Lusodescendentes fugiram da Venezuela para encontrar paz e trabalho no Algarve

Grupo hoteleiro trouxe desempregados para o Algarve, com o objetivo de lhes dar uma oportunidade de trabalho

Certo dia, Sérgio Bruno acordou e decidiu que tinha que mudar de vida. Vendeu o carro, comprou três bilhetes de avião com o dinheiro arrecadado e abandonou a sua Venezuela, deixando toda uma vida para trás. «Senti que não havia futuro para o meu filho de 9 anos», diz, amargurado. Esteve na Madeira, sem trabalho, e agora é um dos cinco lusodescendentes que vai começar a trabalhar num hotel, em Albufeira, para tentar iniciar uma nova vida, longe da convulsão política. 

A Venezuela tem estado a ferro e fogo. De um lado, Nicolás Maduro, presidente do país, reeleito em Maio do ano passado, numas eleições contestadas pela oposição. Do outro, Juan Guaidó, rosto principal da contestação e autoproclamado presidente da Venezuela.

A situação tem estado na ordem do dia e este impasse é apenas uma das muitas razões que têm levado milhares de venezuelanos a deixar o país. Sérgio Bruno, Samuel de Freitas, Pedro Gomez, Zita Gomes e Elidia Aleixo são cinco deles.

Alguns são casados com portugueses, outros nasceram em Portugal, mas emigraram cedo para a Venezuela. Todos têm ligações com a Madeira, ilha onde estavam antes da iniciativa do grupo AP Hotels & Resorts que os trouxe para o Algarve.

Mar Bayo

«A ideia foi do nosso presidente António Parente e eu acolhi-a logo com muita alegria. Eu também tive pessoas, na minha família, que viveram na Venezuela e isto é pessoalmente muito emocionante. É altura de ajudar estas pessoas», diz Mar Bayo, diretora executiva do grupo AP Hotels & Resorts, ao Sul Informação. 

Foi na Madeira que Mar Bayo conheceu cada um dos cinco lusodescendentes. «Fomos à Madeira, já com os contactos estabelecidos também com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e participámos numas jornadas com lusodescendentes venezuelanos, onde conhecemos as histórias pessoais de cada um. O contacto direto foi importantíssimo porque fomos lá conhecer as pessoas e abraçámos mesmo a questão», explica.

Os cinco lusodescendentes chegaram ao Algarve há pouco mais de um mês e estão agora a frequentar uma formação em português.

«Depois, vão fazer outras formações mais específicas, como atendimento ao clientes, Inglês e Excel para começarem a trabalhar connosco. Temos assegurado todas as condições, o alojamento, as refeições, tudo. Há ganhos mútuos nesta iniciativa. Colmatamos a falta de pessoal e integramos pessoas que estavam numa situação tão difícil», explica Mar Bayo.

Sérgio, Samuel, Pedro, Zita e Elidia estavam desempregados antes desta oportunidade, que todos encaram como se de uma segunda vida se tratasse. Os cinco realçam «o excelente trato» que têm recebido. Longe da família, que deixaram na Madeira ou na Venezuela, apoiam-se mutuamente.

«A experiência está a ser positiva, com as aulas de português. Eu morava há um ano na Madeira e já sabia algo da língua, como também sou casado com uma portuguesa», conta Sérgio Bruno, ao Sul Informação, numa das pausas da formação.

«Deixei uma vida cómoda na Venezuela. Foi duro, sim, mas valeu a pena, porque aqui estamos mais seguros e tranquilos. Lá, era só delinquência. Aqui encontrámos paz», acrescenta.

Sérgio, Samuel, Pedro, Zita e Elidia

Pedro Gomez vai ouvindo, com atenção, as palavras do colega Sérgio. Também foi a insegurança que o levou a abandonar a Venezuela e recorda-o amargurado. «Os meus filhos, de 15 e 13 anos, estavam na idade de sair, de ter amigos, e era tudo muito perigoso. Não havia comida, nem cuidados de saúde».

Na opinião de Pedro, a situação política na Venezuela está «cada vez pior». Muitos dos afetados são jovens e adolescentes que não vêem um futuro risonho, como Samuel. Aos 18 anos, revela que, no país sul-americano, «há toda uma geração a pensar assim».

«Não vemos futuro. Se a situação não melhorar, não volto. Estava com o meu pai na Venezuela, ele ficou lá, e agora estou cá sozinho», conta à reportagem do Sul Informação. «Sozinho?», pergunta Pedro, com espanto. «Estás connosco – és a nossa criança!», acrescenta, para riso geral.

A história de Zita também não é fácil. Nasceu na Madeira, filha de portugueses, mas cedo emigrou para a Venezuela. «Tive um restaurante, de comida venezuelana e portuguesa, mas fui obrigada a fechar. A insegurança era muita», diz. «Chegar e começar do zero é muito difícil», acrescenta, visivelmente emocionada.

Os cinco lusodescendentes são unânimes: a Venezuela «é uma ditadura». «Agora está pior do que no tempo do Chávez, em que a situação já não era boa, mas ultimamente tudo se tornou péssimo», exemplifica Pedro Gomez.

Por isso, esta oportunidade de começarem uma nova vida, com um novo trabalho no Algarve, torna-se ainda mais importante. Paulo Gonçalves, formador do Instituto do Emprego e Formação Profissional, entidade parceira nesta iniciativa do grupo AP Hotels & Resorts, não hesita em realçar que todos «encaram esta mudança com entusiasmo».

Nas aulas de português

«A prestação deles tem sido muito boa. Tenho-lhes pedido para fazerem textos, para aprenderem expressões portuguesas. Estão num nível mais elevado do que outros colegas, como nepaleses, indianos, paquistaneses, que também estão a frequentar esta formação, mas não estão relacionados com a iniciativa do grupo hoteleiro», explica.

O futuro ainda é incerto para todos estes lusodescendentes que tentam uma nova vida, a milhares de quilómetros das suas casas. «Ainda não tivemos muito tempo para conhecer o resto do Algarve», lamenta Sérgio Bruno. Mas, este venezuelano, casado com uma portuguesa, já pensa em trazer «toda a família» para a região.

Pedro tem o mesmo objetivo. «Aqui sinto que há mais oportunidades», diz.

Samuel, Zita e Elidia ainda não sabem bem, mas os cinco lusodescendentes estão verdadeiramente determinados em esquecer as agruras do passado num país que vive uma profunda crise.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

 

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