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Uma conversa com Mário Soares

Já que toda a gente conta as suas histórias com Mário Soares, eu também vou contar uma.

Na minha juventude, sempre trabalhei durante as férias, nomeadamente em stands na Fatacil. Já não me lembro em que ano, mas penso que aí por 1982, trabalhei no stand da Região de Turismo do Algarve, que então ficava em destaque no meio da feira em Lagoa. Era um pavilhão quadrado, mas aberto em todos os seus quatro lados, pelo que, sentasse-me eu onde me sentasse, ficaria sempre de costas para uma das entradas.

Uma noite, penso que seria uma terça-feira, porque havia pouca gente e quase nenhum movimento, estava eu sentada num dos sofás que havia no stand da RTA, à espera dos meus “clientes”, quando oiço atrás de mim um sonoro «Então boa noite!».

Reconhecendo a voz, dei um salto na cadeira e tentei levantar-me de imediato, mas o dono da voz pôs-me uma mão no ombro e disse-me: «deixe-se estar que quem se senta sou eu».

E ali se sentou, à minha frente, Mário Soares, muito bronzeado (estava de férias na sua casa do Vau), vestindo um fato de linho branco de bom corte e camisa escura, muito elegante.

«Então e a menina quem é?», perguntou-me, com um sorriso. Eu lá lhe expliquei, receio que algo atabalhoadamente, quem era e o que fazia ali. «Ah, não é funcionária da RTA? Bem me parecia nova demais», comentou Mário Soares.

Eu lá lhe expliquei que era estudante, de Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa, mas que, nas férias, aproveitava para ganhar algum dinheiro, trabalhando.

Ele interessou-se pelo facto de eu querer ser jornalista, fez-me imensas perguntas sobre o curso, sobre o jornalismo de então, sobre o que eu pensava em relação ao país e à política. Eu também lhe fiz algumas perguntas e ele a tudo respondeu, às vezes com humor. Estivemos à conversa, ali sentados nos sofás do stand da RTA, à vontade uma meia hora.

Até que apareceu Maria de Jesus Barroso, mulher de Mário Soares: «Ó Mário! Ao tempo que eu ando à tua procura e tu aqui na conversa!…». «Mas tenho estado aqui em boa companhia», disse Mário Soares, com um sorriso. Despediu-se de mim com dois beijinhos e desejou-me muita sorte na minha vida de jornalista.

Esta história não tem nada de especial. Acho apenas que demonstra a faceta humana de Mário Soares, que foi capaz de estar ali à conversa com uma jovem estudante, futura jornalista, numa noite pouco movimentada de uma feira em Lagoa.

 

Autora: Elisabete Rodrigues é jornalista e diretora do Sul Informação

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