Barroco algarvio

«o Algarve despiu-se de qualquer ética territorial ou paisagística», escreve Gonçalo Duarte Gomes em mais uma crónica

O Algarve é, cada vez mais, uma terra fátua algures entre a realidade e o folheto turístico.

Não sendo coisa de hoje, este é um processo de transformação que se agudiza constantemente, não obstante alguns lampejos de lucidez, o que elogia apenas a resiliência da matéria-prima.

A partir do momento em que abraçou, sem reservas, a condição de bem de consumo em vez de bem patrimonial, o Algarve despiu-se de qualquer ética territorial ou paisagística, aceitando sorridente, e de chapéu estendido, reservando-se a um eterno papel de moeda de troca e nunca de mealheiro.

Para facilitar o processo, desligou-se da sua história, do seu passado e do seu acervo, em jeito de mecanismo de defesa mais ou menos consciente. Afinal, a memória que não temos não nos dói – pelo menos não tanto, sobrando a moinha de um membro fantasma, qual eco de um estado inteiriço que de há muito se já não conhece.

Oscilando entre as alvas e cândidas moçoilas de lenço à cabeça à sombra de uma chaminé, propagandeadas pelo romântico olhar das campanhas de António Ferro, no dealbar da promoção turística da região, até às não menos alvas – mas porventura não tão cândidas – moçoilas estrangeiras que percorrem as Ouras desta vida, o lenço trocado pelas orelhas de coelho e a sombra pelas de Grey, desde há muito que a imagem do Algarve se constrói sempre de fora para dentro e nunca, ou raramente, em sentido inverso. Mais do que mostrar-se, o Algarve está condenado a esforçar-se por mostrar aquilo que outros querem que seja, sendo essa outra coisa estranha a si mesmo.

E assim segue, sem rasgo ou utopia. Órfão de ambição, para lá de ter mais camas, independentemente delas precisar ou não, e mesmo que amanhã a moda mude, e fiquem vazias. Desprovido de projecto e sem noção de futuro.

Assim perdida no tempo, sem antes nem depois, a região vive agrilhoada a um falso pragmatismo economicista, empurrada para um utilitarismo que produz resultados balofos – pelo menos para a região enquanto todo. Isto reflecte, naturalmente, uma evolução da própria sociedade, cada vez mais meramente consumista e incapaz de valorizar algo que não caiba “no mercado”, seja ele do que for, incluindo a escravatura moderna.

Ao ponto de a muitos arrepiar um tão ousado conceito, como o de uma identidade própria, para lá daquela que ao apetite turístico do momento interessa – se não vende, não interessa. Assiste-se então à insistência no vão imediatismo de uma condição cosmopolita a martelo, feita de packages, clusters, brands, players ou stakeholders.

A intenção pode até não ser má, mas o resultado é o que se conhece: uma região economicamente débil, monofuncional, completamente vulnerável a externalidades e dependente de oscilações de contexto, paisagisticamente descaracterizada e culturalmente desnorteada, cada vez mais incaracterística e banal, e tendencialmente substituível por um outro qualquer genérico ponto no Google Maps.

O amanhã possível alimenta-se com visões de El Dorados turísticos. Sistematicamente prometidos na penthouse de mais um hotel ou resort, são logo a seguir adiados, pois afinal o all-inclusive futuro do Éden económico tem sempre que esperar pelo próximo “big thing” do ramo imobiliário, perdão, turístico, sempre com as instituições bancárias, quais bastiões da filantropia, a marcar o ritmo. Resta esperar que não faltem cobras para fornecer banha suficiente a tanto seu vendedor! E dinheiro nos cofres públicos para depois tapar o buraco…

De caminho, já ninguém acredita no modelo “da” Quarteira – vade retro Satanás. Mas, paradoxalmente, todos querem contribuir com (só) mais um prédio com os pés de molho, seja numa praia, ou numa arriba dependurado – benzadeus.

Nesta urgente vertigem, que não deixa tempo ao pensamento, vamos investindo o capital natural da região, e num modelo (ou falta dele) altamente desequilibrado. As paisagens daí resultantes não poderiam ser outra coisa que não também perturbadas. Isto manifesta-se, em primeiro lugar, nessa abstracção urbana que é o campo, particularmente a Serra. Que aprofunda a sua condição de deserto. Principalmente de ideias, mas também de gente, gestão, acção.

Assim abandonadas, estas paisagens outrora profundamente vividas e mantidas entregam-se à sucessão ecológica, cujas consequências poderão nem sempre ser-nos favoráveis, com, por exemplo, a intensificação e severidade dos incêndios à cabeça. Mas como voltar? É sequer possível voltar? Para já não sabemos. Parecemos mesmo não querer saber. E, a julgar pelas disparatadas e desgarradas tentativas a que vamos assistindo quase dão a entender que teremos raiva de alguém que, algum dia, apareça sabendo.

Mesmo assim, obviamente que a vida se vai fazendo. Toda a paisagem é paisagem – mesmo a desregulada. E com prémios, e até algum glamour sazonal, principalmente quando já estamos minimamente torradinhos, ainda o resto do País se confunde com lulas arrojadas na praia.

Mas sem substância ou capacidade de perenidade.

É por isso que quando se discute o destino de mais um pequeno troço até agora minimamente desafogado do litoral do Algarve – como acontece em João d’Arens, Portimão – ou a preservação de traços culturais e patrimoniais em pequenas localidades mais “interiores” (há dias lia a pertinente inquietação em torno da possibilidade do Algarve ser, face às suas características estruturais, todo ele interior, mesmo a parte litoral…) até hoje relativamente preservadas da modernidade bacoca – como acontece em São Brás de Alportel – não é, apesar de tudo, verdadeiramente a isso que a celeuma se refere.

Discute-se, acima de tudo, um cansaço já estrutural face ao estafado pitch de tentar vender pratos gourmet à base de caldos Knorr, e o Algarve a retalho. Discute-se o cansaço de tudo ser transaccionável, tudo ter uma etiqueta, de não termos colectivamente direito a nada que seja realmente nosso, de tudo ter que ser igual a tudo o resto.

Porque é esta a simultânea glória e drama do Algarve: aqui, sê tudo quanto sonhes ser.

Excepto algarvio.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP).
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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