Mega projeto de saúde e investigação acolhe serviços nacionais em Loulé

Investimento é de 16 milhões de euros

Projeto do ABC Loulé Health Research Center

A criação de uma Seroteca Nacional, onde ficarão pequenas amostras de soro de quem dá sangue, a transferência do Banco Nacional de Células do Cordão Umbilical, do Porto para o Algarve, ou a criação de um Centro de Promoção dos Cuidados de Saúde para o Turismo. Estas vão ser apenas algumas das valências do ABC Loulé Health Research Center e do Centro Active Life, polos ligados à saúde, inovação, investigação e formação que vão ser criados em 2021, em Loulé e Vilamoura. 

O projeto foi apresentado este sábado, 4 de Maio, no âmbito da cerimónia dos 10 anos do Mestrado Integrado em Medicina da Universidade do Algarve (UAlg), no Cine-Teatro Louletano, mas os primeiros passos já tinham sido dados em 2018.

É que, em Maio do ano passado, foi assinado um protocolo de cooperação entre o Município louletano e o Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve – ABC (Algarve Biomedical Center), que junta a Universidade do Algarve e o Centro Hospitalar Universitário do Algarve.

Na prática, este projeto, que representa um investimento de 16 milhões de euros, prevê a construção de dois edifícios: o ABC Loulé Health Research Center, na sede do concelho, com 3500 metros quadrados, e o ABC Active Life, em Vilamoura (4000 metros quadrados).

Por outro lado, o projeto visa também a descentralização de serviços de instituições de caráter nacional da área da saúde, como o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e o Infarmed, para o Algarve. Ou seja: o que será transferido são apenas alguns serviços das instituições e não a sede destas.

«Estes serão polos de investigação e desenvolvimento, de forma a darmos os melhores cuidados de saúde à população do Algarve e não só. Teremos aqui vários projetos nacionais, daí a maior envergadura do projeto que implica a descentralização de serviços para a região», explicou Nuno Marques, presidente do ABC, ao Sul Informação, à margem da sessão.

 

Nuno Marques – Foto: Câmara de Loulé

 

Começando pelo edifício de Loulé. Do Porto, virá o Banco Público de Células do Cordão Umbilical, mas não será só esta a valência, de grande envergadura, a ser lá instalada. Também a Seroteca Nacional terá a cidade louletana como sede, bem como o Centro de Estudos de Segurança dos Medicamentos e Dispositivos Médicos.

Este último vai fazer «uma vigilância ativa de medicamentos que possam ser de maior risco, em parceria com o Infarmed», disse Nuno Marques.

Neste âmbito, também será desenvolvido, a partir do ABC Loulé Health Research Center, um Sistema de Interações Medicamentosas.

«É um enorme projeto que vai permitir a cada médico que, quando passa uma receita, tenha logo acesso às interações entre medicamentos, aumentando a segurança dos próprios doentes», adiantou Nuno Marques, ao nosso jornal.

Quanto ao Centro de Investigação Entomológica do Algarve, também a ser instalado em Loulé, vai estudar as «doenças transmitidas pelos mosquitos».

«Tivemos os exemplos do dengue ou da própria malária. Neste Centro, em parceria com o Instituto Ricardo Jorge, vamos fazer investigação e formação, apanhando e colecionando os mosquitos para ver se estão infetados ou não», explicou.

É que o Algarve, como «região mais quente do país», é onde, de forma mais expectável, «podem surgir estas doenças», segundo Nuno Marques. No caso da malária, ressurgir.

Ora, ainda no edifício de Loulé, nascerá o Biobanco do ABC, que possibilitará investigações inovadoras, a Unidade de Farmacovigilância do Algarve e Alentejo, um polo da Agência Nacional da Investigação Clínica e Inovação Biomédica e um Centro de Investigação Clínica do ABC.

 

Projeto do ABC Centro Active Life

 

Mas…ainda não está tudo. «Também teremos um Centro de Cirurgia Experimental, que vai levar a que sejam aqui desenvolvidos cursos de formação para quem está a aprender ou para quem até já está na prática médica, mas quer desenvolver novas técnicas», adiantou o presidente do ABC ao Sul Informação. 

Por fim, no edifício em Loulé, será criado um Centro de Literacia e Informática para a Saúde, uma questão essencial para Nuno Marques, que é médico de profissão.

«Hoje há cada vez mais aplicações que facilitam a vida, mas as pessoas não as sabem usar porque não há quem ensine. A ideia passa mesmo por aí: ensinar, primeiro no Algarve, mas num projeto para ser estendido ao resto do país», explicou.

Quanto ao polo de Vilamoura, será mais focado nos cuidados de saúde e no turismo. Por isso, será criado o Centro Active Life, «de promoção da vida ativa».

