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Obras da variante de Faro da EN125 “descobrem” cemitério romano

Há 1900 anos, entre meados dos séculos II e III depois de Cristo, uma comunidade de agricultores romanos sepultou os seus mortos, ao longo de pelo menos uma centena de anos, num local nas margens do Rio Seco, que hoje se situa nos arrabaldes da atual cidade de Faro, ao lado da Pista de Atletismo.

Onde viviam esses agricultores não se sabe hoje muito bem, porque não foram ainda encontrados vestígios da villa, a grande quinta rural, onde teriam a sua habitação e as zonas de apoio à atividade agrícola.

No entanto, mais ou menos na mesma zona, em finais do século XIX, Estácio da Veiga, considerado o pai da arqueologia portuguesa, identificou uma villa romana, num sítio a que chamou Amendoal. Só que, há mais de cem anos não havia GPS e a localização exata desse povoado rural romano perdeu-se. Por isso não se sabe onde ficava, nem se teria qualquer relação com a necrópole romana agora descoberta.

Se não se sabe onde viviam as pessoas que durante quase dois milénios estiveram enterradas no terreno no Rio Seco, à beira da EN125, pelo menos espera-se agora que os esqueletos relativamente bem preservados e algum – pouco – espólio encontrado em cerca de sete dezenas de sepulturas na necrópole possam dar pistas aos investigadores sobre quem eram estes romanos, onde e como viviam.

A necrópole foi descoberta em agosto passado, durante os trabalhos de acompanhamento arqueológico da Variante de Faro à EN125, por técnicos da empresa Archeocelis, responsável por todo o acompanhamento das obras de requalificação daquela estrada e das respetivas variantes, de Vila do Bispo quase a Vila Real de Santo António.

Mas os trabalhos de escavações só começaram no dia 23 de janeiro deste ano, tendo chegado a ocupar uma equipa de 15 pessoas, entre arqueólogos, estudantes de arqueologia e antropólogos.

Segundo Teresa Miguel Barbosa, a arqueóloga responsável pelos trabalhos na necrópole, estima-se que a intervenção dure apenas mais duas semanas.

«Estamos a fazer todos os registos e levantamentos das sepulturas, a retirar o espólio osteológico e finalmente desmontaremos as estruturas. Depois de termos terminado o nosso trabalho, as obras podem avançar neste local», explicou Teresa Barbosa, em entrevista ao Sul Informação.

 

Destruição e preservação

 

Enquanto a equipa de jovens arqueólogos se dedica a registar com todo o rigor, em desenho e fotografia, as sepulturas romanas encontradas – até agora estão identificadas 67, mas poderão ser 70 a 72 nos 870 metros quadrados da intervenção – as obras da variante prosseguem a bom ritmo ali mesmo ao lado.

Da necrópole nada ficará no terreno, que em breve será coberto pelo alcatrão da nova estrada. A memória deste local, do seu espólio e das estruturas funerárias, só poderá depois ser encontrada no Museu Municipal de Faro, onde todo o material ficará depositado.

Mas não se pense que esta é a primeira destruição que a necrópole romana sofre. O cemitério estendia-se originalmente para uma zona onde, em meados do século passado, foi plantado um laranjal, entre a EN125 e a estrada para a Conceição de Faro.

Agricultura, estradas, casas, tudo contribuiu para ir destruindo, a pouco e pouco, os vestígios milenares, em tempos em que não se pensava muito na importância de preservar esses testemunhos do passado.

A própria Pista de Atletismo de Faro, construída há meia dúzia de anos, também deu o seu contributo para a destruição. Pelo menos um dos muros da pista foi construído bem em cima de sepulturas romanas, destruindo-as. E, apesar de se tratar de obras recentes, já obrigadas a acompanhamento arqueológico, não parece que alguém alguma vez se tenha apercebido de que ali havia vestígios que importaria estudar. Ou, se alguém se apercebeu…

 

Hierarquia na morte, como na vida

 

Até ao momento foram descobertos, nos 870 metros quadrados, 67 sepulturas romanas, mas pensa-se que poderão ser 72.

