O sustentável veio para ficar

Importa refletir sobre de que forma podemos, independentemente da nossa capacidade de influência e intervenção, transformar o mundo

A palavra sustentável ecoa no nosso quotidiano. É presença constante na comunicação social, integra a maioria dos discursos políticos da atualidade e são várias as organizações, públicas e privadas, que anunciam a implementação de medidas que visam a redução de resíduos e o fomento da economia circular.

Devemos apoiar e incentivar todas as iniciativas e práticas “amigas do ambiente”, mas existe um problema com a moda do sustentável: a moda passa e o fenómeno das alterações climáticas acentua-se, dia após dia, com efeitos cada vez mais imprevisíveis e catastróficos.

Erosão costeira, inundações e incêndios de grandes proporções, temperaturas extremas, chuvas intensas, gases tóxicos, subida do nível médio da água do mar e extinção de espécies, são efeitos que resultam num planeta cada vez mais instável e desprovido de biodiversidade.

Sendo extremamente positivo o avanço tecnológico, de nada vale trabalhar para melhorarmos o bem-estar do ser humano se não formos capazes de cuidar, no imediato, da nossa única casa, o planeta Terra.

O Acordo de Paris representa o conciliar dos interesses de vários países à escala global, com vista à redução das emissões que contribuem para o aumento da temperatura média da terra.

É uma difícil tarefa, já que vários estudos sugerem uma “situação de não retorno”, mesmo que os objetivos do Acordo sejam alcançados, em que nem a paragem total de emissões de CO2 será suficiente para evitar um “efeito dominó” provocado pelo degelo das áreas polares.

Dados indicam que, todos os anos, cinco das maiores petrolíferas do mundo gastam cerca de 200 milhões de euros em atividades/recursos de lobbying para controlar, adiar e bloquear políticas ambientais. Este é um combate desigual que limita a capacidade de influência dos vários intervenientes, com efeitos devastadores.

Existem mais de 150 milhões de toneladas de plásticos que poluem e circulam nos oceanos, sendo a Europa o segundo maior produtor do mundo.

Do plástico que produzimos, apenas reciclamos cerca de 6%, o que contribui para que, em algumas zonas do Mar Mediterrâneo, a concentração de microplásticos seja quatro vezes superior à encontrada na “Ilha de Plástico” no Oceano Pacífico.

Recentemente, nas Filipinas, foi encontrada uma baleia morta com 40 quilos de macroplásticos no seu estômago, a maior quantidade alguma vez registada. Os nossos oceanos têm sido tratados como lixeiras e situações como estas são a prova disso.

O exemplo da jovem ativista Greta Thunberg que, aos 15 anos, iniciou a sua luta, manifestando-se sozinha à frente do Parlamento sueco, inspirou mais de 300 000 estudantes de 130 países que se associaram à greve internacional contra as alterações climáticas no passado dia 15 de março.

Além de ser claro que os jovens querem participar e contribuir para a transformação da sociedade em que se inserem, torna-se evidente que é a obsoleta forma de fazer política, por parte dos partidos políticos e de outras organizações, que afasta os mais jovens de uma presença assídua e interventiva nas discussões sobre os temas da cidadania.

Gosto de olhar à minha volta e tentar perceber o que é necessário para juntos alcançarmos a mudança. Será extraordinário, assim como deve ser considerado prioritário, alcançar os objetivos da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.

A par do combate às alterações climáticas, são mais dezasseis as ambiciosas áreas de intervenção, tais como a erradicação da pobreza, a diminuição das desigualdades, a concretização da igualdade de género com o empoderamento de todas as mulheres, o estabelecimento de padrões de consumo e de produção responsáveis.

No plano regional, uma das recentes vitórias dos algarvios, a favor do meio ambiente, foi a interrupção da prospeção e exploração de hidrocarbonetos no Algarve.

Uma referência internacional como é a nossa região deve ter a coragem de se afirmar como um território verde e sustentável. Entre várias medidas, os municípios podem aliar-se às entidades privadas do Algarve, por forma a desenvolverem campanhas de sensibilização, dirigidas a residentes, turistas e empresários, que combatam a poluição nas praias e outras zonas ribeirinhas.

De forma a reduzirmos a nossa pegada ecológica, precisamos de nos focar na implementação de medidas que desincentivem ou proíbam a utilização de plásticos de utilização única e premeiem a utilização de alternativas menos poluentes.

Muitos outros problemas afetam o equilíbrio do ambiente, além da poluição por plásticos e CO2. As indústrias utilizadoras de agentes químicos que contaminam a água e o solo, a poluição sonora que afeta de forma agressiva a biodiversidade, interrompendo os seus ciclos naturais, a desflorestação em prol das indústrias madeireiras, agrícolas e agropecuárias são também temas que merecem a nossa preocupação.

Importa refletir sobre de que forma podemos, independentemente da nossa capacidade de influência e intervenção, transformar o mundo.

Durante demasiado tempo não foi dada a devida atenção ao tema da sustentabilidade e esta é a última oportunidade de não deixarmos a moda passar, precisamos de todos.

 

Autor: Guilherme Portada tem 29 anos. Trabalha em tecnologias de informação. Defensor de causas sociais e ambientais.

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