Amendoeiras e gente de bem atraem milhares de pessoas a Alta Mora

O Sul Informação acompanhou um dia de trabalhos de preparação do Festival das Amendoeiras em Flor e conta-lhe como foi

Foto: Hugo Rodrigues|Sul Informação

A dona Maria Ermelinda dedica-se, com outras senhoras, à elaboração das decorações. O senhor Gualdino, com a força de braços ganha com anos de trabalho no campo e pernas que venceram muitas corridas, junta-se a mais homens para fazer as tarefas mais pesadas. Já Hugo, que cresceu na grande cidade, caiou uma parede pela primeira vez.

Nas últimas semanas, sobretudo ao sábado e ao domingo, a usualmente pacata povoação de Alta Mora, no interior do concelho de Castro Marim, tem-se enchido de vida, para preparar a primeira edição do Festival das Amendoeiras em Flor, que se irá realizar no fim de semana, dias 1 e 2 de Fevereiro, e deverá atrair milhares de visitantes.

Habitantes locais – que são já poucos -, sócios da Associação Recreativa, Cultural e Desportiva dos Amigos da Alta Mora (ARCDAA), que junta muitos filhos da terra, elementos da associação ADRIP de Cacela Velha e voluntários vindos de fora, têm-se vindo a juntar para trabalhar.

E há muito para fazer, desde recuperar uma antiga casa do fogo, até dar nova vida a um velhinho forno de lenha, passando por preparar o pocilgo, pregar os últimos pregos na cerca dos animais e cuidar da horta.

Todos estes são elementos do festival que a Associação Recreativa, Cultural e Desportiva dos Amigos da Alta Mora vai promover este fim-de-semana, com o apoio do programa “365Algarve”.

Ao longo de dois dias, além dos já tradicionais passeios para ver as amendoeiras em flor, a neve do Algarve, que os organizadores do evento promovem há cerca de 15 anos, haverá um mercado de produtores locais, uma aldeia dos artesãos, recriação de inúmeros elementos do mundo rural, animação de rua, ateliês infantis, gastronomia, música e teatro.

O programa completo pode ser consultado aqui.

 

 

No sábado em que o  Sul Informação visitou Alta Mora, eram cerca de duas dezenas aqueles que, desde manhã cedo, se atarefavam a preparar a festa.

De um lado, no caminho para o Cerro de Alta Mora, vários homens juntavam o material e faziam os preparativos para aquelas que seriam duas das principais tarefas do dia:  caiar o interior de uma antiga casa do fogo, abandonada há décadas, e criar uma vedação em torno da horta que fora plantada uma semana antes e que será um dos elementos do festival.

Apesar de todos parecerem saber bem o que têm de fazer, Valter Matias, presidente da ARCDAA e um dos principais impulsionadores deste festival, vai dando indicações e organizando os trabalhos.

«Estamos a trabalhar no sentido de ter aqui uma festa de arromba, nos dias 1 e 2 de Fevereiro. As nossas expetativas para este primeiro Festival das Amendoeiras em Flor são altas», confessou Valter Matias.

Com o som de fundo de um berbequim e de alguém a martelar, o presidente da ARCDAA explicou ao Sul Informação que a casa que está a ser recuperada irá ser integrada na chamada Aldeia do Artesão.

Neste local, será instalado o sítio do chá, onde será servido «chá e café, feito no fogo como antigamente, bem como bolinhóis e o tradicional medronho».

Também na Aldeia dos Artesãos, onde se irá «recriar vários ofícios do mundo rural», haverá «uma padeira, um tear, renda de bilros, empreita e outros».

Na estrada principal, que atravessa Alta Mora, vai decorrer o mercado «onde os produtores vão vender produtos tradicionais, desde o mel à amêndoa, dos enchidos à doçaria».

«Os animais também fazem parte. Haverá um porquinho aqui no pocilgo, que foi recuperado para o efeito, bem como galinhas, ovelhas e cabras. E nem sequer faltará o pastor», contou Valter Matias.

Também serão plantadas 50 amendoeiras. «Vamos ter um workshop, dinamizado pela associação In Loco. As pessoas podem inscrever-se e depois plantaremos as árvores. Será uma forma de contribuir e deixar uma marca. Já temos as árvores e o terreno preparado».

