O desafio da diversificação da oferta e a reinvenção do turismo no Algarve

Com esta diversificação, poderá igualmente diminuir-se e mitigar-se as assimetrias regionais e locais ainda significativas

A necessidade do Algarve diversificar o seu produto e oferta turística é, desde há bastante tempo, uma realidade e preocupação para os stakeholders, que a questão da falência do operador turístico Thomas Cook veio adensar.

A importância do turismo para a economia da região é visível nos mais de 22 milhões de dormidas registadas em 2018, representando cerca de 30% do total de Portugal e dos quais 75% são turistas estrangeiros.

O colapso da Thomas Cook e os seus impactos na economia do Algarve e, consequentemente, portuguesa vão muito para além das dívidas acumuladas por este operador turístico a estabelecimentos hoteleiros da região e dos turistas que cancelaram as suas férias também na região.

A empresa operava em países muito importantes em emissão de turistas para o Algarve, como o Reino Unido, Alemanha e Holanda. Em 2018, cerca de 58% das dormidas de turistas externos no Algarve foram oriundas do Reino Unido, Alemanha e Holanda, valor que fica próximo de 75% se adicionarmos França e Irlanda. Estes números são sintomáticos da forte dependência destes mercados e urgente necessidade de diversificação e conquista de novos turistas.

Neste cenário de adversidade, mas também de oportunidade, emergem temas já amplamente discutidos. O produto turístico da região permanece fortemente assente no “Sol e Praia”, associado a destino de Verão, massificado e sem ofertas alternativas.

Este segmento é certamente importante para a região, a par do golfe, mas insuficiente para promover e gerar a perceção de um destino competitivo, diversificado e sustentável no longo-prazo.

O Algarve é um destino maduro, próximo da fase de estagnação, pelo que, nesta fase do ciclo de vida dos destinos turísticos, existe tendencialmente a possibilidade de declínio ou rejuvenescimento.

Urge então encontrar soluções e uma estratégia, tão rápida quanto premente, assente em vários pilares, onde se destaca:

i) necessidade de conquista de novos mercados, nomeadamente de países nórdicos, asiáticos e do continente americano. A captação destes turistas permitiria diminuir a sazonalidade da atividade, incrementar as receitas turísticas e diminuir as assimetrias dentro da região, com a oferta de novas experiências turísticas em diferentes locais.

Denote-se que, em 2018, as dormidas no Algarve de turistas oriundos da Ásia e América não chegaram a 5% da procura turística externa, pelo que a margem de crescimento nestas geografias é enorme.

ii) fomentar estratégias para intensificar e diversificar o desenvolvimento de novos produtos turísticos, para os quais o Algarve apresenta imensas potencialidades.

O turismo cultural, com maior aposta na promoção do património e história, permitiria captar perfis diferentes de turistas para a região face aos atuais, com a possibilidade de gerar maiores proveitos e em localizações diferentes das populares zonas costeiras.

Os turistas que nos visitam têm perceção da importância histórica que Sagres e Lagos tiveram nos Descobrimentos, da relevante influência islâmica em toda a região, com destaque em Silves, da presença judaica em diversos locais da região ou dos vestígios romanos?

A dinamização de rotas históricas levaria a diversificar a oferta da região, atrair novos turistas e oferecer experiências diferenciadoras.

O turismo de natureza é, certamente, outra alternativa a explorar e consolidar. A Ria Formosa, Rota Vicentina e a Via Algarviana são exemplos de como apostar num turismo diferenciador, sustentável e não massificado, que possibilite a localidades mais afastadas das tradicionais zonas turísticas beneficiar dos impactos económicos do turismo e, desta forma, estimular a economia regional e local.

Aliado a este segmento, temos o turismo náutico, de aventura e desportivo, onde se pode apostar no desenvolvimento de portos de recreio, prática de mergulho com exploração de naufrágios, passando pela prática de surf, kitesurf e estágios desportivos em múltiplas modalidades. Com a atração destes turistas, poderiam ser alcançados os objetivos já mencionados.

O Algarve tem vastos recursos que é imperativo promover para combater as várias ameaças que pairam sobre a atividade na região. A aposta em “novos” tipos de turismo, como o residencial, académico, saúde, gastronomia e enoturismo, religioso e conferências e eventos, não pode passar ao lado da estratégia da região para se reinventar e rejuvenescer.

Com esta diversificação, poderá igualmente diminuir-se e mitigar-se as assimetrias regionais e locais ainda significativas, existentes entre o litoral, barrocal e serra.

A complexa estratégia de diversificação e reinvenção do produto e oferta turística deve ser implementada através de uma visão holística e por forma a maximizar as dimensões turismo, sustentabilidade e rentabilidade, de forma complementar e harmonizada.

 

Autor: Hugo S. Gonçalves é licenciado em Economia e mestre em Economia do Turismo e Desenvolvimento Regional, pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.
Co-autor de artigos sobre impactos económicos do turismo, publicados nas revistas científicas Tourism Management e Tourism Economics.
Membro efetivo da Ordem dos Economistas, do colégio de especialidade de Economia Política.
Desenvolve a sua atividade profissional na banca há mais de uma década, em diversas áreas, nos últimos anos com particular incidência no risco de liquidez.

 

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

 

 

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