Hospital Distrital de Faro: 40 anos volvidos, precisa-se de novo hospital

O médico Horácio Guerreiro defende que «se não avançarmos para a construção de um novo hospital, todos ficaremos a perder»: profissionais, utentes e região

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Imagem: Depositphoto

A propósito dos 40 anos do Hospital de Faro, que abriu em Dezembro de 1979, também dos 40 anos do meu exercício na instituição, ocorreu-me tecer algumas considerações sobre a efeméride, tanto mais que a discussão sobre a necessidade da construção de um novo hospital parece ter voltado à ordem do dia.

Com um projeto que já vinha da década de sessenta, a abertura do então designado Hospital Distrital de Faro foi um salto de monta na qualidade da medicina que então se praticava na região.

Salto qualitativo porque passámos a ter instalações condignas, e salto qualitativo porque a incorporação de mais profissionais, incluindo de novas carreiras técnicas, muitos enfermeiros e médicos de diversas especialidades, permitiu que se passasse a fazer uma medicina equiparada à praticada nos grandes centros, se bem que nunca o hospital tivesse sido dotado da tecnologia requerida para o tornar um hospital de vanguarda.

Contudo, nos últimos 40 anos, a medicina evoluiu muito, passos gigantescos, tanto no campo científico, como técnico, pelo que o hospital de Faro, sempre estrangulado financeiramente, foi ficando estrangulado nas suas instalações, concebidas há 50 anos, quando, para se fazer medicina, pouco mais bastava do que um canivete, um estetoscópio, um aparelho de RX e algumas análises, de modo que, paulatinamente, se tornou obsoleto, acanhado, disfuncional, apesar do esforço constante de adaptação.

Esta é a situação atual, um hospital espartilhado, sem capacidade para instalar condignamente a tecnologia que precisa, que oferece más condições de acolhimento e em que as áreas clínicas são genericamente medíocres, sendo que, para o tornar atual, ter-se-ia que construir de raiz, pois até outras infraestruturas, elétricas, águas e esgotos, estacionamento e acessos internos, estão ultrapassadas.

Qualquer pessoa que perceba de hospitais e das suas necessidades funcionais, e conheça o hospital de Faro, sabe que este hospital já não reúne condições para cumprir cabalmente a missão de hospital diferenciado, que lhe é exigida. Tem enfermarias grandes, corredores estreitos, salas de espera exíguas, não tem radiologia de intervenção, nem cintigrafia, nem PET, nem onde os colocar, tem um bloco operatório e esterilização exíguos, etc, etc.

A conclusão óbvia é que o hospital de Faro cumpriu dignamente o seu ciclo, com esforço, com limitações, muito melhor do que a opinião pública poderá pensar, mas, como tudo na vida, precisa agora dar lugar a quem lhe suceda, conforme a ciência e a tecnologia dos nossos dias impõem.

É mais que evidente que o Algarve precisa de um novo grande hospital, com uma dimensão e diferenciação mínimas não inferiores aos projetos já elaborados para o Parque das Cidades.

Pergunta-se, e haverá dinheiro para um tal empreendimento?

Permito-me responder que o custo de um novo hospital, plenamente equipado, rondará os 300 milhões de euros. Se dividirmos esse valor, para amortizar em 30 anos, como estava projetado, isso representará cerca de 10 milhões de euros por ano, mais juros (atualmente baixos), digamos 15 milhões/ano, quantia que não deve exceder muito o investimento que é necessário fazer no atual hospital, em remodelações e equipamentos, para o manter minimamente funcional.

Se considerarmos que o orçamento anual do Centro Hospitalar do Algarve excede os 220 milhões de euros, admitindo que o hospital de Portimão ainda se aguentará uns anos mais, estamos a falar de um esforço de 5%, coisa que me parece justificar-se, face ao contributo do Algarve para o orçamento de Estado e ao previsível aumento de população, enriquecida por forte migração de nova gente, italianos, franceses, brasileiros etc.

Se o que atrás afirmo já fundamenta a construção de um novo hospital, há ainda razões estratégicas que, a meu ver, relevam tanto, ou mais que as anteriores.

Em primeiro lugar, há que cerrar fileiras em torno de uma grande unidade hospitalar, que seja a âncora do sistema de saúde na região e, em segundo lugar, há que entender a relevância da união com a Universidade do Algarve, de modo a manter aqui o ensino e a investigação na área da saúde.

Se não dispusermos de um grande hospital, se optarmos por dispersar investimentos, sem a criação de um polo aglutinador, hospital, ou centro hospitalar, corremos o risco de nos ser imposto um modelo organizativo, semelhante ao existente no Alentejo, por exemplo com duas unidades locais de saúde, cada uma delas com uma unidade hospitalar pouco diferenciada, não cativante para os profissionais, nem capaz de oferecer cuidados diferenciados.

A consequência será o desinvestimento tecnológico, a restrição de cuidados diferenciados e o consequente corrupio de doentes para hospitais centrais, como acontece no Baixo Alentejo ou no Litoral Alentejano.

Não me parece que este seja o modelo que melhor serve a região e a saúde dos seus habitantes. Talvez faça desviar alguns doentes mais para os hospitais privados, mas estes não têm necessidade disso para crescer e prosperar.

A ligação com a Universidade, que julgo também estar a cumprir os seus 40 anos, é o outro ponto fulcral. A investigação em saúde é um setor de grande dinamismo, com gigantesca expressão internacional, já que envolve conhecimentos científicos muito diversificados, desde a matemática, a informática, à biologia, à farmacologia, à física etc, e envolve enormes recursos financeiros, quer no investimento, quer no retorno dessa investigação.

Acontece que algumas destas são áreas de conhecimento em que a Universidade do Algarve tem trabalho reconhecido, e em que tem potencial para fazer muito mais, desde que esteja ligada a um bom centro hospitalar. Isto é, um hospital diferenciado, parceiro da Universidade, pode contribuir muito para a vitalidade e para o desenvolvimento da própria Universidade.

Por outro lado, a Universidade, oferecendo aos profissionais de saúde oportunidades para se incorporarem no ensino e na investigação, dará forte incentivo para atrair à região pessoal cada vez mais diferenciado, que, obviamente, incrementará a qualidade dos cuidados de saúde. A parceria hospital/universidade constitui uma sinergia positiva, que importa preservar e desenvolver.

Seria bom que os algarvios, entendendo como tal os que cá querem viver, percebessem bem a realidade local e as implicações do que está em causa, e não se distraíssem com conversas demagógicas, nem se deixassem levar por rivalidades de aldeia. Não podemos permitir que a disputa Sotavento/Barlavento, as visões mesquinhas, ou os interesses particulares, nos desviem do essencial.

Estou convencido que, se não avançarmos para a construção de um novo hospital, todos ficaremos a perder. Perdem os profissionais, perde, sobretudo, a população utente, perde o Sotavento e perde o Barlavento.

Espero bem que, quem é responsável, não se centre na sua quinta, não olhe apenas para o seu interesse imediato, e entenda que esta é uma questão estruturante para toda a região. É uma luta de todos os algarvios.

Mais do que defender o concelho, ou a freguesia, há que defender o Algarve, a sua economia e as suas gentes!

 

Autor: Horácio Guerreiro é médico

 

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