Sabe o que é a mirmecologia? Vá até à EMARP e descubra

Rui Mesquita tem 49 anos, é engenheiro informático, mas desde há oito anos que tem uma nova paixão: as formigas. […]

Rui Mesquita tem 49 anos, é engenheiro informático, mas desde há oito anos que tem uma nova paixão: as formigas. Mais concretamente, a mirmecologia, parte da entomologia que tem por objeto o estudo das formigas.

A paixão é tal que já tem em casa 18 espécies de formigas, na sua maioria europeias e existentes em Portugal, mas também algumas exóticas. E, com o seu jeito para as engenhocas, até já concebeu umas casinhas para acolher os ninhos das suas formigas, desenhadas por ele num programa informático e depois produzidas numa impressora 3D numa espécie de plástico não tóxico, feita de polímero de milho.

Este seu hóbi está agora a ser mostrado ao grande público no átrio da EMARP, a Empresa Municipal de Águas e Resíduos de Portimão, até ao dia 8 de Setembro, todos os dias úteis das 8h30 às 17h30.

E é ali que podem ser vistos, por quem vai pagar a água, tratar de algum outro assunto, ou mesmo de propósito, alguns formigueiros, com as suas formigas de várias espécies, as rainhas, os ovos e todo o complexo mundo destes animais.

Das espécies que estão expostas na EMARP, a única que é endémica de Portugal, ou seja, que, no seu estado selvagem, só existe no nosso país, é a Messor lusitanicus. E Rui Mesquita sabe tudo – ou pelo menos tenta – sobre esta formiga portuguesa. «Uma rainha desta espécie pode viver até 20 anos em cativeiro. Na Natureza não sabemos», explica ao Sul Informação.

A formiga é um inseto himenóptero (da mesma família das vespas e das abelhas) da família dos formicídeos, e possui várias denominações populares: formiga do jardim, argentina, formiga preta, vermelha, da madeira, da cortiça…

A maioria das formigas, explica Rui Mesquita, vivem «em sociedades complexas», onde impera «um sistema de casta». Nas Messor lusitanicus, há duas castas: as rainhas, que, sendo da mesma espécie, são muito maiores que as operárias. E há ainda os machos, que não estão dentro do formigueiro e são quase tão grandes como as rainhas, mas têm vida curta, uma vez que, conta Rui Mesquita, «só existem para a reprodução, depois morrem».

 

Mas, entre as 10 mil espécies de formigas existentes em todo o mundo – só não as há nas regiões polares -, há outras espécies que têm mais castas: rainhas, operárias minor e operárias major, soldados. «As formigas são fascinantes, há sempre muita coisa a aprender com elas e sobre elas», garante o mirmecólogo.

E o que são as agúdias, aquelas grandes formigas com asas de que as aves se alimentam e que eram usadas precisamente para apanhar passarinhos em armadilhas? «São, na sua maioria, rainhas e também alguns machos, mais pequenos», explica.

Aí por Outubro, com as primeiras chuvas, essas agúdias usam as suas asas para sair do ninho e levantam voo, para se reproduzirem. «A cópula dá-se em voo, mas depois o macho morre», diz Rui Mesquita. A rainha encontra então um novo sítio para ficar e «força a queda das asas. Até que os primeiros ovos deem origem às formigas operárias, que vão depois alimentar a rainha, ela alimenta-se dos músculos das suas asas. Depois, quando saem as primeiras operárias, são elas que tomam conta das rainhas, que têm uma vida de…rainhas», acrescenta, com um sorriso.

Rui Mesquita fala sobre várias estratégias que as formigas usam para resolver os seus problemas práticos. Por exemplo, para atravessar uma zona com parafina líquida, usada à volta dos seus formigueiros artificiais para evitar que umas fujam e outras entrem. «Já me aconteceu que as formigas fossem pondo o seu lixo em cima da parafina líquida, para fazer uma ponte e assim poderem passar», conta.