«Há uma grande variedade de tipologias de sepulturas: umas mais simples, cobertas com tégulas [telha romana plana] em telhados de uma água, outras em caixa, com telhados em tégula de duas águas, ou mesmo em ânfora», explica a arqueóloga Teresa Barbosa.

«No período romano, a hierarquização na vida também se encontrava na morte». Por isso, algumas das sepulturas eram mais elaboradas, provavelmente indicando que os indivíduos aí sepultados teriam um estatuto social mais elevado na comunidade.

Uma das questões que a arqueóloga da Archeocelis considera ser interessante é o facto de haver «quase o mesmo número de subadultos» (jovens e crianças) enterrados, o que pode estar relacionado com a grande mortalidade infantil e juvenil da época. Mas também pode querer dizer simplesmente que a zona da necrópole investigada pelos arqueólogos era aquela onde se sepultava esses jovens e crianças…

Outro dado curioso é o «enterramento de neonados», de recém-nascidos, o que, naquela época, não era comum, já que se pensava que as crianças não eram propriamente pessoas enquanto não fossem seres pensantes e autónomos, aí pelos 4 ou 5 anos, no mínimo.

«Mas aqui há uma quantidade considerável de neonatos, pelo menos 10», explica a arqueóloga.

Também interessante é a descoberta de recém-nascidos enterrados em ânforas, um tipo de enterramento que ainda não tinha sido identificado no Algarve. Aqui foram encontrados quatro.

Registo cuidadoso, em desenho, de uma sepultura

Nas sepulturas, há muito pouco espólio para além dos esqueletos, que, embora relativamente bem preservados, quase se desfazem quando se retiram os ossos do seu descanso de 1800 a 1900 anos. «Por isso, antes de tocarmos nos ossos, fazemos o registo o mais rigoroso e completo possível», garante Teresa Barbosa.

Da avaliação prévia dos restos humanos já feita no local e em laboratório pelos antropólogos que integram a equipa, já se conseguiram, por exemplo, identificar as doenças mais comuns desta época, nesta população. E constatou-se, por exemplo, que grande parte das pessoas ali sepultadas, até mesmo as crianças, tinham os dentes muitos desgastados, devido a uma alimentação muito baseada em cereais duros.

 

Uma oportunidade científica única

 

As escavações permitiram identificar duas áreas de ocupação da necrópole, desde meados do século II até meados do século III depois de Cristo.

Carlos Pereira, aluno de doutoramento da Universidade Clássica de Lisboa, tem estado a participar nas escavações da necrópole do Rio Seco porque se trata de uma oportunidade que não surge muitas vezes.

É que, como explicou ao Sul Informação, apesar de haver muitas necrópoles romanas identificadas no Algarve, «poucas foram intervencionadas recentemente, com os métodos atuais». Na villa romana de Milreu, perto de Estoi, que fica a meia dúzia de quilómetros deste local, as intervenções foram feitas em finais do século XIX, por Estácio da Veiga. Mas os métodos eram diferentes e, por isso, «não há toda a informação da necrópole».

Bem mais recente foi a intervenção de 2004 no Largo 25 de Abril, em Faro, numa necrópole que faria parte da cidade romana de Ossónoba. «As estruturas eram tipologicamente muito semelhantes a estas», garante Carlos Pereira.

Por isso, a esperança do jovem investigador é que esta escavação na necrópole do Rio Seco «forneça dados que faltavam nas outras intervenções». «Não é que estes dados sejam inéditos. A questão é que não tínhamos nenhuma escavação atual, com métodos atuais e com estas dimensões». Daí o interesse científico desta necrópole.

O espólio retirado desta necrópole – ossos, estruturas das sepulturas, algumas peças de cerâmica – será depositado no Museu de Faro. Mas, em conjunto com toda a investigação, será também objeto de divulgação, para um público mais especializado e, espera-se, para o grande público.

Teresa Barbosa disse esperar que os primeiros resultados desta intervenção sejam apresentados em outubro, no Encontro de Arqueologia do Algarve, que costuma ter lugar em Silves. Mas pode ser que haja também uma outra apresentação, mais voltada para o público leigo, em Faro.

 

 

 

 

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