Geminação entre Lagos e Alcácer Quibir «transforma momento trágico em ato de cooperação»

A geminação entre Lagos e Alcácer Quibir foi assinada na semana passada, a 10 de Abril, numa cerimónia com pompa […]

A geminação entre Lagos e Alcácer Quibir foi assinada na semana passada, a 10 de Abril, numa cerimónia com pompa e circunstância na Mairie (Câmara Municipal) daquela cidade do Norte de Marrocos, a que o Sul Informação assistiu. O acordo foi assinado por Mohammed Simou, presidente do Conselho Municipal de Ksar El Kebir, e Joaquina Matos, presidente da Câmara de Lagos.

Foi o início de uma jornada de trabalho intensa e marcada pelo entusiasmo e emoção, em Ksar El Kebir, uma cidade com muita história (ainda recentemente foram descobertos vestígios romanos no seu subsolo), mas que hoje se debate com severos problemas de desordenamento, de falta de emprego e de falta de alternativas económicas. Desenvolver o turismo, a partir da memória histórica, é agora uma das suas apostas.

Talvez por isso a geminação com a cidade portuguesa – e europeia – de Lagos, baseada na história e património comuns, esteja a ser encarada com entusiasmo pelas autoridades locais e regionais marroquinas, como foi visível ao longo de todo esse dia 10 de Abril.

Mohammed Simou, anfitrião da comitiva portuguesa, capitaneada por Joaquina Matos, presidente da Câmara algarvia, salientou que «a Batalha de Alcácer Quibir liga o passado e o presente», sendo hoje «muito importante estabelecer uma relação com Portugal». «Esta geminação é a prova das relações entre os dois países», acrescentou. Ou, como diria depois outro membro do governo local,  a geminação entre Lagos e Alcácer Quibir «transforma um momento trágico em ato de cooperação».

Por seu lado, a autarca lacobrigense Joaquina Matos recordou que, «apesar de a Batalha ter sido um dia triste, para Portugal e para Marrocos, nos dias de hoje é importante virmos aqui junto de vocês, num tempo de confiança, de aproximação e de paz».

«É importante este momento e os momentos do futuro, pela proximidade histórica, geográfica, pela nossa cultura e património em comum. Por isso, a Câmara e a Assembleia Municipal de Lagos aceitaram este desafio» da geminação.

Joaquina Matos disse ainda que aquele era apenas «o primeiro momento da nossa geminação, do nosso encontro em termos culturais e económicos, que queremos desenvolver». Portugal e Marrocos, salientou, são «dois grandes países que estão perto e têm muito a ganhar se trabalharem em conjunto». A presidente da Câmara de Lagos acrescentou que terá «muito gosto» em receber a comitiva marroquina, em breve, na cidade algarvia.

Hassan Saaf, da Université pour Tous/Universidade para Todos, uma associação da sociedade civil marroquina, recordou que, mesmo em Marrocos, «a comemoração da batalha fazia-se apenas de forma clássica, falando de vencedores e de vencidos. Mas agora desenvolvemos uma visão diferente. Da história e do património, não devem ser salvaguardadas apenas as muralhas, mas devemos explorar esses acontecimentos e o património histórico, pondo-os ao serviço da promoção do desenvolvimento local».

O património em comum entre marroquinos e portugueses, frisou Hassan Saaf, é um «meio de aproximação entre os dois povos, de diálogo, de amizade e de tolerância».

A embaixadora de Portugal em Marrocos, que acompanhou a assinatura do protocolo de geminação, manifestou-se «encantada» com a iniciativa, em entrevista ao Sul Informação em Alcácer Quibir. «Vim aqui há alguns meses e não havia nessa altura nenhum tipo de relacionamento. Nós viemos um pouco por convite tanto da Mairie, como duma associação cultural marroquina, que queria realmente estabelecer laços. Depois promovemos uma ou duas ações de carácter cultural, nomeadamente, fazendo parte de um festival e uma conferência sobre o D. Sebastião».

A embaixadora Rita Ferro disse estar muito satisfeita com a forma rápida como se avançou para a assinatura do acordo de geminação, que é «a formalização daquilo que eu espero que venha a ser uma cooperação concreta, com ações concretas, porque eu acredito ser mais perene este, relacionamento concreto entre os presidentes de Câmara e os conselhos municipais, a nível local, do que passando apenas pelas embaixadas».

