As palavras

«Volto, pois, convosco às palavras que sempre amei»

É sobre isto que quero falar nesta primeira crónica. Será estranho para muitos, mas as palavras ocupam um espaço importante na minha vida. Desde sempre.

Os meus pais contam que comecei a falar antes de andar. Que repetia os sons, primeiro com as imperfeições próprias de um ser que começa a descobrir-se a si mesmo e ao mundo, mas que depressa comecei a articular corretamente, expressando-me com muita vivacidade e manifestando, acutilantemente para a minha pequenez, os meus pensamentos.

O meu maior prazer era escutar as histórias que me eram contadas e o meu maior desejo era aprender a ler, para que pudesse verificar, de moto próprio, se o que me era dito correspondia efetivamente ao que se encontrava nas páginas dos livros, que folheava encantada, dizendo tantas vezes: «Mamã, o que diz aqui?». E vejam só, foi a minha mãe que me ensinou a ler, o que mais ainda aumentou a minha relação afetiva com este mundo das letras.

Passei horas da minha vida em total solidão, mas perfeitamente acompanhada de muitos, de milhares de personagens, porque os livros sempre foram parte obrigatória dos meus dias. Fiz até, a dada altura, um “negócio” com o meu pai: comprar um livro por semana, que era escolhido ao sábado, com ele, na papelaria da vila onde cresci. E nunca chegava outro sábado sem que o tivesse terminado, às vezes bem antes, para meu tédio.

O amor pelas palavras levou-me à descoberta das maravilhas das bibliotecas, ao fascínio pelos autores, ao encantamento pelas obras. E, por fim, a uma escolha profissional que está intimamente ligada à escrita, o jornalismo, que hoje não exerço, mas que continua a ser o suporte do que faço, profissionalmente.

Esta semana, ao ouvir D. Tolentino Mendonça (bibliotecário e arquivista da Biblioteca Apostólica do Vaticano e autor que muito admiro) dizer que «uma biblioteca é uma “farmácia da alma”» e «as palavras são “remédios” para a humanidade» e ao perceber a forma apaixonada como falava das obras que lá se encontram, da imensa variedade de textos, de épocas literárias, de temas, ao perceber o respeito que tem por todos os tesouros, que são as bibliotecas pessoais de cada um – o nosso repositório de memórias e de saberes aprendidos ao longo da vida – e pelas palavras («sopro da “identidade profunda”, um “instrumento de relação”») e estando há dias a pensar sobre que escrever neste primeiro texto, descobri, imediatamente, que seria este o assunto.

Eça de Queirós dizia que uma «crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o leem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar (Queirós, Eça de, 1867, “O Valor da Crónica de Jornal” in Distrito de Évora)».

Não tenho a veleidade de me querer comparar com este imortal escritor, mas posso sonhar que também eu serei hábil, enquanto este desafio do Sul Informação vigorar, para levar quem quiser acompanhar-me nestas viagens pelo meu mundo, partilhando convosco estes pensamentos que vou guardando e que nem sempre ganham expressão ou lugar numa folha de papel. Aqui permanecerá aquilo que me ficou na memória, porque fui talvez capaz de ver nesses instantes um certo potencial de eternidade.

Volto, pois, convosco às palavras que sempre amei. Primeiro quando as ouvia dos meus pais, em histórias fantásticas, que me faziam sonhar e acreditar que descobri-las era descobrir tudo.

Depois, lidas, intensamente; depois ainda, pronunciadas, para os outros escutarem; e escritas, tantas e tantas vezes para dar voz a outros, revelando-lhes o pensamento e as opções. A escrita é a minha ferramenta de trabalho, mas também é o que eu sou e o que os outros veem de mim. Vou ouvir-me, vão ouvir-me.

Porque hoje, de olhos fechados, sabendo que diante de mim estava uma folha em branco no ecrã do computador, com borboletas no estômago e lágrimas nos olhos, desejei voltar a elas, ao meu lugar de sempre, o de me perder no meio das frases, dos sentidos, dos verbos e adjetivos, como a pequena formiga que nunca será maior e que só espera a graça de ser capaz de seguir em frente, sempre em frente; desejei voltar ao meu lugar de conforto, ao espaço onde sei que nada mais preciso a não ser de uma brisa leve no coração, que me faça sorrir e pensar: estas seriam as palavras certas.

 

Autora: Sandra Côrtes Moreira
É licenciada em Comunicação Social, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Comunicação Educacional, pelas Faculdades de Letras e de Ciências Humanas e Sociais das Universidades de Lisboa e Algarve e mestre em “La Educación en la Sociedad Multicultural” pela Universidad de Huelva.
Foi professora do ensino secundário (Inglês e Comunicação e Difusão) e formadora de docentes na área da Comunicação. Trabalhou em diversas estações de rádio e foi chefe de redação do extinto jornal O GRÉS. Foi membro do CIAC/Universidade do Algarve.
Na sua vida pessoal, dedicou tempo ao associativismo, à música, à fotografia.
Desempenha as funções de coordenadora do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara Municipal de Silves e é assessora do Gabinete de Informação da Diocese do Algarve, com quem colabora, integrando também a equipa da Pastoral do Turismo.

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