Caçadores de tornados portugueses partem amanhã para os Estados Unidos

O algarvio Bruno Gonçalves e os seus quatro companheiros partem amanhã, sábado, 9 de Maio, para caçar tornados nos Estados […]

tornado_2O algarvio Bruno Gonçalves e os seus quatro companheiros partem amanhã, sábado, 9 de Maio, para caçar tornados nos Estados Unidos da América. E as perspetivas parecem ser boas.

«Para sábado, dia da nossa chegada aos Estados Unidos, as previsões apontam para um dia com risco moderado de tempo severo ali em Oklahoma/Kansas e ligeiramente inferior nas restantes regiões envolventes. Ou seja, haverá grandes probabilidades de tempestades com granizo de grandes dimensões, ventos fortes, fortes trovoadas e também alguns tornados», escreveu ontem Bruno Gonçalves, na sua página de Facebook.

«Como já vamos chegar ao final do dia, dificilmente conseguiremos fazer uma caçada aos tornados, mas pelo menos trovoada forte poderemos ver. Para domingo, veremos o que as próximas previsões dizem, mas também está com potencial para tempo severo», acrescentou. Será «uma chegada em grande!», salientou, entusiasmado, o engenheiro de ambiente da Câmara de Lagoa, que faz parte da Troposfera, Associação Portuguesa de Meteorologia Amadora.

Ele e quatro outros meteorologistas amadores são os sócios fundadores da Troposfera, criada há cerca de um ano, e em cuja página web se poderá agora ir acompanhando as suas aventuras na famosa tornado alley dos Estados Unidos.

O grupo é constituído pelo algarvio Bruno Gonçalves, de 36 anos, engenheiro de ambiente, Artur Rebelo Neves, de 38 anos, de Lisboa, formado em Tecnologias da Informação, Henrique Santos, 25 anos, da Charneca da Caparica, pós-produtor de vídeo num canal de televisão, Miguel Pereira, 32 anos, de Setúbal, que trabalha em Gestão e Valorização de Recicláveis, e ainda Saul Monteiro, 39 anos, de Lisboa, que trabalha numa empresa de catering para companhias de aviação.

Bruno Gonçalves
Bruno Gonçalves

Este sábado, partem numa longa viagem de avião, primeiro em direção a Londres, depois numa ligação a Houston, no Texas. Vão ficar nos EUA até dia 30 de Maio, ao longo três intensas semanas, em que, além de pretenderem caçar tornados e outras tempestades, ou seja, filmá-los e fotografá-los sempre que possível, vão ainda visitar o National Weather Center (NWC), o centro de todas as previsões meteorológicas dos Estados Unidos, onde vão fazer entrevistas com alguns dos seus responsáveis e técnicos.

Mas o grupo da Troposfera vai também fazer outras entrevistas com a população das zonas afetadas pelos tornados, com as autoridades, «nomeadamente para saber como estão preparadas e organizadas para responder a estas situações de catástrofes naturais, em termos de proteção civil», e ainda com outros caçadores de tornados, como os famosos Tornado Titans. «Nos dias mais mortos, em que as previsões não indicarem tantas probabilidades de haver tornados, vamos dedicar-nos a essas entrevistas», contou Bruno Gonçalves, em entrevista ao Sul Informação.

É que, além de cumprir o seu sonho de se tornar storm chasers, este que é o primeiro grupo de portugueses que se organiza para ir caçar tornados aos EUA pretende também realizar um documentário não só sobre esses fenómenos meteorológicos extremos que assolam as planuras centrais daquele país, como sobre a forma como as autoridades e as populações estão preparadas para reagir e proteger-se.

«Pretendemos que o documentário tenha uma abordagem diferente, feita não só das sempre espetaculares imagens do céu, das nuvens e das tempestades, mas também uma abordagem pedagógica. Uma das coisas que queremos saber, por exemplo, é como é que as escolas se preparam», explicou.

A equipa a preparar o equipamento de gravação antes da partida
A equipa a preparar o equipamento de gravação antes da partida

Para estas três semanas de storm chasing nos Estados Unidos, os cinco membros da Troposfera fizeram uma preparação cuidadosa e intensa, que já dura há mais de um ano. Começaram por exemplo, por fazer uma campanha de crowdfunding na internet que, se não conseguiu angariar a totalidade dos 15 mil euros que necessitam para esta aventura, lhes deu muita visibilidade e atraiu outros apoios, de empresas, autarquias e particulares.

