Escavações arqueológicas na colina do castelo em Ourique fazem surgir mais perguntas que respostas

As primeiras sondagens arqueológicas alguma vez feitas de forma sistemática na colina conhecida como do Castelo, em Ourique, estão a […]

As primeiras sondagens arqueológicas alguma vez feitas de forma sistemática na colina conhecida como do Castelo, em Ourique, estão a gerar mais perguntas que a dar respostas.

As perguntas iniciais da ORIK – Associação de Defesa do Património de Ourique, que promove esta intervenção, eram simples, como explicou Henrique Figueira, seu presidente, ao Sul Informação: «Quando foi fundada a localidade? Foram os mouros que a fundaram? E se eles lhe chamaram Ourique, o que havia aqui antes?»

«Há um conjunto de confusões sobre a localização de Ourique, essa localidade referenciada nas crónicas islâmicas do século X como Al Riqa, que pode não ser aqui. Mas nós gostávamos de provar que poderia ter sido aqui…», acrescentou Henrique Figueira, presidente da ORIK.

E foi com esse pressuposto que a associação resolveu promover este projeto arqueológico, financiado em 10 mil euros por um privado, «um ouriquense que acredita no nosso trabalho, mas não quer dar a cara».

Até agora, os trabalhos passam pela realização de treze sondagens – buracos abertos em determinados locais, para verificar o que surge -, sete deles escavados no recinto no topo da colina conhecida como «do castelo», os restantes seis nas vertentes. E vai ainda ser aberta uma 14ª sondagem. Os trabalhos são dirigidos pelo arqueólogo Jorge Vilhena e contam ainda com a participação dos jovens arqueólogos Nuno Inácio e Helena Soares.

Mas até agora, para desespero de Helder Mendes, antigo realizador da RTP, membro fundador da ORIK e grande entusiasta destes trabalhos de investigação, apenas apareceram «fragmentos de cerâmica de época moderna, faianças, do séculos XVI e XVII». Vestígios islâmicos, nem vê-los.

Para dar maior «respaldo científico» a estas sondagens arqueológicas, os trabalhos foram visitados, na semana passada, por Cláudio Torres, o pai do Campo Arqueológico de Mértola e um dos maiores especialistas internacionais em arqueologia islâmica na Europa, e pelo historiador António Martins Quaresma.

A visita foi acompanhada por outras pessoas ligadas à associação, bem como pelo presidente da Câmara de Ourique, Marcelo Guerreiro, e pelo vereador da Cultura, Joaquim Góis, que fizeram questão de afirmar o grande interesse da autarquia nesta investigação. Aliás, a intervenção conta com o apoio logístico da Câmara Municipal.

O arqueólogo Cláudio Torres (a falar), ao lado do presidente Marcelo Guerreiro, de Henrique Figueira e do vereador Joaquim Góis

Henrique Figueira, presidente da ORIK e técnico superior de História da autarquia, explicou ao Sul Informação que as sondagens agora em curso inserem-se «num projeto mais vasto, que abrange dois quilómetros à volta da zona que chamamos do Castelo. A cerca de 2,5 quilómetros de Ourique, há umas décadas, foi encontrado por Abel Viana aquilo que ele considerou, na época, ser um capacete celta de prata. Veio depois a saber-se que era uma taça cerimonial em prata, com 2500 anos».

«As investigações funcionam como um puzzle: juntando as várias peças, ficamos com o contexto da ocupação da zona. O maior trabalho é puxar o fio à meada», disse aquele responsável.

Joaquim Góis, vereador da Cultura, salientou, em declarações ao nosso jornal, que se trata de «um projeto muito interessante para tentar saber o mais possível sobre a fundação de Ourique. É um trabalho que nunca foi feito».

O autarca frisou que, apesar de as sondagens na colina do castelo e nas suas vertentes, até agora, não terem dado grandes resultados, as vizinhas obras de requalificação da zona histórica têm sido mais generosas. No espaço de 100 metros, ao longo de uma rua que vai dar a esse sítio conhecido como «Castelo», foram encontrados 80 a 90 silos medievais, alguns possivelmente de origem islâmica.

Henrique Figueira, por seu lado, adiantou que todo o trabalho que agora está a ser feito «integra-se nas tarefas de cidadania e cívicas que a ORIK tem vindo a promover, iniciadas em 2006, com os “Cadernos”. O objetivo geral é responder às questões: de onde é que vimos? Para onde vamos?».

Mas sempre que se fala de Ourique, fala-se também de um mito fundacional de Portugal: a Batalha de Ourique, que teria ocorrido em 25 de Julho de 1139, e em que as tropas chefiadas por D. Afonso Henriques, então ainda a impor a nova nação, teriam derrotado os exércitos bem mais numerosos dos mouros, graças à intervenção divina, à ajuda de Jesus Cristo, que teria aparecido ao primeiro rei português.

Até hoje os historiadores discutem se tal batalha terá mesmo acontecido e onde é que terá tido lugar. Ourique, a vila do Baixo Alentejo, reclama-se desde há muito como o local dessa batalha quase mítica, até pela ligação óbvia do nome, mas há outras terras, por esse país fora, a fazer a mesma reivindicação. Cláudio Torres, na sua visita aos trabalhos arqueológicos, não teve dúvidas: «foi antes da tomada de Santarém, por isso não terá sido aqui».

