Sobrevivência do único “hospital” para animais selvagens do Algarve esteve «tremida»

RIAS já recebeu mais de 1200 animais em 2018

A sobrevivência do RIAS – Centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens esteve «tremida» no final de 2017, mas, tal como acontece aos muitos animais que passam por este local, na Quinta de Marim, em Olhão, recuperou do “susto”.

A “ameaça” ao centro aconteceu porque, no final do ano passado, «terminou o protocolo com a ANA-Aeroportos, no âmbito das medidas compensatórias referentes a obras feitas no aeroporto. A renovação do apoio esteve bastante tremida mas, no final de Maio, tivemos a resposta positiva: o Aeroporto de Faro vai continuar a apoiar-nos, pelo menos, por mais um ano», contou Fábia Azevedo, coordenadora do RIAS, ao Sul Informação.

Segundo a responsável, o novo protocolo «é um grande alívio para nós, porque é a base do nosso funcionamento. O RIAS, que é o único centro de recuperação de animais selvagens do Sul do país, depende deste financiamento, que permite pagar a três pessoas e é metade do dinheiro que precisamos anualmente. Depois, falta tudo o resto, por isso procuramos sempre novos mecenas, projetos e empresas que nos queiram apoiar».

Fábia Azevedo explica que, «sem o apoio do aeroporto, teríamos de fechar portas. Felizmente, temos excelente relação com eles, conseguimos mais um ano e estamos a trabalhar já no próximo. Acreditamos que também há vontade de continuidade».

Fábia Azevedo no centro interpretativo do RIAS

Também chegam apoios «importantíssimos» de outras empresas que, em alguns casos, permitem manter uma pessoa contratada. A coordenadora do centro realça as vantagens para o RIAS, mas também para os empresários que «podem beneficiar da lei do mecenato ambiental. A partir de um determinado valor que é doado, vai reverter no IRS da empresa. Isso é vantajoso para elas e para nós».

Os animais que passam pelo RIAS “agradecem” e são cada vez mais. Em 2017, passaram pelo centro 1746 animais selvagens e, este ano, foram já mais de 1200. Quatro deles, foram vítimas do incêndio de Monchique.

Este acréscimo de animais não é, segundo Fábia Azevedo, motivo para preocupação, antes pelo contrário: «não acho que tenham aumentado as ameaças aos animais selvagens, ou que haja mais problemas. Este número, creio, reflete a divulgação que temos feito, ao longo dos últimos anos, do nosso trabalho. Apostamos muito em ações de sensibilização ambiental, ações de divulgação e participação em eventos. Isto leva a que, cada vez mais, as pessoas conheçam o nosso trabalho. Elas sabem que estamos aqui, como funcionamos. Sabem quem contactar quando há um animal ferido e isso reflete-se nos números».

Foto: Fábia Azevedo

Este conhecimento do RIAS leva a que haja muita gente interessada em ajudar. Em termos de voluntariado, «temos as vagas todas ocupadas até ao final do Verão do próximo ano. Temos muitos estudantes que querem vir aprender com o nosso trabalho nas áreas de biologia e veterinária. Este é um bom sítio para ganhar experiência com a fauna selvagem, o que é difícil nas universidades», explica Fábia Azevedo.

O interesse em colaborar com o centro também chega de além fronteiras. «Há muitos estrangeiros que querem fazer voluntariado aqui. Neste momento, temos dois espanhóis e uma italiana a colaborar connosco. Recebemos também voluntários do Serviço de Voluntariado Europeu, que vêm por um ano. Em Setembro, vão chegar quatro novos voluntários deste serviço e serão uma ajuda preciosa, porque ficam por um ano e, ao fim de dois meses, já são capazes de desempenhar todas as tarefas sozinhos».

Entre voluntários e funcionários, há dez pessoas a trabalhar diariamente no RIAS. «A nossa equipa é composta por cinco pessoas, entre biólogos, veterinária e técnicos ambientais. Além desta equipa fixa, vêm cinco voluntários por dia», explica Fábia Azevedo.

No entanto, há outras formas, mais simples, de ajudar este centro. «Além das empresas, os particulares também nos podem apoiar através de donativos. Estamos sempre a precisar de rações, materiais de limpeza, detergentes, ou materiais de construção».

Existe ainda a possibilidade de apadrinhar um dos animais do centro, através de um donativo. Neste caso, os padrinhos recebem um certificado e depois são convidados para a libertação do animal apadrinhado. «Essa é a maior recompensa: devolver à natureza um animal que passou pelo nosso hospital. Dar-lhe uma segunda oportunidade. É um momento inesquecível».

Foi um destes momentos que Iris Lopes, Rui e Miguel Gonçalves viveram quando o Sul Informação esteve em reportagem no RIAS. No dia 3 de Julho, encontraram um falcão-peneireiro na varanda da sua casa, no Edifício Tridente em Faro.

O animal estava ferido, «contactámos o RIAS e trouxemo-lo até cá. Agora, cerca de um mês e meio depois, contactaram-nos para a libertação», conta Iris Lopes.

«Foi uma história com um final feliz», conclui.

 

Fotos: Nuno Costa|Sul Informação

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