População da Culatra juntou-se para construir heliporto “ilegal” na ilha

Na Culatra, parece que o povo é, realmente, quem mais ordena. A população do núcleo habitacional da Culatra, na ilha-barreira […]

Na Culatra, parece que o povo é, realmente, quem mais ordena. A população do núcleo habitacional da Culatra, na ilha-barreira da Ria Formosa com o mesmo nome, cansou-se de esperar por respostas e licenças das entidades oficiais e decidiu construir ela própria um heliporto na ilha, que possa acolher helicópteros em situações de emergência. Uma questão de segurança, defendem, fulcral para uma população «que vive isolada».

Este domingo, mal o dia começou a dar sinais de nascer, «saíram pessoas de quase todas as casas, para ajudar». E, quando se fala num trabalho que mobilizou a população, não é exagero. Ao todo, estiveram envolvidas nesta ação mais de 300 pessoas, num núcleo que conta com cerca de mil habitantes.

«Todos deram o seu contributo, da forma que puderam. Homens, mulheres, crianças e idosos participaram», revelou a dirigente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC) Sílvia Padinha ao Sul Informação.

«Hoje foi um exemplo daquilo que pode surgir da união das pessoas. É a nossa marca, a determinação, união e força da população da Culatra», disse, visivelmente orgulhosa. «Todos tentaram contribuir da melhor forma. Mesmo as pessoas de mais idade, começaram logo a assar carne e a distribuir bebidas», descreveu.

O contributo foi além da mão-de-obra, já que a intervenção foi paga com o dinheiro dos que vivem nesta comunidade piscatória (florescente) do concelho de Faro, «com a ajuda de algumas empresas, que cederam materiais». «Cada qual contribuiu com o que podia, os que têm menos e os que têm mais», revelou Sílvia Padinha.

Também os candidatos à Câmara pela coligação encabeçada pelo PSD e pelo PS, Rogério Bacalhau e Paulo Neves, respetivamente, estiveram ontem na Culatra, onde «falaram com as pessoas».

Segundo Sílvia Padinha, a população não convidou «nenhum político» a estar presente, mas os dois candidatos, um dos quais, mais que provavelmente, será o futuro presidente da autarquia, «devem ter sabido o que ia acontecer».

A construção da infraestrutura avançou sem qualquer licença, mas «não se tratou de um capricho» da população. «Esta é uma obra extremamente necessária, tal como a água e eletricidade. Vai salvar vidas e isso faz toda a diferença», considerou.

Tendo isto em conta, os culatrenses consideraram que, se o Estado não assumia a obra, alguém teria que o fazer. «A sociedade civil, às vezes, tem de se chegar à frente», defendeu a dirigente da AMIC.

«Esta obra tem vindo a ser reclamada pela população, por o socorro demorar muito tempo a chegar à Culatra. Desde o pedido de socorro até chegar ajuda à ilha, chegam a passar mais de 45 minutos e até uma hora. Depois, ainda há que contar o tempo para ser levado para o hospital», ilustrou.

Além disso, e apesar de «as condições da Ria serem, quase sempre, muito boas», há sempre dias em que se torna difícil nela navegar, «com as tempestades, o inverno e a chuva». «Nós estamos isolados e não tínhamos outra forma de lá sair a não ser de barco. Agora, estamos a criar condições para termos uma alternativa», ilustrou.

 

Obra sem licença, mas feita a partir de conselhos de entidade oficiais

Na Culatra, apesar de haver registo de ocupação humana há pelo menos dois séculos, as casas existentes ainda esperam legalização e está em curso a elaboração de um plano de ordenamento para toda a ilha, no âmbito da Sociedade Polis Ria Formosa, que também contempla os outros dois núcleos da Culatra, os Hangares e o Farol.

Os culatrenses avançaram para a obra do heliporto sem autorização das diversas entidades que têm competência sobre o território ocupado pelo núcleo habitacional onde vivem, como aconteceu, de resto, com a larga maioria das infraestruturas ali existentes. Mas Sílvia Padinha defende que se trata de uma situação excecional, por estarem «vidas em jogo» e assegura que tentaram fazer tudo conforme mandam as regras.

«O projeto de requalificação do núcleo habitacional ainda não está concluído. Tivemos toda esta espera, para que as entidades conseguissem dar às populações o que elas têm direito. Visto que isso não foi possível, em tempo que considerássemos normal, avançámos para a obra», disse. Sílvia Padinha lembrou que a Sociedade Polis Ria Formosa foi criada em 2008 e deveria terminar este ano.

Apesar de não terem a licença, os culatrenses receberam conselhos técnicos de entidades públicas, como a Câmara de Faro, que deu «alguma informação», e o Instituto Nacional de Aviação Civil (INAC), que alegadamente forneceu coordenadas, para que o heliporto «cumprisse todas as especificações de segurança».

Para os habitantes da Culatra, é pouco importante que a infraestrutura tenha licença de utilização permanente, basta-lhes que as suas coordenadas geográficas estejam na base de dados do INAC e possa ser utilizada pelo INEM, «em caso de emergência».

Até porque, no passado, já houve necessidade de evacuar habitantes por via aérea e a tarefa demonstrou ser bem mais difícil do que seria de esperar. «Da última vez que esteve cá um helicóptero, um Kamov, até aterrou, apesar de ter andado às voltas, mas depois, para levantar voo, foi um problema. Era uma zona de areia, que entrava para as turbinas e não foi fácil», contou.

«A partir do momento que aquela base estiver construída, podemos receber helicópteros até 17 toneladas. Os acessos estão garantidos e a segurança também», assegurou. A infraestrutura foi construída numa zona afastada das casas existentes, no local onde existia uma edificação abandonada. À volta da base de betão ontem construída, será instalado um perímetro de segurança, devidamente vedado.

 

Culatrenses querem que heliporto fique no mapa

«Queremos que o heliporto fique identificado e possa ser utilizado [pelo INEM]. Terá condições para ser utilizado de dia e de noite. Foi construído pela população, mas não é algo artesanal. Todas as informações que recebemos, aceitámos e tentámos fazer tudo como nos indicaram», disse.

«Procurámos fazer a coisa com os parâmetros corretos, com as regras que estão definidas, com as coordenadas que nos foram dadas [pelo INAC], usando os materiais, a quantidade e pesos certos», assegurou.

Também já foi solicitada uma vistoria ao heliporto, tendo a população guardado uma amostra de betão, nesse sentido.

 

Veja a fotogaleria:

Comentários

pub
pub