A associação de defesa do património bem gostaria que as sondagens arqueológicas em curso ajudassem a encontrar mais informação que desse argumentos para a tese de que a batalha do século XII e a vila de Al Riqa referida pelo cronista do século X eram mesmo aqui.

Jorge Vilhena recordou, durante a visita aos trabalhos, que «as referências do século XIX indicam que não havia aqui muralhas. Leite de Vasconcelos descreve taludes, talvez os restos de um castro lusitano-romano».

Outro dado interessante, segundo o arqueólogo, são as «referências no livro de Atas da Câmara de Ourique, que referem a construção de um passeio público no colina do castelo, em 1901 a 1902. Parece ser essa reconstrução que recria o castelo, do qual já nada existia. A parede que surge numa fotografia de 1927 será o resultado dessa reconstrução».

António Martins Quaresma a recordar o que dizem os textos antigos

António Martins Quaresma lembrou que, em princípios do século XIV, nos relatórios sobre os prejuízos da Ordem de Santiago, refere-se que «Almodôvar tinha fortificações, mas Ourique já não tinha». O historiador considerou que «em finais do século XIII, haveria aqui uma construção militar que rapidamente entra em decadência». Mas não seria um castelo, a justificar a tomada pelas tropas cristãs da Reconquista e a existência de uma batalha importante nas suas imediações.

Cláudio Torres, com base nas descobertas que, ao longo de décadas, tem feito noutras zonas do Sul do país, como em Mértola, recorda que esse é «um mundo ainda muito mal conhecido, de comunidades de pastorícia, de micro transumância, com povoações fortificadas. É um mundo fantástico ligado a um povoamento berbere, pré-romano. Há aqui na zona restos toponímicos de uma língua berbere. Mas esta zona de serra era pouco islamizada».

O arqueólogo defendeu que Garvão e Cola, outras localidades importantes da mesma zona onde hoje se situa Ourique, «eram grandes ocupações, mas apenas postos de controlo das transumâncias, dessa micro transumância dos grandes rebanhos de ovelhas que pastavam aqui nos bosques de azinheiras e que, no Verão seco, iam para Monchique».

Ora isto, defende Cláudio Torres, «tem pouco a ver com a construção de grandes castelos». Aquando da Reconquista cristã, pela Ordem de Santiago, não havia na região «cidades, apenas rebanhos e isso pouco lhes interessava».

Por isso, garantiu, «o que poderia haver aqui, nesta colina, era uma fortificação não do tipo castelo, mas mais uma cerca em taipa ou adobe». «Que é o que estamos a encontrar!», exclamou Jorge Vilhena.

É que nas vertentes da colina, fora do recinto no topo, os arqueólogos estão a encontrar mais vestígios, nomeadamente os restos de um grande talude, talvez suporte de uma cerca amuralhada. Até agora, o talude já foi escavado até ao nível medieval cristão (século XIV), mas ainda há mais camadas por baixo, mais antigas, para investigar.

Os arqueólogos Jorge Vilhena e Cláudio Torres, junto ao talude

Cláudio Torres, veterano da arqueologia deste período da presença islâmica no Sul de Portugal, sabe que não é fácil encontrar respostas claras para as questões que os investigadores colocam. É que o que surge nas escavações são, muitas vezes, estruturas que foram usadas durante séculos, com métodos construtivos que perduraram quase até à época atual, ou fragmentos da vida quotidiana de uma população camponesa, pobre, que não comprava peças de cerâmica caras, fáceis de datar como de uma determinada época ou proveniência. Tudo isso, salientou, complica a vida aos arqueólogos.

«As respostas arqueológicas deste mundo camponês são muito complexas. A cerâmica que perdura no uso quotidiano pode ser do século VIII ou XII. É muito difícil ver diferenças tipológicas em cerâmicas comuns». Mas, acrescentou, como que para dar alento ao trio de arqueólogos no terreno, aos membros da associação ORIK e aos autarcas ouriquenses: «vamos estudando, vamos aprendendo».

Realista, Jorge Vilhena revelou que «todas as sondagens na colina encontraram rocha a 10 centímetros». É que, nas tais obras dos inícios do século XX, quando se construiu um passeio público e se tentou recriar ali no alto o castelo que se calhar nunca ali existiu, «foi tudo terraplanado a explosivos e a picareta». «O que quer que existiu aqui no recinto foi completamente destruído» em 1901 e 1902, com essas obras.

António Martins Quaresma não tem dúvidas de que, a partir do «grande mito da batalha de Ourique», «houve uma reconstrução do castelo no século XX inspirada na ideia de que aqui havia um castelo». Ou seja, ainda antes das grandes campanhas de reconstrução e recriação de castelos levadas a cabo pelo Estado Novo nos anos 40, já aqui, em Ourique, se tinha feito o mesmo.

«Seja o que for que aqui venha a ser encontrado, Ourique não deixará de ter um papel importante na história de Portugal», defendeu o jovem presidente da Câmara Marcelo Guerreiro. «O que está aqui a ser feito já é importante!»

Cláudio Torres também não tem dúvidas da importância da intervenção, embora saliente que os resultados poderão não surgir tão depressa como se gostaria: «o vosso trabalho aqui é, felizmente, para muitos anos, não é de meses».

E quanto à questão dos mitos à volta de Ourique, o veterano arqueólogo, homem de ciência mas também profundamente ligado à terra, disse, com um sorriso: «convém alimentar os mitos, os mistérios».

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

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