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Obrigado Professor

Fernando Santos Pessoa, com Gonçalo Ribeiro-Telles, na homenagem a este último

Nem sempre dizemos o suficiente o tanto que gostamos de alguém ou o quanto admiramos essa pessoa.

Hoje, a Universidade do Algarve e a Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, através da organização de uma merecida homenagem, deram-nos a possibilidade de o fazer em relação a uma personalidade que muito tem dado ao País e à região: Fernando Santos Pessoa.

Engenheiro silvicultor e arquitecto paisagista, é uma das vozes mais autorizadas em matérias de ambiente e ordenamento do território, possuindo um vasto e rico currículo que não vou tentar aqui ingloriamente reproduzir.

Realço, no entanto, o facto de ter sido destacado membro do grupo de homens e mulheres que, ao lado do Arqº Gonçalo Ribeiro Telles, contribuiu para um pós-25 de Abril menos desequilibrado em termos ambientais. Principalmente como fundador e primeiro presidente do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, em 1975, organismo hoje conhecido e deformado sob a designação de Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P..

Não temos a real noção do brilhantismo, visão e coragem que tal representou no seu tempo.

Na ressaca da saída do regime ditatorial, num momento em que a autoridade do Estado se encontrava pulverizada, em que as tensões sociais se encontravam no apogeu, com forças revolucionárias e contra-revolucionárias a conviverem num equilíbrio precário, sem ideia clara ou modelo para o desenvolvimento do País, e em que a mera intenção de definir áreas a conservar, mesmo que plenamente justificado, era rotulado como reaccionarismo, conseguiram introduzir princípios de ecologia e sustentabilidade no discurso político. E na Constituição da República Portuguesa, concretamente através do Artº 66º e do reconhecimento de um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado, como direito de todos os cidadãos.

A partir daí, construíram um quadro legal ambiental em muitos aspectos pioneiro, mesmo a nível europeu. Exemplos maiores são a criação em 1982 e 1983, respectivamente, da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, abordagens integradas aos valores e processos fundamentais da paisagem, salvaguardando os solos potencialmente mais produtivos, a par da protecção dos ciclos da água, carbono e circulação atmosférica.

Mas Fernando Pessoa foi muitas mais coisas, maioritariamente ao serviço de causas públicas.

Dessas, destaco o seu papel enquanto professor universitário em diversos estabelecimentos nacionais e internacionais, incluindo na Universidade do Algarve, onde foi um dos principais responsáveis pela criação da licenciatura em Arquitectura Paisagista, em 1998.

Foi aí que o conheci, há quase 20 anos, quando fazia parte da primeiríssima e irrepetível fornada de aspirantes a arquitectos paisagistas.

Munido de santa paciência e auxiliado apenas por um ou dois exemplares dos “Fundamentos da Arquitectura Paisagista” do Professor Caldeira Cabral – disponíveis na biblioteca da então Unidade de Ciências e Tecnologias Agrárias – o Professor promovia uma espécie de baptismo paisagístico, em que pacientemente nos mergulhava no rio do conhecimento do corpo teórico desta arte científica, tentando mitigar e expurgar a ignorância que naturalmente explanávamos, com o fulgor próprio da idade.

Tive desde então o grato privilégio de ser seu aluno, mas também aprendiz, discípulo, colega e, acima de tudo, afortunado amigo.

Recebi, das suas marcantes lições, mais do que conhecimento ou a preparação para uma profissão, inspiração para uma atitude diferente, uma compreensão mais vasta e profunda do que nos rodeia, sempre presidida por um espírito de missão.

Porque em tudo o que faz, essa missão está presente.

Comprovei-o mais tarde, quando tive a oportunidade de trabalhar no seu atelier e de aí conviver com a excelência no exercício da reflexão, concepção e desenho da intervenção na paisagem. Aprendi técnica, mas também ética e deontologia. A ele que devo do melhor que sei.

Foi também o exemplo incansável do Professor Fernando Pessoa que em mim despertou uma consciência cívica e em boa parte inspirou a abraçar a intervenção ambiental como dever moral e forma de estar. Dar um pouco de nós ao que é de todos nós enquanto contributo inescapável de qualquer cidadão.

Confesso-me portanto, com manifesta e orgulhosa parcialidade, um profundo admirador do Professor Fernando Pessoa.

Admiro a sua capacidade e sensibilidade técnica e profissional. Admiro a grandeza e bondade da sua dimensão humana. Admiro a atenção e cuidado do seu pensamento, sempre preocupado com a componente humana das paisagens, com o próximo, numa lógica de dignidade e ética, em que o respeito pelo Homem é indissociável do respeito pelo seu suporte vital, psíquico e espiritual, sem no entanto perder de vista o necessário pragmatismo.

E admiro a inesgotável resistência e determinação com que continua a intervir e a servir na vida pública. Uma vida pública da qual fez parte em momentos-chave da sua construção contemporânea, num percurso que dava um épico. Uma vida pública que já lhe foi madrasta e lhe não faz a devida justiça ou dá o devido reconhecimento. Não só porque os tempos são reféns de figuras bem menores e de valores bem mais torpes, mas porque o Professor Fernando Pessoa não procura protagonismo ou favor nem se coloca em bicos de pés. A tudo, ele responde com elegância, elevação, humildade e desprendimento.

Se hoje o homenageamos, no fundo praticamos apenas justiça elementar. E demonstramos que sabemos dar valor à sorte e ao contínuo privilégio que é com ele podermos partilhar esta irrequieta, inquieta e curiosa aventura que é o seu percurso até aqui e daqui para a frente.

Enquanto Professor, Mestre, Arquitecto Paisagista e, principalmente, Homem.

Como há poucos.

Obrigado, Professor.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP)
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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