Universidade de Évora não abre arquitetura paisagista!

António Covas defende a criação de uma rede de ensino superior do sudoeste peninsular, abrangendo o Alentejo, o Algarve, a Extremadura e a Andaluzia

Fui docente da Universidade de Évora, no departamento de economia, durante 23 anos e seu vice-reitor em 1994-95. Foi também na Universidade de Évora que aprendi a gostar de arquitetura paisagista, porque desde muito cedo fui sensível àquela inocência desconcertante do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles.

Lembro-me de assistir às suas palestras e de ficar muitas vezes com um gosto amargo na boca, confuso, porque as suas teses contrariavam, com frequência, as minhas certezas de jovem economista – que já tinham, então, a ver com os “limites ao crescimento”.

Cresci como professor e nunca mais deixei de acompanhar e admirar a escola de arquitetura paisagista da Universidade de Évora, que, de resto, me abriu as portas para outras áreas do conhecimento, como as ciências agrárias, o ordenamento do território, a política agrícola e o desenvolvimento rural, a geografia humana e o desenvolvimento territorial.

Hoje, três décadas depois, oiço dizer que a Universidade de Évora não abre, no próximo ano letivo, o primeiro ano do curso de arquitetura paisagista. Fecha-se um ciclo, não me surpreende, era um evento já anunciado.

Gostaria de aproveitar o ensejo para fazer algumas reflexões a este propósito, que vão muito para lá da arquitetura paisagista e que atingem o ensino superior no seu conjunto.

 

A rede de ensino superior do sudoeste peninsular

Em 1994/95, quando era vice-reitor em Évora, propus a criação de uma rede regional do ensino superior. Não fui bem-sucedido. O argumento é conhecido, “era prematuro”. Para quem está no poder os problemas não se antecipam, “resolvem-se”. Foi uma oportunidade perdida.

Mais tarde fizeram-se protocolos de cooperação entre Évora e o Algarve, mas a inércia do sistema voltou a prevalecer. Hoje, como parece evidente, as áreas que mencionei atravessam uma fase muito crítica. É, portanto, a altura de voltar à ideia de uma rede de ensino superior, desta vez, alargada ao sudoeste peninsular, isto é, parece-me chegado o tempo de criar a rede de ensino superior do sudoeste peninsular, abrangendo o Alentejo, o Algarve, a Extremadura e a Andaluzia.

No interior dessa “rede de ensino superior do sudoeste peninsular” seriam criadas redes temáticas de ensino, investigação e extensão, umas das quais seria, justamente, a grande área temática das ciências agrárias, do ambiente e da paisagem, obviamente, à luz do que são hoje as atuais tipologias em matéria de investigação e desenvolvimento nestas áreas.

No quadro dessa rede temática peninsular seria criada uma rede de mobilidade de alunos, docentes, investigadores e funcionários e no plano curricular seria adotada a máxima flexibilidade entre ensino presencial e ensino à distância, entre ensino, projetos de investigação e extensão universitária, tudo na base de um ensino alternado, em sala, em laboratório, no campo e na empresa.

Seria, igualmente, criada uma rede associada de instituições, empresas e serviços, assim como um conjunto de ações-piloto e projetos de extensão nas quatro regiões referidas, os quais serviriam para pôr a funcionar um serviço de bolsas de investigação e estágios profissionais no interior da rede.

No âmbito da rede do sudoeste peninsular seriam, ainda, eleitas ou denominadas determinadas áreas de paisagem, por exemplo, os parques naturais, mas, também, as áreas ardidas e outras objeto de forte erosão, para um grande programa de combate às alterações climáticas, não apenas no que diz respeito às ações de mitigação e adaptação, mas, também, de reabilitação e regeneração.

Com base nesta rede do sudoeste peninsular, seria estabelecida uma base sólida de ensino, investigação e desenvolvimento com projeção para os países do Sul do Mediterrâneo, os países africanos de expressão oficial portuguesa e os países latino-americanos, para citar apenas aqueles que nos estão mais próximos. Esta rede de relações exteriores abre-nos a porta para os projetos financiados pelas organizações internacionais e, em particular, a União Europeia.

Sem este músculo revigorado, sem esta rede arterial e capilar e sem este sistema nervoso central receio bem que a nossa capacidade de negociação política, institucional e financeira resulte muito enfraquecida e que a fase baixa do ciclo sociodemográfico, que já aí está, seja um mau prenúncio para os próximos anos, não apenas na Universidade de Évora, mas, também, em outras universidades e politécnicos do interior do país.

