As areias na Praia de Faro

Soluções não haverá muitas…mas existem

Uma tempestade mais violenta atirou com toneladas de areia para a estrada da Praia de Faro, ao longo de apreciável extensão; mas, se formos ver o resto do cordão dunar que se prolonga na direcção nascente, para lá do casario, os estragos foram mínimos e apenas na primeira fila de pequenas dunas.

Há décadas que, todos os Invernos, sucedem situações destas. Claro que, em caso de tempestade mais forte, as consequências são piores. E este ano parece bater todos os recordes…

Soluções não haverá muitas; falou-se já num muro – que terá de ser tão alto que evite o galgamento das areias, mas será difícil imaginar-se uma muralha ao lado da estrada, com as diversas aberturas para entrada na praia.

A outra solução será tentar fixar as areias.

Há uns bons pares de anos foi feita a fixação da maior parte do cordão dunar, por decisão do arqº Nuno Lecoq quando era director do Parque Natural, e a quem eu instiguei que o fizesse, porque tinha já experiência desse tipo de intervenção.

Falando de mim, quando eu fiz o meu estágio profissional como silvicultor na mata da Marinha Grande (se alguma vez eu ou alguém podia imaginar o desaparecimento pelo fogo daquela mata multisecular, devido ao abandono a que foi votada pela nova ciência florestal em vigor…), tive o privilégio de acompanhar os trabalhos de fixação das dunas de São Pedro de Muel, um tipo de intervenção em que a Holanda deu grande impulso.

Isto no tempo em que os Serviços Florestais se preocupavam com as diversas formas de actuar nas paisagens sensíveis do país.

Mais tarde, executei esse trabalho nas dunas da costa norte da ilha de Porto Santo.

Escrevo isto para explicar que não falo sem conhecimento de causa.

Enquanto a fixação das dunas da Ilha de Faro se manteve em boas condições, nunca se deram as entradas de areia para a estrada com as dimensões dos últimos anos; mas a fixação das areias ao longo da estrada foi-se degradando por falta de manutenção e por atravessamento excessivo das pessoas que não respeitaram a protecção.

A nascente, poém, e apesar das estruturas terem desaparecido, como se havia dado tempo às dunas para recuperarem, hoje os estragos são mínimos.

O único presidente da Câmara que me ouviu e aceitou a sugestão, ao longo dos últimos anos, foi o engº Macário Correia. Só que não permaneceu no cargo o tempo suficiente para dar corpo à acção.

Com a maior educação cívica que, quero crer, hoje existe na população para o respeito pela protecção que será exigida depois da fixação das areias, diminuiriam os estragos que agora se repetem todos os anos, embora existam ali alguns espaços mais problemáticos.

Evidentemente que uma tempestade mais forte pode sempre causar alterações de maior monta, mas, estando as areias fixadas, elas serão menos graves.

Além disso, pode efectuar-se uma acção destas com voluntários, recorrendo a associações juvenis, e transformar esta intervenção num acto de cidadania que enobreceria a cidade. Ficará sempre mais barata que a tal muralha – e ecológica e esteticamente incomparavelmente melhor.

Cá fica a ideia.

 

Autor: Fernando Santos Pessoa é arquiteto paisagista e engenheiro silvicultor…e escreve com a ortografia que aprendeu na escola

Fotos: Cátia Rodrigues | Sul Informação

 

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