Visita do “primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo ao Algarve terminou em Lagos há 144 anos

Após percorrer todo o Algarve, Fontes Pereira de Melo, chefe de governo e ministro da Guerra, deixou Vila Nova de […]

Após percorrer todo o Algarve, Fontes Pereira de Melo, chefe de governo e ministro da Guerra, deixou Vila Nova de Portimão por volta das 18h00 de 29 de Junho de 1874, em direção a Lagos.

Junto à Mexilhoeira Grande, erguiam-se dois postes unidos por um cordão com bandeiras, estalejando nos ares alguns foguetes aquando a passagem do ilustre visitante.

A comitiva, a que se juntaram as autoridades de Portimão, bem como o visconde de Bívar, chegou a Lagos um pouco antes das 20h00. A entrada na cidade ocorreu junto às Portas de Portugal, onde um majestoso arco fora levantado pela autarquia a expensas de particulares. O “Diário Illustrado” estimou que se concentravam naquele local mais de 2000 pessoas.

Ali estava também o Regimento 15, em grande uniforme, formando em linha no rocio de S. João, tendo feito a continência à passagem do presidente do Conselho de Ministros.

Fontes Pereira de Melo alojou-se na residência do Dr. Correia de Mendonça, ilustre lacobrigense, então deputado pelo círculo de Lagos.

Assistiu da janela à passagem do referido Regimento, em coluna de secções. Foi então nomeada uma guarda de honra que o ministro dispensou, convidando ainda o comandante para o jantar.

As autoridades civis, militares e eclesiásticas, bem como alguns particulares, foram apresentar cumprimentos ao insigne hóspede, a que se seguiu o jantar. Oferecido pelo anfitrião, nele participou a maioria dos membros da comitiva, bem como os oficiais do vapor “Lynce”. Depois das 23h00, foi servido o chá, onde participaram também o juiz, o redator do “Gazeta do Algarve”, entre outros.

Nessa noite, vários edifícios da cidade foram iluminados, desde logo a fachada da casa onde se encontrava hospedado o ministro, mas também o hospital regimental, a frontaria do quartel, entrada do forte do registo, estação telegráfica, sociedade dos artistas, bem como algumas casas particulares.

No dia seguinte, cerca das 12h00, após o almoço, Fontes Pereira de Melo vistoriou os antigos quartéis, bem como o do Regimento 15. Logo que o governante e comitiva entraram na praça, subiu ao ar uma girândola de foguetes, enquanto a banda militar, postada junto das escadas, onde se achavam porta machados de sentinela com o grande uniforme, tocou o hino real.

Visitou de seguida, acompanhado pela Câmara, o hospital regimental. Finda a visita, foi oferecido ao chefe de governo, pelos oficiais, um “lunch” de 40 talheres. A sala encontrava-se ornamentada com troféus de bandeiras e coroas de louro, tendo o “Gazeta do Algarve” publicado a ementa, em francês, como então era hábito.

A mesma era composta por “Boillon au poule et perdrix; Croquettes; Filet de veau roti; Purée du pomme de terre; Canard roti avec dês petits oiscaux; Dinde aux cresson et perdrix; Poule roti; Jambon glacê; Paté de poulets; Lapins à la campagnard; Homar en salade; Dessert”.

As sobremesas repartiam-se por “grande quantidade de doce variadíssimo” e “fructas mimosas da nossa fértil província”.

Sobre os aparadores, constavam ainda diversos vinhos generosos, alguns dos quais estrangeiros. Após os brindes à família real e ao insigne hóspede, dirigiu-se este, por volta das 16h30, para a ribeira, sempre acompanhado por muitos lacobrigenses, com o objetivo de tomar o barco que o levaria à capital do reino. Aquando o embarque, dificultado pelo levante que se fazia sentir, a fortaleza do registo salvou com 19 tiros, a que se seguiu o vapor “Lynce” ao levantar a âncora.

No dia seguinte, 1 de Julho, por volta das 17h00, desembarcava no Arsenal da Marinha, em Lisboa, o presidente do Conselho de Ministros. Fontes Pereira de Melo estava de regresso à Corte.