 

Maria Ermelinda Domingos

 

Do outro lado da estrada, na antiga escola primária, hoje sede da associação, a dona Maria Ermelinda Domingos puxa dos galões e informa, com orgulho, que é «a mais velha dos que estão aqui a trabalhar».

Do alto dos seus 84 anos e com uma simpatia contagiante, explica que se tem vindo a dedicar, com outras «sete ou oito mulheres», a criar os enfeites de papel em forma de flor de amendoeira que darão cor e alegria à festa.

«As mulheres são quase todas do meu tempo. Uma tem menos um mês do que eu. O mais é tudo de setenta anos, quase oitenta. Este trabalho é nosso, os homens têm o trabalho da rua»,  frisou.

«Estou ajudando naquilo que eu posso. Estou ajudando a fazer estas coisinhas, estas decorações, que são flores de amendoeira», diz, enquanto mostra uma das flores.

Este trabalho é feito no interior da antiga escola primária, onde também existe uma cozinha na qual várias mulheres preparam já o almoço, um dos momentos sagrados, em que todos os que estão a ajudar se sentam à mesa, para desfrutar de uma refeição cheia de iguarias típicas e conviver.

Nesse dia, desprendia-se dos tachos o aroma de migas e do cozido de couve, que foi acompanhado por frango e carne assada, uma salada de produtos locais, vinho caseiro e, no final, medronho.

Apesar de, neste momento, o leitor poder estar com a sensação que a descrição da ementa de um dia passado só serve para causar inveja, longe disso. É que estas iguarias gastronómicas também vão estar disponíveis nos dias do festival.

«Além do pão e dos produtos regionais do mercado, será confecionada comida típica. Vamos colocar aí umas lareiras ao vivo e confecionar cozidos em caldeirões, como se fazia antigamente. Cozidos de couve, migas e outros pratos como esses», conta Valter Matias.

 

Hugo Esteves

 

Até lá, há muito para fazer. Felizmente, também há muitos braços para ajudar, alguns de pessoas que nem têm ligações a Alta Mora.

O lisboeta Hugo Esteves é ainda jovem, mas já está no Algarve há muitos anos. «Conheço o Matias há algum tempo e sei que estes projetos são sempre coisas engraçadas. Ele gosta de dar vida ao que estava abandonado e acho que isso é importante», contou ao Sul Informação.

«Foi uma comunidade e uma gente excelente que encontrei aqui. A experiência tem sido ótima: trabalhar, conversar, conviver, conhecer novas pessoas… tem sido incrível! E, claro, os almoços, que são uma parte essencial (risos)», disse.

«Tenho aprendido muito com as pessoas de cá. Nunca tinha caiado – pouco pintei, caiar nunca – e vamos aprendendo assim os outros ofícios que se faziam aqui no campo», concluiu.

Hugo é um dos vários ajudantes que vieram de fora. «Há sócios, gente local, que vive aqui, pessoas que vieram de Vila Real, de Castro Marim. A ADRIP-Associação de Defesa, Reabilitação, Investigação e Promoção do Património Natural e Cultural de Cacela está a colaborar connosco. Serão eles a dinamizar a parte do mercado, mas também nos estão a ajudar nesta fase», resume Valter Matias.

Além de recuperar edifícios e construir estruturas para os animais, os voluntários também estão a recuperar mobília, utensílios e outros elementos antigos encontrados nas casas que já não estão a ser usadas, que terá uma nova vida.

 

Gualdino Lourenço

 

O senhor Gualdino, que também colocou o seu trator ao serviço da missão comum, garante, por seu lado, que esta será uma festa «como nunca viram».

«Vamos fazer uma festa grande na Alta Mora, para animar isto aqui. Já não há aqui quase ninguém e vai ser uma grande animação», diz o habitante da povoação.

Hoje com 80 anos, Gualdino Leandro Lourenço foi guarda-fiscal e fez vida em Vila Real de Santo António, onde ainda tem casa. Mas, nos dias que correm, passa mais tempo em Alta Mora.

