Interpretações do Paraíso

Em mais uma das suas crónicas visuais, Filipe da Palma interroga-se sobre a degradação de Cacela-Velha

Visão do deserto – Foto: Filipe da Palma

Agora que o Verão já se encontra no seu final dia, em que a região do Algarve – em particular sua litoral fímbria – vê partir os milhares de turistas de volta às pastagens de Inverno (numa transumância iniciada há cinco décadas), é altura de arrefecer a cabeça, de consolidar objetivos, de arrumar ideias e de escrever acerca de uma capa de revista publicada na última semana de Agosto, tendo por título «O ÚLTIMO PARAÍSO DO ALGARVE», sendo a imagem impressa correspondente a uma vista aérea da Ria Formosa, aparecendo em primeiro plano o troço que começa em Cacela-Velha, tendo como ponto de fuga a área nas proximidades de Cabanas de Tavira.

O Verão, em quase toda sua totalidade, englobando os meses de Julho e Agosto, são denominados de Silly Season por variados motivos, mas igualmente pela característica de serem produzidas peças de teor jornalístico cuja abordagem se revela superficial, pecando mais pela omissão que pelos elementos escolhidos onde recai a análise.

Se a escolha da matéria a ser analisada e alvo poderá tão somente ir, ou não, ao encontro de um pessoal gosto, já a omissão e ou a deliberada falta de certos elementos é nefasta, porque não somente induz ao erro, mas igualmente o perpetua.

Assim, o que me aparece na capa da revista mencionada é um título associado a uma imagem, é um conceito perpetuado desde há décadas em que se associa o Paraíso na Terra ao litoral, à areia e suas zonas adjacentes.

Tudo estaria bem, mesmo não o estando (mas já me encontro imune a essa associação e faço-a reverter em meu favor, quando tal me é propício ), e não teria sentido esta premente necessidade de escrever, não fosse o título estar associado àquela imagem, à imagem do litoral de Cacela-Velha. Passo a explicar quais os motivos, que tanta inquietação me causam:

– a imagem acima mencionada julgo que não é atual, tendo sido captada há pelo menos um ano, visto nela ainda se encontrarem visíveis as estruturas do viveiro de ostras – cuja existência já em perigo com o assoreamento da ria – foi arrasada ainda este ano com o temporal que, sem esforço, passou o que restava do antigo cordão dunar.

Ossadas de arbustos – Foto: Filipe da Palma

 

– a imagem da capa transmite falsamente a existência de um saudável cordão dunar repleto e fortificado pela vegetação, o que de facto não acontece.
Uns metros para cá do extremo nascente do remanescente cordão dunar, a vegetação desaparece por completo e a remanescente elevação de areia esbate-se, sendo empurrada para a ria a cada ano que passa.

– Cacela-Velha, a Relíquia, sendo banhada pela Ria Formosa, tinha no cordão dunar uma muralha, um primeiro baluarte, onde, por vezes, a ondulação mais forte se esbatia, protegendo não só o sistema lagunar, mas igualmente a base alicerçada da própria povoação.
De características mutacionais ao longo dos tempos, foi, porém, através da ação erosiva do ser humano que, num curto espaço de tempo, viu a sua existência ameaçada.
Há poucos anos, sofrendo de assoreamento, foi alvo de abertura artificial de uma barra, não no sítio onde naturalmente se estava a abrir (testemunhado por residentes), mas num sítio oposto, mais a nascente, tendo tal ato sido descrito pelos mesmos como um erro, facto esse pouco tempo depois facilmente verificável, acabando por enfraquecer a linha contínua do cordão dunar.
Porém, desejo acreditar igualmente que os técnicos da APA deverão ter em sua posse estudos e documentos, provando que ali seria, de facto, o melhor sítio onde abrir uma comunicação com o vasto Oceano, e que proximamente, num espantoso volte-face, toda a situação, de forma natural, se irá reverter…

Obra sem serventia – Foto: Filipe da Palma

– Cacela-Velha, a Maravilha, a Pérola, o Paraíso, tem cinco habitantes, cinco. Tem, por vezes, uma ou outra casa à venda, estabelecendo-se o preço, no presente, por um espaço mais modesto e de inspiração popular, por uns dispendiosos 450.000 euros. As casas são, portanto, totalmente vividas, fruídas, um a dois meses por ano, naturalmente coincidindo com o período estival.
Já, por outro lado, o Cemitério expande-se como pode, em direção ao infinito, para dar serventia não a Cacela-Velha, mas a toda uma vasta Freguesia.

– Cacela-Velha, a Pérola, tem cimento aplicado nas centenárias paredes de seu Forte, em nada contrastando com feérica escultura moderna implantada entre este e a Igreja.

Ampliação de espaço útil e visões inúteis – Foto: Filipe da Palma

– Cacela-Velha, o Oásis, tem em sua entrada um restaurante que possui uma esplanada que pula a estrada e que por cima, na açoteia, foi instalada pesada e visível estrutura sombreante, para que mais cálidos corpos se acomodem em torno de um merecido repasto mediterrânico.

