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Alcoutim encheu-se de “contrabandistas” e até o ministro das Finanças ficou feliz

Quem conhece a habitualmente pacata Alcoutim, certamente ficará espantado se por lá passar este domingo, dia 26 de Março, ou se tiver rumado a esta vila do interior do Algarve, desde sexta-feira. As ruas estão cheias de gente, alguma “estranha” e com trajes que fazem lembrar outros tempos, muita outra a falar idiomas que não o português, há música e muita animação e do cais de Alcoutim parte uma ponte pedonal que permite passar sem sobressaltos até Sanlúcar de Guadiana, do outro lado do Rio.

Com a organização do Festival do Contrabando, «um sonho antigo», a Câmara de Alcoutim e a Alcaidaria de Sanlúcar de Guadiana, de Espanha, quiseram criar um evento diferenciador, passível de se tornar «uma âncora» na programação cultural e de animação em ambos os territórios. Tendo em conta os muitos visitantes, mesmo com o tempo instável, os organizadores da iniciativa parecem ter acertado em cheio.

No Festival do Contrabando há um pouco de tudo: artes e ofícios tradicionais, tanto à venda com em demonstrações ao vivo, os tradicionais (e tentadores) produtos da terra e até contrabandistas e guardas-fiscais, que passeiam pelas ruas, elementos centrais de um programa de animação intenso, que chega a ambos os lados do Guadiana. Mas há também gastronomia ao bom estilo serrano, desde os tradicionais cozido de grão e enguias fritas, aos pratos de caça.

Para chegar até aqui, além da ideia do festival, que há muito germinava entre as gentes de Alcoutim e Sanlúcar, foi fundamental o apoio dado pelo programa 365 Algarve. Foi com o dinheiro extra que veio por via da iniciativa das Secretarias de Estado da Cultura e do Turismo que foi possível «fazer um evento com estas caraterísticas e dimensão», nomeadamente a instalação da ponte pedonal, que se revelou uma aposta certeira, já que houve centenas de pessoas a afluir a ambas as vilas para experimentar a sensação de atravessar o Guadiana a pé.

A comparticipação do 365 Algarve também permitiu o forte programa de animação e fazer as primeiras Jornadas do Contrabando, uma conferência que juntou conhecimento e memória, no dia em que o evento foi lançado.

Uma iniciativa que se mostrou fundamental para enquadrar um novo festival. Até porque, para alguns, pode parecer estranho que um evento promovido por duas autarquias de países distintos e apoiada por dinheiros públicos de ambos os lados da fronteira, tenha o nome e celebre uma atividade que era ilegal.

Na raia do Baixo Guadiana, o contrabando foi, durante séculos, um modo de sobrevivência para muitas famílias votadas à miséria. Ou seja, não era uma escolha, era uma necessidade.

«Nós não somos, obviamente, apologistas do que é ilícito nem é com esse objetivo que realizamos esse evento. o que nós pretendemos é homenagear a história e os atores e protagonistas de uma época em que, dentro de um contexto que foi explicado nas Jornadas do Contrabando. Muitas pessoas foram obrigadas a enveredar por esta prática em tempos difíceis que opuseram a lei à sobrevivência», enquadrou o presidente da Câmara de Alcoutim Osvaldo Gonçalves ao Sul Informação.

No fundo, trata-se de pegar na história do território para a valorizar não só as memórias, mas o território em si. «Avançámos este ano com a primeira edição, graças ao apoio que tivemos do 365 Algarve. Queremos continuar a elevar isto e criar aqui um evento âncora para a nossa sub-região, mas também num contexto regional», explicou.

A comissária do programa 365 Algarve acredita que será precisamente isso que se conseguirá, com este novo festival, que tem a caraterística única no Algarve de ser transfronteiriço. «Este é um exemplo a seguir. A fronteira deve ser de aproximação, não de separação», considerou.

O presidente da Região de Turismo do Algarve também não escondeu a sua satisfação por ver nascer um festival com estas caraterísticas no interior da região. «Este caminho que Alcoutim está a fazer é cada vez mais obrigatório. Esta é uma das ações mais importantes do programa», considerou.

Este domingo, ainda é possível desfrutar do evento até à noite, estnado previstas, além da feira de produtos tradicionais e das zonas de tasquinhas, uma sessão de circo acrobático  «Hombre que Perdia los Botones», pelo grupo Circ Panic, no Castelo de Alcoutim (19h00), o Teatro físico, pela companhia Só, no Cais Sul de Alcoutim (18h00 e 20h00), e uma arruada pelos Galandum Galundaina, com início às 21h00.

O regresso do neto pródigo, feito ministro das Finanças

No primeiro dia do Festival do Contrabando, o dia foi ocupado, quase na totalidade, pelas jornadas, que tiveram lugar na antiga Alfândega de Alcoutim, hoje ocupada pelas Finanças. A ponte pedonal só foi inaugurada ao final da tarde, com muita gente a aproveitar para ser dos primeiros a fazer a pé o caminho entre a vila algarvia e Sanlúcar.

A festa continuou ontem, sábado, dia 25 de Março, com muita animação cultural e turística, bem como com a abertura das bancas da Feira. Também foi este o dia escolhido para inaugurar oficialmente o certame, cerimónia que contou com a presença do ministro das Finanças Mário Centeno.

E depressa se percebeu que, mais do que a ligação histórica deste ministério ao Contrabando, enquanto entidade legisladora e, claro, repressora desta atividade, Mário Centeno tem um ligação muito forte a Alcoutim, onde estão as suas origens familiares. As memórias dos Centenos de Alcoutim estão, por exemplo, nas paredes dos Paços do Concelho, onde a foto do bisavô do agora ministro está colocada na parede, por este ter sido o primeiro presidente de Câmara pós-Implantação da República.

Mas estão também na memória de muitos, já que foram diversas as pessoas, todas elas mais idosas, que abordaram Mário Centeno, recordando que foram alunos de sua avó. E, apesar do membro do Governo já ter nascido em Vila Real de Santo António, de onde saiu ainda jovem, o seu pai é natural de Giões.

No discurso que fez, além do seu legado familiar, o ministro considerou que o contrabando é «uma reação natural quando se erguem barreiras que não deviam existir». No caso da raia do Guadiana, como deixaram claro os investigadores presentes nas Jornadas do dia anterior, interferiu com práticas comerciais seculares.

Mas não deixou de realçar «a importância histórica que também a Guarda Fiscal tem na região do Guadiana», já que o estabelecimento de postos ao longo do rio, pelo antigo Ministério da Fazenda, criou postos de trabalho «onde os jovens alcoutenejos encontravam uma ocupação profissional».

Certo é que, hoje, os antigos contrabandistas e guardas fiscais de Alcoutim, que um dia estiveram de lados opostos da barricada, têm conversas amistosas, onde se recorda um tempo em que se passava o rio às escondidas e com o coração nas mãos, para ganhar dinheiro.

 

Veja as fotos do Festival do Contrabando:

Fotos: Hugo Rodrigues| Sul Informação

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