«Vamos abrir várias casas que estavam fechadas há muito tempo. Uma delas é aquela casa do fogo, que era do meu cunhado e está abandonada desde os anos 90», explicou.

«Agora vai ter uma cara nova. Já há muito tempo que ninguém lá ia. É para deitar abaixo e voltar a construir… é assim», desabafou.

Antes do vaticinado fim, este edifício ainda será útil, pelo menos, mais uma vez. «Estamos preparados para tudo: as mulheres vão estar a amassar, vamos fazer pão no forno, lá em cima vamos montar um tear, para toda a gente ver».

«Também vamos ter as cabras, os porcos, as ovelhas, as galinhas, o burro… está tudo aí com fartura», diz, a rir, Gualdino Lourenço.

 

Valter Matias

 

O programa parece estar a entusiasmar o público, já que as inscrições têm sido muitas e são já superiores a seis centenas. E há gente a vir de muitos locais, alguns bem longínquos, como a Austrália.

«Há pessoas de muitas nacionalidades. Temos alemães, holandeses, belgas, franceses, italianos, muitos espanhóis e até australianos. E depois, há gente de vários pontos do país, como Almada e  Lisboa, e do Barlavento Algarvio. De Espanha, vem gente de Sevilha e um grande grupo de Málaga», revelou Valter Matias.

Muitas destas pessoas já conheciam Alta Mora pelos passeios que a associação promove há anos para ver as amendoeiras em flor.

«A parte dos percursos pedestres já a vimos a desenvolver desde 2005. E temos tido uma procura crescente nos passeios que promovemos. Começámos com 30 pessoas e, no ano passado, tivemos perto de mil participantes», recordou.

«Em 2020, achámos por bem ampliar o evento e fizemos uma candidatura ao “365Algarve”. Decidimos juntar, às amendoeiras, esta questão do artesanato e do mundo rural e integrar tudo num festival», acrescentou o presidente da ARCDAA.

«Há-de passar cá muita gente, algumas duas mil ou três mil pessoas. No ano passado, houve dois passeios para ver as amendoeiras em Fevereiro que juntaram mais de 400 pessoas de cada vez», acredita Gualdino Lourenço.

 

 

Tanto a dona Maria Ermelinda como o senhor Gualdino acolhem o repórter do Sul Informação com desmedida simpatia e sem poupar nos sorrisos. Aliás, Gualdino Lourenço fez questão de abrir a porta da sua casa, para mostrar, com orgulho, os troféus que ganhou no atletismo.

Apesar de já ter 45 anos quando começou a correr, arrecadou «muitos primeiros e segundos lugares». O ponto alto aconteceu no dia em que disputou e terminou uma maratona de 42 quilómetros em Ayamonte: «e já tinha 60 anos».

De caminho, mostra o seu vinho e enchidos de um porco «alimentado só a bolota».

Como se vê, quem for a Alta Mora, no sábado e no domingo, pode contar com hospitalidade e amizade, da parte da população local.

«Venham todos, que vai haver uma festa aqui na Alta Mora como nunca viram. Nunca houve por cá uma festa tão grande. Venham todos, que aqui é tudo gente de bem e serão todos bem recebidos!», desafia Gualdino Lourenço.

«Vale a pena! Venham cá, porque vale mesmo a pena», reforça, por seu lado, o insuspeito Hugo Esteves.

Quem se quiser inscrever, pode fazê-lo neste link, pelo telefone 96528465 ou pelo email arcdaa@gmail.com  indicando o nome completo, o número de cartão de cidadão e a data de nascimento. Mais informações podem ser encontradas no site da ARCDAA.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

 

 

Organizado pela ARCDAA com o apoio do 365Algarve, o Festival das Amendoeiras em Flor conta também com as parcerias do Município de Castro Marim, Junta de Freguesia de Odeleite, Associação Odiana e Associação Artística Satori e com a colaboração da ADRIP (Associação de Defesa, Reabilitação, Investigação e Promoção do Património Natural e Cultural de Cacela), da concessionária Mscar, da empresa de segurança Especial1 e da Escola de Hotelaria e Turismo de Vila Real de St. António.

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