«Não serão aqueles cuidados de saúde de que ouvimos, por vezes, falar, em que as pessoas vêm cá porque o hospital é mais barato, são operadas e vão embora. Este será um Centro em que as pessoas poderão fazer a sua reabilitação osteoarticular, ajudando-as a movimentar-se, mas também aproveitando os espaços livres e o bom tempo que temos no Algarve», explicou Nuno Marques.

 

Vítor Aleixo – Foto: Pedro Lemos | Sul Informação

 

«Por exemplo, uma família dos países do Norte da Europa pode vir cá, durante as férias, e, nesse tempo, sabem que o seu familiar está a ter os melhores cuidados possíveis», disse ainda o responsável.

Esta será uma oferta pública, e não privada, com outra particularidade: a ligação com a hotelaria.

«Não teremos cá as pessoas a dormir, mas nos hotéis. Estamos a promover o turismo de saúde e a própria economia regional, criando algo diferenciador, que fará com que este destino seja cada vez mais atrativo. Daí também a escolha de Vilamoura», exemplificou.

Neste edifício vai igualmente funcionar o Centro de Cuidados de Saúde Certificados para o Turismo.

«Achámos que havia aqui uma falha. Os turistas não sabem, se lhes acontece alguma coisa, onde ir. O que vamos fornecer são informações, quer através de um site, quer de folhetos, dos próprios serviços de saúde que estão devidamente certificados pelas entidades competentes», explicou.

Por fim, o ABC Active Life incorporará um centro de reuniões, a sede do projeto LIFE – Algarve Coração Seguro, de desfibrilhação automática, a Agência de Turismo de Loulé e o Centro de Formação e Simulação de Doação e Transplantação de órgãos, tecidos e células.

Todo este projeto é arrojado e de grande envergadura, trazendo verdadeira inovação ao Algarve, face ao que há no presente.

«Percebemos a importância para o desenvolvimento regional e económico da região, bem como para a fixação de profissionais de saúde», considerou Nuno Marques.

A estimativa passa pela criação direta de 150 postos de trabalho altamente diferenciados e qualificados.

As obras nos edifícios ainda não arrancaram, sendo que, neste momento, «estão a ser realizados os projetos de arquitetura». «Esperamos começar no próximo ano para, em 2021, abrir portas», adiantou o presidente do ABC ao nosso jornal.

 

Manuel Heitor – Foto: Pedro Lemos | Sul Informação

 

Para Vítor Aleixo, presidente da Câmara de Loulé, este é um «projeto em prol da investigação científica, com o intuito de resolver lacunas existentes na região, relacionadas com a investigação e cuidados de saúde daqueles que aqui residem, mas também dos milhares de turistas».

Por isso, «Loulé mostrou-se, desde o início, proativo e interessado no desenvolvimento deste projeto que levará à criação de condições que, acredito, vão impulsionar cursos para profissionais de todo o país», referiu ainda o autarca.

«Vimos aqui uma grande oportunidade para diversificar a nossa base económica e dar um contributo importante para afirmação do Algarve numa competição territorial, entre várias zonas dinâmicas do país. Também creio que este projeto vai contribuir para uma maior atratividade de jovens médicos e investigadores», considerou.

Mas, para essa atração, há, no entender de Paulo Águas, reitor da UAlg, uma obra que tem de avançar: o Hospital Central do Algarve.

«A ausência de um Hospital com verdadeiras valências universitárias, seja para a medicina, seja para as demais áreas de saúde, tem dificultado o desenvolvimento do ensino médico na região. O Hospital Central é essencial para a atração e fixação de médicos na região, para o desenvolvimento do curso de medicina, para a melhoria dos cuidados de saúde e para a coesão territorial», disse, numa intervenção que arrancou inúmeros aplausos da plateia.

 

Paulo Águas – Foto: Pedro Lemos | Sul Informação

 

Na plateia, Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, ouviu os recados deixados pelo líder da academia algarvia, reconhecendo, no seu discurso, que os médicos do Algarve têm trabalhado «nem sempre nas melhores condições infraestruturais».

Quanto ao projeto do ABC, o governante disse que a «ambição do Centro Académico Clínico em abrir novas valências em Loulé mostra bem a relevância e a presença daquilo que pode ser uma articulação adequada entre as atividades de educação, de investigação e de inovação, num contexto autárquico que favoreça e facilite o estabelecimento destas ligações».

Nesta cerimónia, também marcou presença Raquel Duarte, secretária de Estado de Saúde, que considerou que «este projeto é estruturante e terá um grande impacto no desenvolvimento regional e nacional na área da inovação, investigação, formação e na melhoria dos cuidados de saúde».

 

 

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