Note-se, por curiosidade, que não houve em todo o périplo qualquer menção a visitas às praias, como a de Albufeira, da Rocha, ou mesmo à Ponta da Piedade. No Algarve de então, estas estavam ainda muito longe de constituir o ex-libris da região.

Pelas descrições, é inequívoco que o Algarve e os algarvios receberam festivamente o chefe de governo, com particular destaque para Portimão e Tavira.

Ainda assim, para o periódico “Correio do Meio-Dia”, “os dois dias santos [São João e São Pedro], o aparatoso dos espectáculos, o foguetório e as musicas foram os únicos motivos da agglomeração de tanta gente que s. ex.ª viu na sua passagem. Com menos motivos se tem juntado mais povo”.

Este jornal, mais à frente, em “Sina fatidica”, lembrava que, em Tavira, caíra desastradamente um coronel, em Portimão foi um homem que se despenhou ao rio, enquanto em Lagos os trens passaram sobre um ébrio, que dormia na estrada, para terminar com o aparecimento de um cometa, na noite de 30 de Junho, pelo que concluía “estes factos agouram mal esta visita”.

Prognóstico errado! Nas eleições de 12 de Julho, o Partido Regenerador elegeu deputados pelos círculos de Tavira e Faro, enquanto a oposição ganhou em Silves e Lagos.

Por outras palavras, triunfara no Sotavento, não almejando, porém, manter o deputado por Lagos, Correia de Mendonça. Politicamente, a viagem não foi em vão, antes pelo contrário. Curiosamente, Portimão e Lagos, que de forma tão festiva receberam o Presidente do Conselho, não conseguiram reeleger o deputado regenerador.

Em termos de benefícios para o Algarve, o apoio dado pelo governo, no ano seguinte, aquando o flagelo da seca, não foi despiciendo, como já aqui recordámos, noutro artigo.

Quanto ao caminho de ferro, a principal aspiração da província, não obstante ter avançado em 1875, só a partir de 1883, também num governo presidido por Fontes, as obras se efetivaram com vista à sua conclusão.

Facto que aquele estadista já não conheceria, pois faleceu a 22 de Janeiro de 1887, abrindo a linha do Algarve à exploração dois anos depois.

A visita de Fontes Pereira de Melo ao Alentejo e Algarve, naquele já longínquo ano de 1874, caiu paulatinamente no total esquecimento.

À exceção de Portimão, não encontramos hoje qualquer menção à sua passagem por Beja, Mértola, Minas de São Domingos, Tavira ou Lagos.

Em Portimão, o seu nome ficou para sempre ligado à construção da ponte e disso não se esqueceram os sucessivos cronistas daquele concelho.

Associando a sua deslocação com o propósito do lançamento da primeira pedra de tão importante infraestrutura, que veio transformar a então Vila Nova na capital do Barlavento algarvio.

Contudo, o motivo principal da sua viagem foi, na qualidade de ministro da Guerra, a vistoria aos quartéis militares, para avaliar pessoalmente as carências do ministério a seu cargo, tal como já o havia feito em Évora e Elvas.

Para a história do Algarve, a visita de António Maria de Fontes Pereira de Melo terá sido a primeira de um presidente do Conselho de Ministros à região, ou de um primeiro ministro, como hoje diríamos.

Tem ainda a particularidade de ter utilizado o “calvário” da via terrestre, fluvial e marítima, ousadia que mais nenhum dirigente tentou repetir, até à abertura do caminho de ferro a 1 de Julho de 1889.

 

Nota: As imagens utilizadas são meramente ilustrativas e correspondem a postais ilustrados.
Nas transcrições, manteve-se a ortografia da época.

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação

 

Artigos anteriores:

Em Junho de 1874, “primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo visitou Alentejo e Algarve

A 24 de Junho de 1874, o “primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo visitou Tavira

“Primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo visitou Faro e Olhão em Junho de 1874

“Primeiro ministro” Fontes Pereira de Melo visitou Albufeira, Lagoa e Portimão em Junho de 1874

 

 

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