«Fico muito contente que a Embaixada tenha podido incentivar um relacionamento que agora se vem a concretizar e que eu espero que venha a ter consequências para ambos os lados». No caso da cidade marroquina, a embaixadora considera que Alcácer Quibir «pode aproveitar muito da nossa experiência, em termos de recuperação de património, turismo, consequências económicas desse mesmo turismo».

Joaquina Matos, com a embaixadora de Portugal em Rabat, o presidente do Conselho Municipal de Alcácer Quibir e Hassan Saaf, na assinatura do protocolo

O representante do Ministério da Cultura marroquino na província de Larache, também presente na sessão, começou por lembrar: «venho da vila de Arzila, portanto nasci e cresci entre muralhas portuguesas», para sublinhar que «temos um património que nos une». Aquele responsável salientou que o Ministério da Cultura de Marrocos «quer reforçar essa cooperação cultural, para reaproximar os dois povos, para o conhecimento mútuo das potencialidades culturais e comerciais, para facilitar as trocas entre as duas margens do Mediterrâneo».

Mas Hassan Saaf, da Université Pour Tous, numa outra sessão à tarde, no centro cultural de Alcácer Quibir, havia de sublinhar o muito trabalho que é agora preciso fazer, para concretizar a parceria de geminação. É preciso «criar uma comissão mista permanente entre as duas cidades, para propor um plano de ação», depois «organizar Semanas Culturais aqui e em Lagos», colaborar no «restauro dos lugares patrimoniais comuns» e ainda «criar um circuito turístico do lugar da Batalha e dos edifícios a ela ligados (e restaurá-los)», enumerou.

Hassan Saaf, bem humorado, avisou: «se hoje estamos aqui para cooperar e celebrar a amizade, asseguro-vos que vamos fazer tudo para vos eliminar do Campeonato do Mundo de Futebol». Uma afirmação que foi saudada com gargalhada geral, de portugueses e marroquinos.

 

Raras eram as mulheres no lado marroquino…e, em Alcácer Quibir, nenhuma delas falou na cerimónia pública

O dia em Alcácer Quibir começou com a assinatura do protocolo, numa sessão solene no salão da Mairie, onde, do lado marroquino, predominavam os homens.

Do lado português, a comitiva era constituída por 12 mulheres e seis homens…sendo chefiada pela presidente da Câmara Joaquina Matos e pela vereadora da Cultura Sara Coelho, mas incluindo ainda Milvia Gonçalves, vereadora do PSD, Filomena Sena, vereadora do movimento Lagos Com Futuro, as deputadas municipais Ana Natacha Álvaro (Bloco de Esquerda), Margarida Maurício (PAN), Ana Margarida Martins (Lagos com Futuro), Manuela Duarte, do Setor de Educação da autarquia, a professora Paula Couto, diretora do Agrupamento de Escolas Gil Eanes, Natércia Magalhães, técnica superior da Direção Regional de Cultura, Aura Fraga, presidente da Associação Vicentina, ou mesmo a repórter e diretora do Sul Informação…e havia ainda a embaixadora de Portugal…tanta mulher portuguesa, para mais em cargos políticos ou de chefia, causou alguma comoção…e confusão.

De tal maneira que Mohammed Simou, presidente do Conselho Municipal de Ksar El Quibir, até pediu desculpa por não haver mais mulheres na reunião. Do lado marroquino, apenas lá estavam duas mulheres, membros recentes do Conselho Municipal.

Como foi explicado, o atual rei Mohamed VI tem dado mais direitos às mulheres do seu país, nomeadamente criando quotas para os cargos políticos, a nível local, regional e no Parlamento, e apostando na sua educação e entrada nos organismos do Estado e nas Universidades.

E foi assim que, ao longo do dia, mais mulheres marroquinas se foram juntando à comitiva, de tal forma que, no final, uma das inúmeras fotografias de grupo que Mohammed Simou quis tirar com Joaquina Matos incluía apenas mulheres, de ambas as nacionalidades.

Mas não foi só entre os homens marroquinos que a comitiva maioritariamente feminina algarvia fez sucesso. Também o fez entre as mulheres daquele país, visivelmente orgulhosas por ter ali uma presidente de Câmara mulher e tantas outras em posições chave da sociedade.

Num país de maioria muçulmana, apesar de tudo muito mais aberto à mudança e tolerante que os países seus vizinhos, a afirmação feminina está a dar novos passos…e a presença da autarca Joaquina Matos foi sempre saudada com grande entusiasmo, provando que, para além dos protocolos oficiais, há muito mais que fica destas visitas de conhecimento mútuo.

