Albufeira, um terrível conto de Haloween

Tal como o mais amplo dos sorrisos pode, por vezes, esconder o mais terrível dos dramas, também o Algarve tem […]

gonçalo-gomes-21Tal como o mais amplo dos sorrisos pode, por vezes, esconder o mais terrível dos dramas, também o Algarve tem uma enganadora face solarenga que leva a que, frequentemente, e com consequências devastadoras, nos esqueçamos de outros aspectos que igualmente o caracterizam.

Como, por exemplo, o regime pluvial torrencial. Basicamente, este regime caracteriza-se por intensa precipitação concentrada num curto intervalo, originando caudais elevados nas linhas de água, que rapidamente passam a escoar com grande violência.

Esta particularidade climatérica não é nova, tal como não é novo o reticulado da rede hidrográfica da região, que, apesar de não possuir grandes rios, é marcada por uma miríade de pequenas linhas de água, que passam a maior parte do tempo secas.

A variável está então ao nível da autêntica rebaldaria que progressivamente (e desde há pelo menos 30 anos) se instalou nas bacias hidrográficas das nossas linhas de água, de montante a jusante. A nível nacional este é um problema de primordial gravidade, que interfere com tudo, desde a segurança de pessoas e bens até à própria competitividade das regiões.

E, nesse campeonato, o Algarve é um dos exemplos mais dramáticos de desordenamento paisagístico.

Tome-se por exemplo o calamitoso caso de Albufeira, localidade particularmente fustigada pelo recente temporal. A principal linha de água que contribuiu para o cenário dantesco verificado é a Ribeira de Albufeira, uma pequena ribeira com pouco mais de três quilómetros de extensão, mas cuja bacia hidrográfica, relativamente estreita, se estende até zonas a Norte das Ferreiras.

No quadro das linhas de águas limítrofes mais significativas (Ribeiras de Alcantarilha, a Poente, e de Quarteira, a Nascente), esta é uma bacia pouco expressiva. No entanto, foi suficiente para originar um rasto de destruição.

Se imaginarmos o trajecto percorrido por uma gota de chuva, desde o momento em que aterra num qualquer determinado ponto da bacia hidrográfica de uma linha de água, até ao momento que encontra o oceano, verificamos que não há grandes opções: ou se infiltra ou escorre superficialmente – coloquemos de parte a hipótese de evaporação, face às temperaturas mais reduzidas e ausência de sol…

Não se infiltrando, a gota, a par dos milhões de congéneres, inicia um processo de aceleração e acumulação de energia, numa mistura de Fangio com o Hulk, que só acaba nessa grande reunião familiar que é o mar. E tal como numa pista, quanto melhor o piso, maior o peso no acelerador.

Nesse sentido, a bacia hidrográfica da Ribeira de Albufeira é um verdadeiro circuito de Monza…

Se no limite setentrional da bacia ainda existem áreas propícias à infiltração das águas, a par de outras completamente impermeabilizadas, à medida que nos deslocamos para Sul, e entramos na linha de água da Ribeira de Albufeira propriamente dita, o cenário complica-se dramaticamente.

Não apenas a sua bacia drenante se encontra profundamente alterada, com elevados índices de impermeabilização (gerando o tal efeito de aceleração), como está privada dos elementos naturais de regulação hídrica, sejam os meandros do seu trajecto, as bacias de retenção e dissipação naturais ou a vegetação da respectiva galeria ripícola, entre outros.

A pedra de toque surge com a canalização do troço final da ribeira, e subsequente encaminhamento através do célebre (ou infame) caneiro, ao longo da Avenida da Liberdade, desembocando no Largo Engº Duarte Pacheco e prolongando-se depois ao longo da Av. 25 de Abril até à Praça dos Pescadores.

Sabendo-se que a manutenção não é o nosso forte, estas estruturas, já por si ideias erradas e subdimensionadas – porque a água que o sistema transporta no limite será sempre muito superior à capacidade das mesmas – padecem de falta de limpeza, acumulação de sedimentos e lixo, ligações ilegais de esgotos, entre outras situações que reduzem ainda mais a sua eficácia.

Temos portanto um excesso de água, encaminhado rapidamente e com enormes quantidades de energia acumulada para estruturas com deficiente capacidade de drenagem, encontrando ainda, no caso de localidades litorais, o “obstáculo” da preia-mar: eis os ingredientes de uma catástrofe anunciada.

E se há verdade incontornável no imparável trajecto da água é que, dê por onde der, encontra sempre uma saída.

Neste caso, violenta, colmatando e assoberbando rapidamente os frágeis sistemas de drenagem e espalhando-se pelas suas áreas de inundação natural – os vales como aquele em que o caneiro se insere são isso mesmo –, também conhecidos como leitos de cheia, hoje copiosamente ocupados.

Tudo em nome de um conceito de progresso de betoneira e de um modelo económico baseado no vampirismo, cuja expressão em termos de construção de paisagem é a proliferação desregrada e descontrolada de edificação, da qual Albufeira é somente um exemplo, ao qual se poderiam juntar muitos outros, já que este é um processo que no Algarve deixou poucas excepções.

Nestes momentos de aflição, destruição e verdadeira tragédia para todos aqueles que perderam os seus bens, meios de subsistência e até a vida, estas questões tornam-se gritantemente importantes. Mas, ultrapassado o drama, e regressado o Algarve solarengo, e a necessidade de amontoar mais e mais camas turísticas, o assunto não ocupa lugar de destaque nas preocupações da sociedade.

Daí que o exercício de procura de bodes expiatórios, porque circunstancial, não passa de uma vã caça às bruxas.

Outra coisa seria se fosse levado a cabo um diagnóstico sério e profundo das reais causas do problema, acompanhado de vontade, coragem e recursos para rectificar tudo aquilo que está mal e, já agora, prevenir a repetição do erro, o que não acontece.

Repito-me afirmando que Portugal, e o Algarve em particular, embalado por um clima geralmente generoso, espera sempre o melhor, preparando-se para o óptimo, quando outros, mais batidos nestas coisas, esperam o pior, e preparam-se para o péssimo. É por isso que massificamos alegremente a ocupação litoral, e não nos preocupamos com as construções em zonas sensíveis, como sejam leitos de cheias de cursos de água.

Se com a figura da Reserva Ecológica Nacional não foi possível evitar este estado de coisas, após a sentença de morte que foi já passada a esta figura de gestão territorial, e que marca o fim de um conjunto de aspirações a País civilizado que Portugal em tempos teve, a coisa só tende a piorar.

Infelizmente, este não foi o último capítulo desta história.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP)
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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