– Cacela-Velha, a Vila classificada como Imóvel de Interesse Público, tendo integrado um conjunto de 11 aldeias, foi alvo do Programa de Revitalização das Aldeias do Algarve.
De entre um vasto conjunto de ações de estudo e subsquentes ações de salvaguarda do existente Património, foi igualmente gizado um plano de intervenção, «que salvaguarde a integridade natural e cultural deste território, incrementando a qualidade de vida das suas populações e a utilização sustentável dos seus recursos, visando essencialmente a valorização dos recursos endógenos e a dinamização sócio-económica deste território».
Neste sentido, entre outras obras que decorreram na Vila, procedeu-se ao encaminhamento das águas pluviais para uma conduta única, indo desembocar esta, não na ribeira contígua a Cacela, mas uns metros antes, em plena arriba onde se encontra implantado o Forte, minando paulatinamente suas bases, ano após ano.

Erosão na proximidade do forte – Foto: Filipe da Palma

– Cacela-Velha, o Segredo, fazendo parte do Parque Natural da Ria Formosa, da Rede Natura 2000 e inscrita na lista de Sítios Ramsar, viu, neste início de Verão, acontecer o impossível.
Escudando-se numa suposta limpeza de terrenos numa privada propriedade de muitos hectares, confinando com a ribeira de um lado e com a arriba de outro, todo o estrato vegetal existente – de árvores de médio porte a frágeis orquídeas – desapareceu, raspado meticulosamente, assim como toda a vida animal que lá vivia, tendo ficado o terreno completamente árido de vida.
Igualmente soterrado pela movimentação de máquinas ficou o troço do caminho pedestre que ladeava a Ribeira (tendo seu início junto à ponte), sendo este de uso público e situado dentro da margem do domínio hídrico da Ribeira.

Visão do deserto – Foto: Filipe da Palma

Agora, passado o esforço que necessariamente conduziu a uma tentativa de ser sucinto e balizado para que entendam o prurido que tal capa provocou em mim, poupando-vos a dissertações sobre seu conteúdo, desejo ainda partilhar o seguinte:

Salvo erro, a Ria Formosa figura desde 1980 – por Portugal se ter tornado signatário da Convenção sobre as Zonas Húmidas de Importância Internacional – na lista de sítios Ramsar.

Salvo erro, ao ter subscrito a Convenção, terá como obrigações:
– designar Zonas Húmidas para inclusão na Lista de Zonas Húmidas de Importância Internacional. Estes Sítios são reconhecidos a partir de critérios de representatividade do ecossistema, de valores faunísticos e florísticos e da sua importância para a conservação de aves aquáticas e peixes
– elaborar Planos de Ordenamento e de Gestão para as Zonas Húmidas, com vista à sua utilização sustentável
– promover a conservação de Zonas Húmidas e de aves aquáticas, estabelecendo Reservas Naturais, e providenciar a sua proteção apropriada.

Salvo erro, no caso de um determinado sítio se encontrar sob ameaça, a parte contratante poderá – deve – inscrevê-lo na Montreaux Record, com o fim de se tornar alvo da aplicação de um mecanismo de apoio e aconselhamento técnico previsto na convenção.

Largura da ria durante a maré vazia, frente ao forte – Foto: Filipe da Palma

Salvo erro, a Ria Formosa encontra-se desde há muito em processo de intenso assoreamento, com especial incidência na área de Cacela-Velha, o qual tem coberto com intenso manto de areia o lodo que é a base de todas as formas de vida.

Salvo erro, a Agência Portuguesa do Ambiente já manifestou sua intenção de não ação neste trecho da costa, escudando-se na naturalidade de todo o processo, que é assim… (remetendo para o esquecimento sua desastrosa ação de abertura de uma barra em sítio não conveniente e posterior e rápida degradação após a mesma).

Salvo erro, nenhuma diligência foi efetuada no sentido de comunicar à Convenção sobre as Zonas Húmidas de Importância Internacional as dificuldades presentes no terreno.

Salvo erro, parte da Ria Formosa, incluída na lista Ramsar, encontra-se amputada de vida, correspondendo a uma mentira.

Salvo erro, a dinâmica dunar e da ria, após o ser humano ter mal calculado os seus trabalhos, será de um cada vez maior assoreamento e de irreversibilidade e subsequente atrofiamento da vida, encaixando talvez na perfeição da marca Praias de Cacela.

Salvo erro, o melhor a fazer será o pedido para diminuição da área Ramsar e assumir que a escolha é Praias de Cacela.

 

Imagem com dez anos, cordão dunar ainda intacto – Foto: Filipe da Palma

 

A CONQUISTA DE CACELA

As praças fortes foram conquistadas
por seu poder e foram sitiadas
as cidades do mar pela riqueza

Porém Cacela
foi desejada só pela beleza

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

 

Autor do texto e das fotos (todos os direitos reservados): Filipe da Palma, fotógrafo

 

 

 

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