 

As grandes transformações das próximas décadas

As próximas décadas reservam-nos grandes incógnitas e transformações. A transição ecológica e a incógnita das alterações climáticas (o advento de uma nova era geoclimática). A transição digital e a incógnita da inteligência artificial (o advento do transumanismo). A transição produtiva e a incógnita das migrações (de pessoas, bens, serviços e capitais, o advento de uma nova geopolítica). Serão estas transformações convergentes ou divergentes?

A severidade e a hostilidade do clima afetam a nossa vida quotidiana, avisando-nos de que a transição ecológica é um horizonte incontornável de sentido para a vida humana, um sentido de finitude, de limite e responsabilidade. Se não respeitarmos a natureza, não haverá coevolução benigna homem-natureza e o nosso quotidiano poderá transformar-se num verdadeiro inferno.

A transição digital é a grande força transformadora do nosso tempo, feita de liberdade e transgressão, desde o infinitamente pequeno das nanotecnologias até ao infinitamente grande da robótica inteligente, numa viagem que que nos pode levar para lá dos limites do ser humano, em direção ao transumanismo e à pós-humanidade.

A terceira grande transição diz respeito às grandes migrações, de pessoas que buscam trabalho e refúgio, de mercados de bens e serviços que buscam a melhor deslocalização para serem produzidos, de capitais que “enlouquecem” em busca da melhor rentabilidade, de plantas e animais que buscam novos habitats para poderem sobreviver. É verdadeiramente a luta pela vida.

E perante esta tripla transição e grande transformação, o que irá fazer a universidade portuguesa? Será que os seus principais protagonistas têm consciência, em toda a sua plenitude, da força transformadora da sua convergência e da força destruidora da sua divergência? O que fazer neste tempo de realidade virtual e aumentada, de plataformas colaborativas e aplicações, de mobilidade constante, de nativos digitais e topoligamia, de “não-lugares e terceiros-lugares”?

É certo, há sinais positivos, mas, também, muitos sinais contraditórios e suspeições recíprocas. A comunidade ecológica suspeita da arrogância tecnológica e digital, enquanto os atores do digital, marcados pela desmaterialização e a eficiência, se consideram ecológicos por natureza. As duas transições desencadeiam círculos virtuosos e círculos viciosos e pegadas ecológicas e digitais mais ou menos pronunciadas. Por outro lado, e face a estas duas transições, a perceção do risco fica de tal modo vulnerável e instável que as migrações acabam por acelerar o metabolismo global e sistémico das três transições, ao mesmo tempo que provocam ondas de choque em todas as direções.

Volto à arquitetura da paisagem e à sua centralidade enquanto comunidade real no meio de tantas comunidades virtuais e em linha. A arquitetura paisagista é o sentido pleno da realidade, porque é ela que nos devolve o sentido pleno das proporções, a paisagem global, como dizia Gonçalo Ribeiro Telles. É a arquitetura paisagista que constrói um olhar particular sobre o território, o nosso olhar, é ela que nos devolve o lugar remoto e a nossa relação com o mundo.

As universidades e politécnicos não se podem conformar com este episódio, de não-abertura do curso de arquitetura paisagista em Évora, logo agora que experimentamos os maiores riscos de sempre no que diz respeito à biodiversidade, aos nossos habitats, funções e serviços ecossistémicos, as nossas condições de vida, afinal.

Por isso, não nos deixemos deslumbrar pelos ecrãs luminosos que brilham freneticamente nos nossos gadgets tecnológicos de todos os dias e de todas as horas. Já experimentaram o campo aberto ou o campo branco e a observação do voo rasante de uma ave estepária em plena peneplanície alentejana? Então experimentem e sintam a magnitude da natureza e do ambiente, o pulsar da vida à nossa volta.

 

Notas Finais

Doravante, face à escassez de recursos, não creio que os argumentos da justa distribuição, o capital de queixa dos territórios de baixa densidade ou a teoria dos direitos adquiridos sejam, só por si, um capital argumentativo suficiente para fazerem ganho de causa na disputa política. Quer dizer, ou o ensino superior faz prova de vida no plano das nossas relações internacionais de maior proximidade, mostrando como as tecnologias de informação e comunicação podem contribuir para criar territórios inteligentes e criativos, ou, então, seremos um objeto de definhamento progressivo envolvido em lutas intestinas e inconsequentes e reféns do comportamento do ciclo sociodemográfico.

Quanto à arquitetura paisagista em Évora,  ainda vamos a tempo de impedir este episódio, mas sob condição, aquela que enunciei na primeira parte deste escrito acerca da rede de ensino superior do sudoeste peninsular. Façamo-lo em homenagem ao arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. O caminho faz-se caminhando. Prossigamos a viagem.

 

Autor: António Covas é professor catedrático da Universidade do Algarve e doutorado em Assuntos Europeus pela Universidade Livre de Bruxelas

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