 

A caminho da aldeia de Douar Souaken, perto do local da batalha

A jornada em Alcácer Quibir começou por uma deslocação até à zona, a alguns quilómetros da cidade, onde teve lugar a Batalha, a 4 de Agosto de 1578, num dia tórrido de Verão. A deslocação foi acompanhada por dois historiadores marroquinos, os professores Othman Mansouri e Mohamed Akhrif.

O campo da batalha, hoje terreno agrícola, era, naqueles tempos, pantanoso e situado junto a um rio, que havia de ganhar o nome de Oued La Makhazen. Segundo escreve o arquiteto Frederico Mendes Paula num artigo no seu blogue, «a designação Makhazen, origem do nome português Mocazím, tem por base o nome Makhanez, que significa “cheiro a putrefação”, já que, após a batalha, o rio ficou pejado de cadáveres em decomposição que conferiam ao local um cheiro nauseabundo».

Desses tempos fatídicos ficou a memória. Em Marrocos, a batalha é conhecida como dos Três Reis, porque, além do português D. Sebastião, nela morreram ainda o então rei marroquino Mulai Abdelmalek e um ex-rei, Mohamed Moutaouakil. E se neste país do Norte de África a batalha, que deixou 8 mil mortos e 16 mil prisioneiros do lado luso, para 3 mil mortos do lado marroquino, significou a unificação do reino, no caso de Portugal marcou a perda de soberania para Espanha.

Mas a geminação entre Lagos e Alcácer Quibir, que irá abrir caminhos para a cooperação entre as duas cidades, para começar já serviu para desfazer as ilusões de quem, do lado português, ainda acreditasse no regresso de D. Sebastião…

É que o jovem sonhador e mal aconselhado monarca português morreu mesmo em Marrocos. O seu corpo foi reconhecido no campo da batalha pelo seu escudeiro e alguns nobres portugueses.

E o seu primeiro túmulo, como recordou o professor Mohamed Akhrif, foi em Alcácer Quibir. «O rei português D. Sebastião foi trazido para Alcácer Quibir e aqui teve a sua primeira tumba de rei, nas casas do alcaide da cidade», disse o historiador marroquino, na sessão solene de assinatura do protocolo de geminação.

Foi naquela cidade do norte de Marrocos, na casa do alcaide Ibrahim Soufiane, que permaneceu sepultado D. Sebastião, durante quatro meses e uma semana, à guarda de um fidalgo português, Belchior do Amaral, conforme relato da “Jornada de África”.

Joaquina Matos, com o arquiteto Frederico Mendes Paula e o professor Mohamed Akhrif

Como recorda Frederico Mendes Paula no seu blogue, «o corpo de D. Sebastião seria entregue às autoridades portuguesas de Ceuta no dia 4 de Dezembro de 1578, onde permaneceu na Igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade, conforme auto existente no Arquivo de Simancas, sendo trasladado em 1582 para o Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, onde hoje se encontra».

Frederico Mendes Paula, arquiteto da Câmara de Lagos, investigador e grande conhecedor da presença portuguesa no Norte de África, tem sido, aliás, o grande motor desta geminação entre as duas cidades, como fez questão de sublinhar, várias vezes, a presidente Joaquina Matos.

E foi, por isso, uma das pessoas que se juntou à comitiva portuguesa para a assinatura do acordo de geminação e para a visita ao local da batalha, nas imediações da aldeia de Douar Souaken, onde se situa o mausoléu do rei Abu Marwan Abdelmalek, uma das três vítimas reais da refrega.

Ali, junto ao mausoléu, e sob o olhar curioso dos habitantes da aldeia, entre os quais muitas crianças – a semana passada foi de férias escolares em Marrocos – o professor Mohamed Akhrif entregou a Joaquina Matos uma cópia do auto de entrega do corpo de D. Sebastião às autoridades portuguesas de Ceuta, quatro meses depois da batalha. Os marroquinos conhecem a lenda portuguesa sobre o desaparecimento de D. Sebastião, cujo corpo nunca teria sido encontrado, mas quiseram deixar bem claro que a verdade histórica é outra.

Mohamed Akhri, aliás, já antes chamara a atenção para outro acaso da História que liga Alcácer Quibir ao Algarve – é que, nesta cidade marroquina, está o túmulo «de um santo de origem portuguesa, um sábio e matemático, o Moulay Ali Boughaleb, nascido na primeira metade do século XII, na cidade de Silves».