Além disso, «as formigas são os únicos animais que, como o homem, fazem pastorícia», garante. «Nos limoeiros, elas levam para lá os pulgões, que se alimentam da seiva da árvore e segregam uma substância que as formigas comem».

Por todas estas razões, «há países onde as escolas mantêm ou levam os alunos a observar os formigueiros, para que aprendam com elas: coisas como trabalho, perseverança, sabedoria… Em Portugal, este hóbi não tem qualquer significado relevante, apesar de surgirem esporadicamente “antfarms” pelas lojas de animais».

E dedicar-se à mirmecologia dá muito trabalho? «Trabalho não dá, mas é preciso estar atento. É preciso dar-lhes água e comida. Se desleixarmos uma semana, é a morte delas e da rainha», vaticina.

E o que comem as formigas? Depende das espécies. Há as que comem insetos mortos, outras preferem-nos vivos, outras comem sementes («dou-lhes alpista, porque é uma mistura de sementes e elas podem escolher as que mais gostam»), açúcar, mel. «Às vezes, na mesma espécie, há formigas que gostam de uma coisa e outras que não gostam. No Inverno, dou-lhes um gel com proteína, mas umas comem e outras nem tocam…»

Será verdade que as formigas são gulosas? «As espécies de formigas originais de Portugal não comem açúcar», garante o especialista. «Quem come açúcar são as formigas tropicais, que o diluem em água».

Rui Mesquita podia ficar horas a falar de formigas. É que o estudo das formigas atrai os naturalistas desde a antiguidade e as crianças muitas vezes mantêm formigueiros para observar as suas atividades.

Há formigas nos mais diversos locais, troncos, folhas, pedras e subsolo. Criam túneis, por vezes com centenas de metros ou mesmo quilómetros, que permitem a circulação de ar, o que, no caso do subsolo, torna a terra mais produtiva e beneficia a agricultura. Algumas espécies de formigas matam insetos nocivos que destroem plantações. Mas também existem algumas espécies de formigas nocivas: invadem casas e armazéns à procura de comida e podem destruir plantas, incluindo plantações.

Uma das formigas exóticas que mais se espalhou na Europa foi a pequena formiga argentina, que, segundo Rui Mesquita, «está catalogada como uma praga». «Quando veio com as bananas para a Europa, ela habituou-se a um habitat diferente e até mudou alguns dos seus hábitos. As suas rainhas dão-se bem umas com as outras e, por isso, em vez de termos vários formigueiros, o que temos é um mega formigueiro no sul da Europa».

Quando Rui Mesquita começou a interessar-se pelo tema, havia ainda poucos fãs de formigas em Portugal. «Da França para cima, é hábito de muitos anos ter formigas como animal de estimação», brinca. Mas atualmente, com a ajuda das redes sociais, em especial do facebook, «começa a aparecer mais gente interessada. Um partilha uma foto de formigas, outro quer logo saber mais sobre o assunto».

E há mesmo uma comunidade na internet dedicada aos mirmecólogos lusos, que pode ser encontrada aqui.

A nível internacional, Rui Mesquita diz que costuma «trocar formigas com outros colecionadores, no país e no estrangeiro». Apesar de não ser o seu caso, sabe que há exemplares que são extremamente caros: a rainha de uma espécie australiana pode custar 800 euros.

E há também, na internet, lojas especializadas para comprar exemplares de formigas. Ou seja, como em relação a qualquer outro animal doméstico, também as formigas geram todo um negócio à sua volta. Para já, que se saiba, ainda não há concursos de beleza de formigas. Mas um dia, quem sabe?…

 

Informações úteis:

Comunidade Portuguesa de Mirmecologia

Comunidade Portuguesa de Formigas

Formigários do Brasil

 

Lojas especializadas:

World of Ants

Ants Kalytta

Antstore

 

Contactos de Rui Mesquita:

https://www.facebook.com/ruimeskuita

ruimeskuita@gmail.com

 

 

Fotos: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

 

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