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Algarve é «atrativo» e tem potencial mas falta-lhe «um projeto regional»

Idálio Revez, jornalista do Público e moderador do debate, com João Guerreiro, Paulo Teixeira Pinto e Adriano Moreira

«Afinal, quem somos nós?». A questão foi lançada por João Guerreiro, no primeiro debate do ciclo “O Algarve, Portugal e o Futuro”, que teve lugar ontem, quarta-feira. Um intervenção onde o antigo reitor da Universidade do Algarve (UAlg) não foi brando, já que, diz, «falta um projeto regional» ao Algarve e a culpa é dos próprios algarvios.

O auditório da Escola Secundária João de Deus, em Faro, encheu por completo para ouvir tanto João Guerreiro, como Adriano Moreira, advogado, professor universitário e histórico dirigente do CDS, Guilherme d’ Oliveira Martins, administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, e Paulo Teixeira Pinto, responsável pela criação do Museu Zero, em Santa Catarina da Fonte do Bispo (Tavira).

Para João Guerreiro, o problema passa, em grande medida, pelo desempenho da região, enquanto comunidade, que «podia ser melhor». «Temos um potencial enorme, mas falta-nos garra e um projeto regional», acredita.

«Dentro da sociedade de brandos costumes, que é Portugal, somos ainda uma comunidade com maiores brandos costumes. Somos pequenos, mas temos um percurso de vida que não é suficientemente afirmativo daquele que é o potencial da região», começou por dizer.

Ou seja, a região é atrativa, mas «somos pouco interventivos», o que leva a que o Algarve não consiga «estruturar a capacidade de atração da região».

Plateia

Na visão do antigo reitor da UAlg, estas fragilidades «podem ter a ver com a nossa dimensão», mas também «com a nossa estrutura interna, que é de um arquipélago – cada concelho tem as suas dinâmicas».

«As autarquias quase que convivem entre elas porque têm de conviver. Não há interação e uma integração na vida da região que possa ser um passo em frente para constituir um projeto de atração mobilizador», acrescentou.

Na sua cadeira, Adriano Moreira, com 95 anos, assistiu, atento, a todo o debate. A sua intervenção, mais direcionada para aquilo que será o futuro de Portugal, além de revisitar a história do país, deixou um aviso: «todo o futuro tem de estar sempre atento à circunstância de o imprevisto estar à espera de uma oportunidade».

Também a «dependência internacional» foi abordada pelo histórico dirigente do CDS. «Os portugueses têm de ter consciência» de que esta dependência «é constante», referiu.

Guilherme d’Oliveira Martins, que tem raízes algarvias, não esteve presente fisicamente no debate, mas entrou em contacto com a plateia através de uma chamada de voz.

Segundo o administrador executivo da Gulbenkian, há a «tentação de pensar que o Algarve é só sol e mar, mas temos um conjunto de realidades culturais, económicas e sociais que não podem deixar de ser aproveitadas».

Adriano Moreira

Falando de nomes como Lídia Jorge, António Ramos Rosa ou Casimiro de Brito, Guilherme d’Oliveira Martins referiu que, ao olhar a «capacidade criadora do Algarve e dos algarvios, encontramos a possibilidade de desenvolver e prosseguir uma missão de desenvolvimento cultural».

Esta é, de resto, a praia do projeto que foi apresentado por Paulo Teixeira Pinto, responsável pela criação do Museu Zero, em Santa Catarina da Fonte do Bispo (Tavira).

O objetivo é criar um museu de arte digital, transformando os antigos silos e armazéns da cooperativa daquela localidade, criando, assim, mais um polo de atração cultural da região. A obra, garantiu, «está perto de começar».

Este ciclo de conversas é organizado pela editora Sul, Sol e Sal e pelo Rotary Clube de Faro. No final da primeira sessão, Manuel Brito, fundador desta editora, em declarações ao Sul Informação, fez um «balanço positivo».

«Tivemos casa cheia, o que é bom, e convidados de alto nível», disse. A próxima sessão deste ciclo já está marcada para dia 26 de Janeiro, terá a economia como tema central e António Rebelo de Sousa, André Jordan e Vítor Neto como convidados.

Nesta ocasião, será apresentado o livro “O Algarve em Números”, um estudo económico realizado por António Rebelo de Sousa para a Sul, Sol e Sal.

Aliás, a ideia desta editora é «publicar livros que reflitam sobre como o Algarve se deve posicionar na área da economia, do turismo, da agricultura ou do ambiente e da cultura», explicou Manuel Brito. Para tal, já foram convidados nomes como Lídia Jorge, que assistiu a este primeiro debate, e Guilherme d’Oliveira Martins.

Por isso, o grande objetivo deste ciclo é fomentar o debate e que as «pessoas pensem o Algarve e o futuro», disse, às vezes com perspetivas desconcertantes e diferentes.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

 

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