O lobby das celuloses ataca

O eucalipto é uma espécie a utilizar, mas com conta, peso e medida, de acordo com um ordenamento correto do território

O lobby das celuloses ataca…Ataca, mas com fracas armas, que são as mesmas de sempre, usando pouca transparência e o ataque soez a quem o critica.

Foi publicada, em vários jornais diários e no Expresso desta semana, uma carta aberta com três páginas inteiras, assinada por um grande número de personalidades, com muitos Prof Drs, e outros especialistas (alguns que conheço de ginjeira) a enaltecerem as virtudes da indústria da celulose e a bênção que é para nós, portugueses, termos cá o eucalipto a crescer em áreas consideráveis, ele, o grande trunfo económico que só traz benefícios a este pequeno jardim à beira-mar plantado!

E diz-se também que pugnam por uma floresta não discriminada – ora é isso precisamente o que pretendem os técnicos florestais e os políticos que denunciam a atual “floresta” – mata é termo mais adequado – portuguesa. Da floresta, ainda temos algumas relíquias, pequenas formações representativas do que seria a cobertura florestal natural.

É que a mata portuguesa está discriminada hoje, mas é a favor do eucaliptal. Ora, entre os fundamentalistas da mata industrial, que só querem eucaliptos e quantos mais melhor, e os outros, que não querem eucalipto nenhum, a posição acertada dos técnicos florestais – e esse devia ser o cerne de uma política florestal nacional, que não existe desde que foram extintos os Serviços Florestais – é considerar o eucalipto como uma espécie a utilizar, mas com conta, peso e medida, de acordo com um ordenamento correto do território, que considere todas as variáveis fundamentais, entre elas as condições de vida e de trabalho da população rural.

Ordenamento onde, além da mata, também as áreas de matos são essenciais, mesmo que estes não forneçam paus a pique para as celuloses… Só que isto não interessa à ganância sempre crescente da indústria papeleira.

No jornal Público de dia 17 de Novembro, saiu um excelente artigo do engenheiro silvicultor Paulo Pimenta de Castro, que não conheço pessoalmente, no qual ele denuncia exatamente os excessos e incorreções da carta aberta, e apresenta dados e factos incontestáveis.

Como não podia deixar de acontecer, saiu de imediato, num outro veículo de comunicação, um comentário de João Soares, engenheiro silvicultor funcionário das celuloses e que, enquanto diretor geral dos Serviços Florestais e Secretário de Estado, foi um dos principais responsáveis pela eucaliptização do País e pelo descrédito dos próprios Serviços Florestais, que foram ficando reféns da eucaliptomania dos que propunham – e continuam a defender – o petróleo verde.

Só que, no seu comentário, lamentavelmente não rebate os dados e reflexões do artigo que critica e apenas ofende e ataca as qualidades profissionais do autor – ora isto, de um colega para com outro colega, é muito feio…

Mas João Soares deixou também por responder a pergunta com que terminava o referido artigo de Paulo Pimenta de Castro: quem é que pagou a publicação da carta aberta, com três páginas, em vários jornais nacionais?

Custou uma pequena fortuna e, a não ser que os subscritores venham informar que se quotizaram todos para pagar a publicação, importa saber quem pagou. Porquê? Porque sabemos que a Ciência não é neutra, ela serve a quem a paga…

Confesso que fiquei triste por ver, naquela lista de subscritores, certas pessoas que julgava imunes a adesões a atos destes – conclusão, a alma humana é insondável!!

É que os florestais como eu e outros técnicos e Prof. Drs. ambientalistas e ecologistas que se batem por estas causas não têm dinheiro para pagar custos desta natureza, nem quem nos pague para fazermos publicidade com este gabarito. Isto é que é discriminação…

E, já agora, os da carta aberta, se queriam ser sérios e transparentes, em vez da fotografia do belo e enorme eucalipto de um qualquer parque ou jardim, deveriam ter publicado uma foto com aquelas dimensões – para se ver bem – mas de um eucaliptal, com a absurda densidade habitual, sem manta morta no solo, sem uma erva, com a biodiversidade reduzida a quase nada…

 

Autor: Fernando Santos Pessoa
Arquiteto Paisagista

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