T4: E5 – São João da Madeira>>Grijó
Passei a noite no hospital. A Santa Casa da Misericórdia de São João da Madeira tem um complexo hospitalar que inclui um centro de idosos, uma UCCI e um espaço reservado aos peregrinos, por uma pequena contribuição.
Assim, passei a noite numa camarata com nove beliches e três peregrinos: eu, uma mexicana que vive nos Estados Unidos e uma italiana com feições asiáticas que, mal chegou, esteve a fazer uma sessão de meia hora de pilates. Como a Santa Casa tinha hora de recolher até às nove da noite, dormi das dez até às cinco que foi um regalo.
Hoje foi a primeira vez que mudei de roupa, mas apenas porque, desta vez, não tive possibilidade de a lavar. O sistema de lavagem já foi testado e funciona. Coloca-se a roupa no chão enquanto se toma banho, vai-se pisando e virando com os pés, centrifuga-se fazendo-a girar e põe-se a secar pendurada onde calha. As meias são mais complicadas de secar, mas pendura-se na mochila e vão secando pelo caminho.
Por deferência para com a minha borrefa, tenho usado sempre a única meia decente que trouxe, pelo que hoje tenho uma meia diferente em cada pé.
Tirando um bocadinho de estrada romana ainda relativamente intacta, o Caminho é todo por zonas urbanas e pela sempre presente EN1, a que já estou tão habituado que já a trato por tu.
Mas é macabro ver, de vez em quando, umas cruzes à sua beira, recordando os que nela perderam a vida. Coincidência ou não, passei por uma empresa enorme cujo negócio era o fabrico de lápides e jazigos, com entrega em todo o país.
Tive muita pena do jardim de infância de Escapães estar fechado, porque têm por hábito convidar os peregrinos a entrar e os miúdos fazem uma espécie de coreografia de acolhimento e muitas perguntas… Mas hoje não era dia de escola. Azar meu.
Como abalo muito cedo, muitas vezes encontro o pessoal da recolha de lixo, mas hoje foi a primeira vez que vi os cantoneiros que vão pendurados atrás no camião usarem capacete. O que não os impediu de me fazerem um entusiástico adeus.
Mais ou menos a meio do caminho, encontrei, numa caixa de vidro, uma Nossa Senhora de Fátima com o S. Tiago. Até aqui tudo normal, mas o que eu não esperava é que, ao aproximar-me, ouvisse uma voz feminina dizer: “Olá, bem-vindo!”. Isto da eletrónica é tramado.
Comprei uma mão cheia de cerejas a uma carrinha na beira da estrada. Quando viu que era português estranhou, porque normalmente são estrangeiros. Já tinha visto uma peregrina da Malásia, mas fui o primeiro algarvio. Os olhos tinham comido mais que a barriga, por isso, quando encontrei a mexicana, ofereci metade das cerejas.
O vencedor de hoje dos jardins é um com um caos organizado, que tinha desde troféus de pesca, até todo o tipo de animais, tudo sob o alto patrocínio da bandeira portuguesa.
O Caminho está bem marcado, basta seguir as setas amarelas, mas não estava à espera de ver uma num primeiro andar.
Hoje foram só 19 quilómetros. Mas estou um bocado traumatizado, as pessoas nunca percebem o que eu digo logo na primeira vez… Tenho sempre que repetir.