pub
Imprimir

Milreu recuou dois mil anos para mostrar como era a vida dos romanos

Miguel Rodrigues

Hoje podem ser só ruínas, muitas vezes difíceis de entender, mas há cerca de dois mil anos houve vida em Milreu, Estoi (Faro). Recuar no tempo, à boleia do que era o labor na época dos romanos, é o mote para uma viagem que tem pinturas em cal, fabrico de unguentos, pão, vinho e até peixes.

Assim, com arte, mas também ciência, se assinalaram as Jornadas Europeias do Património, no passado domingo, 24 de Setembro, em Milreu.

Numa barraquinha, junto ao ponto de água e ao templo, estava a Barroca, uma empresa de produtos culturais e turísticos. Quem lá chegava, encontrava tintas, pincéis, lápis, desenhos e uma base feita de cal. O desafio era simples (ou aparentava ser): reproduzir imagens dos mosaicos que ainda se veem em Milreu.

A responsável Susana Calado Martins ia explicando e dando dicas aos participantes. Após picotear a cal, o primeiro passo, veio outro mais difícil: pintar. Para tal, usaram-se tintas «feitas de pó de mármore, pasta de cal, água e pigmento mineral», explicou Susana Martins.

Também os romanos usavam esta fórmula nas suas tintas – ou alguma muito parecida. Aliás, em Milreu evidencia-se a presença de cal em argamassas de ligação na construção dos edifícios, mas também em argamassas mais finas e delicadas para revestimentos e decorações.

Para Marco Santos, também da Barroca, a sua presença ali teve a grande vantagem de «sensibilizar as pessoas para a importância destes materiais que têm vindo a ser esquecidos, mas que há quatro décadas ainda eram usados».

Iniciativas de pintura em cal não são novas para a Barroca, mas ali foi a primeira vez que o fizeram «num sítio simbólico», disse Susana Calado Martins.

Denominada “Do saber ao fazer: uma bio-experiência romana no labor”, a iniciativa quis mostrar, com tarefas lúdicas e práticas, como era o dia a dia dos romanos.

Amadeu Brigas

E se hoje os produtos de beleza, como os perfumes, são algo apreciado, também já o eram há milhares de anos. É que os unguentos eram mesmo artigos de luxo e a sua utilização até era um fator de diferenciação social.

Na zona do triclinium (sala de jantar), na villa de Milreu, a proposta foi perceber como eram fabricados estes unguentos. Para tal, o professor Amadeu Brigas, da Universidade do Algarve, teve à sua disposição alguns dos ingredientes que eram utilizados.

A saber: azeite, noz, etanol e até cinza, que tornava o unguento mais espesso e esfoliante. «A base de qualquer creme era sempre gordura, alguma coisa aquosa, e mexer bem», explicou.

Depois, tendo em conta a finalidade, eram acrescentados ingredientes. Por exemplo, se o objetivo era cheirar bem, utilizava-se limoneno, que dava um aroma agradável a limão. E quem participou nesta iniciativa bem o pôde comprovar.

A viagem ainda não terminou. Depois da beleza, foi tempo para a comida. Naquilo que é hoje a casa rural de Milreu (muito posterior aos tempos romanos) há vestígios de um lagar de varas, que era usado para a produção do azeite, um produto bastante apreciado e utilizado pelos romanos.

Numa pequena banca, logo à entrada da casa, não faltou então o azeite, mas também pão feito apenas com espelta, um cereal que os romanos também utilizavam, e uvas. A farinha para o pão era feita numa mó, tal como exemplificou Emanuel Reis, do Centro Ciência Viva do Algarve, responsável por esta iniciativa.

O pão era muitas vezes molhado no azeite e, quem sabe… acompanhado de peixe? Poderia ser: o certo é que em Milreu há dezenas de peixes, retratados nos mosaicos, formados por milhares de tesselas, pequenas pedras coloridas. Miguel Rodrigues, do CCV Algarve, foi o guia de uma visita a alguns destes mosaicos.

«Em princípio, estes são peixes que os romanos já conheciam e por isso estão aqui representados», explicou. Nas ruínas, há representações de peixes que parecem ser pargos e robalos, mas também de outros seres marinhos, como golfinhos, ouriços do mar e lulas.

E qual é a razão que leva a que haja peixes representados em Milreu? Cristina Garcia, da Direção Regional de Cultura do Algarve (DRCAlg), aponta duas versões. A primeira: «há quem defenda que o proprietário seria um industrial da área do peixe e aqui recebia pessoas de negócio».

Já a segunda crê que os mosaicos querem «transmitir uma ideia de bem estar», até porque os peixes representados estão «alegres».

No fundo, toda esta epopeia por tempos romanos quis «mostrar que também há vida, além do que se vê», ilustrou Cristina Veiga-Pires, diretora do Centro Ciência Viva do Algarve, principal promotor da iniciativa, em declarações ao Sul Informação.

Alexandra Gonçalves, diretora regional de Cultura, também marcou presença, até porque Milreu é um dos monumentos sob alçada da DRCAlg. «Com esta iniciativa, percebemos como tudo era feito à época. Reproduzir estas experiências é voltar ao passado e trazer as pessoas ao local onde tudo aconteceu, demonstrando como a tecnologia evoluiu», disse ao nosso jornal.

Com as pinturas, o fabrico de ungentos ou a explicação dos peixes nos mosaicos aprendeu-se como era a vida romana. «Isto tem sempre uma função pedagógica», reforçou Alexandra Gonçalves.

Se ficou interessado, saiba que ainda vai a tempo de viver tudo na primeira pessoa. É que, no próximo domingo, dia 1 de Outubro, a iniciativa volta a acontecer em Milreu, mas, em vez do labor, será dedicada a ócio. E sem destapar muito o véu, fique a saber que haverá chás e até um jogo.

A iniciativa “Do saber ao fazer: uma bio-experiência romana no labor” realizou-se no âmbito do DiVaM – programa de Dinamização e Valorização dos Monumentos, promovido pela Direção Regional de Cultura do Algarve.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

Comentários

pub