Para as Brílios, o teatro também serve para realizar sonhos

Workshop do Teatro das Figuras envolve jovens da Associação de Proteção à Rapariga e à Família

Brílios. Ninguém desconfiaria, mas esta é uma palavra cheia de sonhos: os sonhos que a dezena de jovens da Casa da Rapariga de Faro já traziam e aqueles que estão agora a criar, durante o workshop “Teatro d’elAs”, que está a ser promovido pelo Teatro das Figuras em parceria com a Associação de Proteção à Rapariga e à Família.

Estas «heroínas», como as apelida Rui Gonçalves, riem, brincam e exibem a jovialidade própria da sua idade. Mas o riso fácil das aspirantes a atrizes – e dramaturgas, pois a história também são elas que a escrevem – não espelha as dificuldades pelas quais passaram e as complicadas histórias de vida que se acumulam nesta sala de ensaios.

Talvez por isso, os sonhos sejam tão importantes. «Nós sempre quisemos abrir restaurantes, hotéis, salões de beleza ou qualquer coisa como isso. E tudo o que nós queríamos criar sempre lhe chamámos Brílios. Quando o Rui nos convidou para escolhermos um nome para o Teatro, foi logo: Brílios! (gargalhadas generalizadas)», contou ao Sul Informação Antígona – já que falamos de heroínas.

Nesta reportagem, convém avisar, o único nome real é o de Rui Gonçalves, formador desta oficina de trabalho de longa duração e membro da equipa de programação do Teatro das Figuras. Já as participantes na iniciativa, ficarão no anonimato. E Brílios, como se percebe, faz apenas e só parte do imaginário comum destas jovens.

 

 

«Estas raparigas, para mim, são umas heroínas. Há aqui histórias de vida muito complicadas. A maior parte delas foram retiradas das suas famílias e, só por isso e pela carga que isso representa, elas são umas heroínas, por suportarem tudo e continuarem em frente», enquadrou Rui Gonçalves.

Saber ou não o nome das protagonistas desta história não é, de resto, importante. Porque este é, acima de tudo, um trabalho para dentro e que tem de servir as próprias participantes e não o grande público.

«Tenho reparado que o teatro também está a servir, para elas, como uma forma de catarse. Elas expõem as suas histórias e já aconteceu, inclusive, acabarmos todos a chorar. No início, fizemos umas dinâmicas de grupo e acabou tudo com a lágrima no olho. Este espaço de catarse era necessário e o teatro é uma ferramenta mágica para as pessoas descarregarem situações do dia a dia e outras que se arrastam há muito tempo», acrescentou.

Antígona confirma que as sessões do workshop têm tido este poder. «Havia muitas coisas, embora nós vivamos juntas, que nós não conhecíamos umas das outras. Com isto, ajudou-nos a expressar os nossos sentimentos e a comunicar, em vez de entrar logo em modo de ataque. Já há uma amizadezinha ali a crescer. Tem sido muito bom, muito agradável», disse a jovem utente da Casa das Raparigas de Faro.

Brites – e porque não uma heroína portuguesa? -, que também se chega à frente para assumir o papel de porta-voz das colegas, revela que, nas últimas semanas, as Brilios aprenderam já muita coisa, como «aquecimento de voz e a fazer relaxamento. Tem sido bom, temos aprendido muitas coisas. Isto ajuda a que nos compreendamos melhor umas às outras e que libertemos as más energias».

«Posso dizer que, desde que começámos os ensaios, eu aprendi muito, não foram só elas a aprender. Claro que elas aprenderam umas técnicas de teatro, aquecimento de voz de dicção, de projeção, mas eu tenho aprendido muito com elas a nível humano», contou, por seu lado, Rui Gonçalves, que fez questão de assumir esta formação, que é para ele «uma oportunidade enorme de aprendizagem».

«Gosto de pensar que este é, também, um espaço de família, de grupo. Este é um grupo! Eu estou com elas como se fossem da minha família – apesar de não as conhecer há muito tempo – e, pelo que tenho percebido, elas também vão ao encontro disso», considerou o formador deste workshop.

 

 

Mais do que uma apresentação final, cuja realização será «inteiramente decisão delas», o objetivo deste workshop é dar às participantes ferramentas que elas possam usar no dia-a-dia.

Ainda assim, Rui Gonçalves gostava de dar continuidade ao projeto, para «que esta não seja outra das centenas de oficinas que se fazem e que acabam por morrer por ali. Ficarei muito feliz se alguma delas quiser continuar a fazer teatro».

Até Junho, as Brílios vão trabalhar para montar um espetáculo de uma ponta à outra. «Se há apresentação ao público ou não, será decisão delas. Mas, mesmo que isso não aconteça, a oficina decorrerá como se fosse esse o objetivo final. Faremos tudo igual até quase ao abrir da cortina».

Brites, por seu lado, não tem dúvidas que haverá uma apresentação final.

«Ter tanto trabalho e não apresentar… mas têm de pagar! (risos). Tem de ser algo nosso, mas o que vai ser não vamos dizer, é segredo», assegurou esta heroína dos tempos modernos, com um sorriso nos lábios.

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