Pinto, acérrimo defensor da Ditadura Militar, apelidava por isso o acontecimento de “notável”, de que nenhum algarvio poderia “ficar indiferente”, para de seguida legitimar a importância da ocorrência: “É já hoje grandiosa a obra de ressurgimento nacional levada a cabo pela Ditadura Militar (…) Atesta-o por exemplo a reconstrução (que assim se pode chamar) das nossas estradas, esforço colossal que o Algarve, talvez mais que qualquer outra região do país, tem sentido”.

Na verdade, um dos objetivos da visita presidencial era a inauguração da ponte do Roxo (entre Aljustrel e Ferreira do Alentejo), que permitiria finalmente a viagem por estrada entre o Algarve e o resto do país.

Se o Presidente Carmona visitava oficialmente e pela primeira vez o Algarve, este não era porém de todo seu desconhecido, pois em Lagos comandara, em 1925, por escassos meses, a 4ª Região Militar.

 

As aspirações dos 16 concelhos do Algarve

 

Para uma breve caracterização do Algarve naquele tempo, vejamos algumas das aspirações elencadas na imprensa pelos 16 concelhos da região.

Albufeira pretendia que passasse para o Estado e que por este fosse reparado, um troço de 15 quilómetros da estrada que passava por aquela vila, que constituía uma variante da EN n.º23-1ª.

Desejava igualmente a cedência à Junta de Freguesia de Paderne do prédio destinado a residência paroquial, que estava em construção à data da proclamação da República e que não chegou a ser concluído.

Loulé era considerada “uma terra digna de ver-se; terra nova, moderna, bem arrumada e com um desenvolvimento notável”. O concelho congregava 60 000 habitantes e possuía o melhor hipódromo a sul do Tejo e uma das praias mais concorridas do centro do Algarve e Baixo Alentejo: Quarteira.

A Câmara Municipal ambicionava a montagem de uma estação telefono-postal e cabine pública em Alte, e ainda nesta freguesia, uma nova fonte e lavadouro público em Santa Margarida.

 

Queria também um telefone para Salir, e a conclusão do estudo e dotação para início de obras de terraplanagem nos últimos cinco quilómetros da estrada entre Corte Garcia e Barranco do Velho. Pretendia ainda a reclassificação das estradas municipais em nacionais, nomeadamente das Quatro Estradas e Quarteira – estrada de turismo, Loulé – Salir, Matos da Picota – Benafim Grande e Ponte de Quarteira até Albufeira.

Alcoutim, que já então se dizia “A Esquecida”, por não ter qualquer acesso por estrada à região e ao país, ambicionava por isso a abertura da de Vila Real a Mértola, e a conclusão da ligação ao Porto de Lagos.

O concelho exportava cerca de 1 milhão de quilos de trigo, 6 mil arrobas de amêndoa e muitos dúzias de ovos para Espanha, tendo estes últimos pago em 1931 no posto fiscal da vila 83 000$00 de direitos.

Alportel, como então era designado o concelho de São Brás, desejava a construção de uma albufeira na ribeira do mesmo nome, para irrigação e produção de energia elétrica, bem como a unificação dos empréstimos de 330 000 $00, que aguardavam autorização no Ministério das Finanças.

Já a capital de distrito, Faro, apontava a abertura do porto comum Faro-Olhão (o canal de acesso fora aberto oficialmente a 15/09/1929) como uma das obras mais notáveis para a vida económica do centro do Algarve.

A Câmara Municipal pretendia que a estrada municipal de circunvalação a Faro passasse para a esfera do Estado, ficando a cargo da Câmara todas as ruas que faziam parte da estrada de Sagres a Vila Real.

Lembrava ainda a urgência da reparação das estradas do Patacão a Santa Bárbara de Nexe, e desta última localidade à Cabana Queimada. Pedia também que fossem nomeados “sem demora os professores para as diversas escolas primárias”.

Tavira dizia-se um dos concelhos mais ricos do Algarve e a cidade uma das melhor iluminadas eletricamente da região. Os tavirenses dispunham de abastecimento de água ao domicílio e a rede de esgotos estava completa (com cerca de 8000 metros de coletores).

O desassoreamento do rio Gilão decorria a bom ritmo, bem como a pavimentação das ruas da cidade. A Câmara aspirava ainda a construção de uma estrada que ligasse Tavira a Cachopo pela Picota, e a concessão de quatro subsídios no total de 3 100 contos. Estes subsídios eram destinados à abertura de poços, caminhos na serra, conclusão da 1ª fase e início da 2ª nas obras de defesa do porto, construção de uma ponte, cais acostável e rebocador.

Por fim e terminando o Sotavento, em Vila Real de Santo António decorria o plano geral das obras do porto, entre o Esteiro da Carrasqueira e a Ponta da Areia.

A Câmara pretendia autorização para contrair um empréstimo de 2 000 contos para resolver o problema dos esgotos da localidade. Ambicionava também um mercado para Cacela e a perfuração de poços na mesma freguesia.

A arborização da estrada de Vila Real a Monte Gordo e o prolongamento da estrada do Pocinho à Corte António Martins e de uma outra de Santa Rita, constituíam também aspirações da autarquia pombalina.

Quanto aos concelhos do Barlavento, Aljezur solicitava um subsídio para a construção de uma escola naquela vila e lembrava que já em 1927 e 1928 lhe havia sido prometida uma verba de 50 000$00 (€ 250) mas que até ao momento não havia sido disponibilizada.

(Continua)

Aurélio Nuno Cabrita

 

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional

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