Associação Pousio leva artistas ao interior do Algarve

Residência artística coloca em contacto população envelhecida e jovens artistas

Foto: Agência Ecclesia

A Associação Pousio – arte e cultura promoveu uma residência artística na localidade de Cachopo, Tavira, na diocese do Algarve, com o objetivo de aproximar os artistas e as comunidades mais afastadas dos centros urbanos.

«O objetivo da residência era trazer artistas que estão habituados a trabalhar em Lisboa, em cidades, e levá-los para fora das cidades, para o campo, e começarem a ver novas coisas, inspiraram-se em novos temas, e absorver a calma do campo e a sua beleza», explica à Agência ECCLESIA José Sottomayor, da Pousio, responsável pela residência que levou quatro artistas, durante 15 dias, a permanecer na localidade algarvia.

A residência artística aconteceu em Cachopo pela segunda vez e procurou, para além do tempo de criação artística dado a cada um dos participantes, aproximar a população, que é mais envelhecida, dos jovens artistas que ali estiveram.

«Na primeira vez que viemos resultou muito bem e eu acho que foi porque esta terra, as pessoas que fazem esta terra, têm muita vontade de conversar, de estar e nós também e viemos cá para estar, em primeiro lugar e depois tínhamos o trabalho artístico para produzir», sugere José Sottomayor, artista plástico.

Ana Vala, artista visual, sublinha a oportunidade do tempo que ali estiveram, em contacto com a população, em serões sem hora marcada onde trocavam impressões sobre o trabalho e as inspirações de cada um, mas também pela beleza que encontrou na localidade que desconhecia.

Foto: Agência Ecclesia

«A parte da natureza é a primeira coisa que capta a atenção: muitas flores, muitas cores, muitos tons de verde. Tivemos sorte de calhar nesta altura do ano, está tudo a florescer e também as pessoas: as pessoas são incríveis, todas muito generosas e o projeto tinha essa dimensão mais social e de contacto entre nós e a população», conta.

Entre os quatro artistas está Rafael Raposo Pires, artista visual que se centrou no espaço e nas caminhadas que a região convida a fazer.

«Sinto que é um ambiente seco, não tanto árido, mas é um ambiente difícil de coexistir com este calor, e esta paisagem que às vezes é muito semelhante. Temos de estar a caminhar durante meia hora e a paisagem é idêntica, há uma repetição. Tenho feito umas performances filmadas com pedras principalmente, em que estou a tentar explorar o peso ou a massa da pedra, a questão temporal de agarrar a pedra, em relação ao espaço, com a câmara e fazer algumas experiências deste género», conta.

Para o artista visual a arte «também pode ser divertida» e foi a partir da lonjura do espaço que, de uma ideia inicialmente pensada, foi sendo adequada ao tempo e ao contexto de Cachopo.

Mónica Coelho, apaixonada por estruturas, trazia uma ideia a desenvolver durante os 15 dias, mas ao deparar-se com um objeto, hoje enferrujado, que em tempo serviu para exibir jornais para venda, deixou o projeto inicial e quis dar «uma vida nova» a algo enferrujado pelo tempo.

Foto: Agência Ecclesia

«Esta estrutura, pendurada há muito tempo, já não vende jornais. Comecei a pensar nisso e a recolher palavras e coisas que têm a ver com a ideia de ruína, de algo que já não é usada, e a forma como é que esta terra sobrevive sem jornais, que é algo que nunca me passou pela cabeça. Estou a começar ir mais para esse lado de perceber a falta que isto faz aqui ou não, e perceber a história da peça», explica.

A artista plástica valoriza o tempo que passam com a população, a visita a pessoas idosas em casas isoladas e o conhecimento de um modo de vida distante do seu, essencialmente citadino.

«Sinto que só o estar aqui é importante. Eles reconhecem que passarem cá pessoas é importante, porque sabem que vamos levar a sua história para fora», regista.

Ana Vala fala na residência como um «processo» em que o importante é absorve o que ali viveu para depois «descobrir outras coisas e concretizar outras ideias».

José Sottomayor lembra que a residência é feita por cada um dos participantes e será o que cada um tirar daqueles dias, mesmo que não se meça em projetos realizados.

«É muito importante o estar, parar, refletir, ver, ter tempo, é muito importante o ter tempo, ou o dar tempo. É o que damos aqui: à terra, às pessoas, às vezes é só um bocadinho, às vezes é um bocadinho mais, na rua quando passamos por alguém, quando nos sentamos no local onde se encontram todos, no lar quando estamos à conversa com os utentes. É muito importante e para o processo artístico é importantíssimo», explica.

A reportagem «A serra e o tempo da arte» vai ser emitida no domingo, dia 19, às 17h30, na RTP2.

Fotos: Agência Ecclesia



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