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Festival “Le Pleine de Super” rolou até à Ermida da Guadalupe “atestado” de cinema do mundo

Há quem leve cinema às aldeias e zonas mais isoladas. Julie e Yan Rimbaud trazem consigo um festival. O projeto de cinema itinerante “Le Pleine de Super” começou em França, mas já chegou ao Algarve e a Portugal em 2016. Na passada sexta-feira, dia 28 de Julho, o casal francês estacionou o autocarro na Ermida de Nossa Senhora da Guadalupe, em Vila do Bispo, para mais uma sessão do périplo que têm vindo a realizar, em Portugal e em França.

A sessão de dia 28 foi especial, já que juntou a Sétima Arte à divulgação do património algarvio. A iniciativa teve a assinatura da Tertúlia – Associação Sócio-Cultural de Aljezur e integrou a programação do DiVaM 2017 – Lugares de Globalização, o programa de dinamização e valorização dos monumentos da Direção Regional de Cultura do Algarve.

A ela aderiram cerca de meia centena de pessoas, muitas das quais chegaram um pouco mais cedo para participar no jantar volante de gastronomia do mundo, confecionado por Maria das Neves. Enquanto a tarde se transformava em noite, foi-se juntando o público e aproveitando para conviver, num ambiente bem descontraído.

Dentro da Ermida de Nossa Senhora da Guadalupe, estava já tudo pronto para começar a exibição das nove curtas-metragens que faziam parte do programa. Desta vez, o vento que soprava com alguma intensidade e a humidade que começava a cair levou a que a tela não fosse instalada no exterior, como é hábito, e a que se optasse por uma solução mais aconchegante.

Julie e Yan Rimbaud chegaram cedo para instalar o material necessário e ainda se juntaram aos comensais, aproveitando para dar dois dedos de conversa. O Sul informação aproveitou estes momentos de descontração para perceber quais as origens deste projeto e conhecer melhor os seus promotores.

A história do projeto “Le Boite Carrée”, que promove a digressão “Le Pleine de Super”, surge da vontade do casal de cinéfilos em dar a conhecer a um público alargado obras que, muitas vezes, apenas eram vistas por quem, como eles, ia a festivais de cinema.

«Começámos a questionar-nos porque é que era preciso ir aos festivais de curtas-metragens para ver esses filmes. Se calhar, se pedíssemos aos produtores para as exibir neste formato, eles aceitavam. E foi isso que aconteceu, na maioria dos casos. Criámos uma plataforma online e recebemos 1800 filmes, o que é muito, dos quais escolhemos 50», revelou.

Assim, apostaram em encher a sua viatura, um autocarro escolar bem antigo, entretanto transformado, com tudo o que é necessário para exibir uma película, atestaram-na de gasolina e fizeram-se à estrada. Este mudar de vida aconteceu em 2009.

«Apostámos desde o início em não ir para as cidades, apenas para pequenas vilas e aldeias. Exibimos cinema de autor, escolhendo curtas-metragens que vão ao encontro de um público muito alargado. Temos muitas curtas de animação, mas também ficção e alguns documentários», explicou Yan Rimbaud ao Sul Informação.

No fundo, trata-se de sessões de cinema ao ar livre (ou, caso o tempo não ajude, em locais improváveis, como aconteceu na Ermida de Guadalupe). Mas, em vez de uma longa-metragem, o público é brindado com curtas, de diferentes estilos e criadas por realizadores de diferentes nacionalidades, tal como acontece num festival.

A aventura em terras lusas começou em Abril de 2016, altura em que fizeram as primeiras sessões na Costa Vicentina, onde os Rimbaud voltaram agora, a pouco tempo de regressar à sua França natal. Nas duas temporadas em que o nosso país esteve integrado na digressão “Le Pleine de Super”, Julie e Yan percorreram Portugal de lés-a-lés, mostrando, a quem não tem acesso facilitado à Sétima Arte, cinema do mundo, daquele que dificilmente é exibido nas grandes salas comerciais.

«Tentamos ir a locais onde o cinema não chega com facilidade. Até agora, já promovemos mais de 20 sessões, principalmente em aldeias, mas também em vilas», contou Julie Rimbaud. Tudo isto a bordo do autocarro do “Le Pleine de Super”, que já percorreu uma respeitável distância de «um milhão de quilómetros» durante a sua longa vida.

E não foi por acaso que a escolha recaiu sobre um antigo veículo de transporte escolar. «Nós antes éramos professores de uma escola secundária profissional, mas já na altura fazíamos workshops de cinema. Quisemos desenvolver esta atividade, experimentar e vir a Portugal, também com o objetivo de conhecer o país», explicou.

Pelo caminho, fizeram muitos amigos, entre os quais Susana de Medeiros e Conceição Gonçalves, da Tertúlia – Associação Sócio-Cultural de Aljezur. E foi este contacto que os trouxe de volta à Costa Vicentina, para a reta final do festival “Le Pleine de Super 2017” em Portugal.

Yan e Julie Rimbaud estiveram na vila de Aljezur, em Carrascalinho e no Vale da Telha, antes da sessão na Ermida de Guadalupe. Nos dois últimos dias de Julho, passaram em Odeceixe. Hoje e amanhã, dias 1 e 2 de Agosto, estarão no Rogil e em Maria Vinagre.

«Há pessoas nestes locais que provavelmente não viam cinema, exibido em tela, há muitos anos. Aljezur chegou a ter um cinema, mas este já não existe há muito. Houve uma altura em que vinha um projecionista de Vila Nova de Milfontes [António Feliciano], mas já deixou de vir», ilustrou Conceição Gonçalves.

O regresso do festival “Le Pleine de Super” em 2018 ainda não está garantido, segundo Yan Rimbaud, tendo em conta os custos que acarreta. Mas o casal não esconde que gostaria de voltar e de levar, mais uma vez, o cinema de autor ao interior de Portugal.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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