 

Joaquina Matos, a embaixadora Rita Ferro, a vereadora Sara Coelho e Aura Fraga, da Vicentina, com as mulheres marroquinas na formação de cozinha

Com o autocarro da comitiva portuguesa de regresso à cidade de Alcácer Quibir, sempre com a escolta policial a fazer parar o trânsito, com apitos estridentes e toques de sirene (mesmo quando tal não era necessário), seguiu-se uma visita ao souk (mercado), onde o presidente da Mairie marroquina ofereceu uma quentinha jelaba a Joaquina Matos, a uma oficina de tecelagem e à zona antiga da cidade – onde se situa a rua mais estreita do mundo, abundantemente fotografada pelos algarvios -, o lauto almoço num palácio, a visita ao novo polo da Universidade de Larache e ainda a uma cooperativa de mulheres e escola de formação e alfabetização.

Essa cooperativa fica situada num bairro degradado e em reabilitação da cidade de Alcácer Quibir, que a comitiva portuguesa visitou durante a tarde, entre lama, chuva e ruas esburacadas e em obras. Por lá, havia cursos de costura (curiosamente com dois rapazes presentes), de cabeleireira, de bordados, de doçaria e ainda aulas de alfabetização, para crianças, mulheres adolescentes e adultas. No final, os visitantes foram presenteados com doces e sumos naturais feitos pelas alunas.

O cicerone da presidente da Câmara de Lagos foi sempre o edil Mohammed Simou, que muitas vezes não se coibiu de arrastar por um braço, de forma entusiástica mas algo rude, a autarca portuguesa para fotografias de grupo ou para ver isto e aquilo com mais atenção.

A fechar a visita, houve nova sessão oficial de discursos no centro cultural da cidade, quase toda em árabe e sem tradução. Como em todo o lado, desde os locais públicos, às lojas, oficinas, restaurantes, escolas ou departamentos oficiais, a fotografia do rei Mohammed VI esteve presente com grande destaque em palco, bem como pequenas bandeiras de Marrocos e de Portugal. Mas, lá para o meio da cerimónia, e porque de geminação se tratava, foi colocada também, lado a lado com a imagem do monarca marroquino, uma enorme bandeira de Portugal.

A sessão terminou com um concerto, que começou com um grupo de música tradicional, de grande qualidade, e terminou com a atuação de uma estrela local, o cantor Abdeslam Sahli.

Trata-se de uma espécie de Tony Carreira marroquino, que fez as delícias da dúzia e meia de escoteiros (e outras pessoas menos jovens) que acompanharam a sessão e cantaram depois, em uníssono, com muitas palmas e bem alto, as músicas tocadas em play back e em árabe por Abdeslam Sahli. Os portugueses, mesmo não percebendo nada da letra, também se deixaram contagiar pela alegria. Se não podes vencê-los…

Ou, como disse Joaquina Matos no seu discurso, «voltamos a Portugal com o coração cheio de Alcácer Quibir!»

 

Vídeo de Abdeslam Sahli no Youtube:

 

 

Comitiva de Lagos

Joaquina Matos – presidente da Câmara Municipal de Lagos
Sara Coelho – vereadora da Cultura
Milvia Gonçalves – vereadora do PSD (sem pelouro)
Filomena Sena – vereadora do movimento Lagos Com Futuro (sem pelouro)
José Jácome – 2º Secretário da Assembleia Municipal de Lagos
Rui Araújo – deputado municipal do PSD
Márcio Viegas – deputado municipal do PS
Alexandre Nunes – deputado municipal da CDU
Ana Natacha Álvaro – deputada municipal do Bloco de Esquerda
Margarida Maurício – deputada municipal do PAN
Ana Margarida Martins – deputada municipal do movimento Lagos com Futuro
Carlos Saúde – presidente da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos
Manuela Duarte – Setor da Educação CM Lagos
Frederico Mendes Paula – arquiteto do Gabinete de Estudos Estratégicos da CM Lagos
Paula Couto – diretora do Agrupamento de Escolas Gil Eanes
Natércia Magalhães – técnica superior da Direção Regional de Cultura
Aura Fraga – presidente da Associação Vicentina
Carlos Afonso – fotógrafo da CM Lagos
Elisabete Rodrigues – jornalista

 

Galeria de fotografias

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

 

Nota: O Sul Informação viajou para Marrocos a convite da Câmara Municipal de Lagos

 

 

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