«Tivemos de estudar intensamente tudo para nos prepararmos», garantiu Bruno. De tal forma que dois deles, o Bruno Gonçalves e o Artur Rebelo Neves, fizeram mesmo o curso de storm spotters (observadores de tempestades), no National Weather Center (NWC), em seminários online que eram dados a partir dos Estados Unidos por volta da 1 hora da manhã em Portugal. «Foi um esforço muito grande, porque ambos trabalhamos e temos de acordar cedo no dia seguinte, mas essa formação é muito completa e interessante», contou o Bruno.

«Também vimos muitos vídeos pedagógicos…», recordou, fazendo uma pausa na conversa para salientar: «obviamente que isto é tudo teórico. No local é que iremos mesmo ver como é!».

A preparação do grupo também passou por treinar e definir normas de segurança, pela organização, definindo as funções de cada membro, pela escolha e treino com o software e o hardware que vão usar em campo.

«Já temos uma carrinha grande alugada, daquelas à americana, onde cabemos nós os cinco, mais o equipamento e as nossas bagagens. Essa carrinha será a nossa base de operações, aí teremos o computador portátil ligado permanentemente a um aparelho de wifi e ao GPS, mais uma câmara de vídeo. Vamos usar um software para podermos acompanhar, em tempo real, o radar do Centro Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos da América. Essa será a nossa ferramenta essencial, para sabermos a todo o momento onde é que estamos relativamente à tempestade e para onde é que devemos ir».

Tornado chasersChegando a Houston amanhã à noite, após um dia de viagem, o grupo não espera ver mais do que «uns relâmpagos e umas tempestades». Mas no domingo, dia 10 de Maio, «já vamos para o terreno. Será o nosso primeiro dia de caçada. Vamos avaliar se ficamos ali pela zona de Dallas ou se vamos para Oklahoma, onde há sempre mais probabilidades de haver tornados».

Ao que Bruno Gonçalves e o seu grupo de storm chasers sabe, «este ano a época dos tornados tem estado muito calma, tal como no ano passado, em que o número de tornados esteve muito abaixo da média. Mas basta uma semana de outbreaks, em que ocorrem 20, 30 tornados por dia, para já valer a pena lá irmos».

O meteorologista amador de Lagoa revelou ao Sul Informação que, segundo as informações que recolheram, «para os standards americanos os primeiros quinze dias de Maio devem ser calmos. Mas, se o que se prevê para lá acontecesse em Portugal, era um caos. A última quinzena de Maio já se prevê que seja mais ativa». E a equipa da Troposfera está preparada.

E como vai ser a sua rotina diária, se tudo correr bem? «A hora mais provável para ocorrerem tornados é a partir das 15h00. Por isso, vamos acordar de manhã cedo, ver as previsões para o dia, para escolhermos o local para onde nos iremos dirigir, aquele que tiver maiores probabilidades de ocorrem tornados. Depois é seguir o radar, com pequenos ajustes de localização, até ao início da noite». Apesar de também ocorrerem tornados durante a noite, nem os mais temerários storm chasers se dedicam a persegui-los, «porque simplesmente não se consegue ver o tornado e isso é super perigoso!».

À noite, a equipa irá avaliar a situação para o dia seguinte, vendo onde haverá mais probabilidades de tornados, porque será nessa zona que irão pernoitar, tudo para que, de manhã cedo, estejam já preparados para novo dia de caçada.

A equipa a preparar o equipamento de gravação antes da partida
A equipa a preparar o equipamento de gravação antes da partida

Os olhos de Bruno Gonçalves brilham quando fala destas três semanas de storm chasing nos Estados Unidos. É que, tal como os restantes quatro membros da Troposfera, o jovem engenheiro de ambiente algarvio há muito que tem uma paixão por fenómenos atmosféricos, em especial os extremos.

No entanto, apesar de em Portugal haver muitas trovoadas, chuvadas, alguns tornados e outros acontecimentos meteorológicos de interesse, a verdade é que nada se compara com a mítica «alameda» ou «corredor» dos tornados, nas planícies centrais dos EUA, em especial na zona de Oklahoma, retratada em filmes mais ou menos catastróficos e documentários.

E será aí, nessa tornado alley, que o grupo de cinco portugueses vai estar durante três intensas semanas de Maio.

Pode acompanhar as suas aventuras, com algumas imagens em direto, no site da Troposfera, na sua página de Facebook ou através do twitter em @TroposferaAPMA. Ou aqui no Sul Informação, já que iremos tentar acompanhar as peripécias a par e passo.

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