O Hospital de Faro abriu há 40 anos

Em suma, o Hospital de Faro foi somente mais um equipamento a juntar ao extenso rol de um menosprezo secular

O «Algarve rejubilou perante a abertura do novo Hospital de Faro». Esta podia ser a manchete de um qualquer periódico nacional, por estes mesmos dias de há 40 anos. Mas não foi. O então novo hospital, cuja construção se delongou pelos anos, abriu as portas aos algarvios, a 29 de dezembro de 1979, sem pompa, nem circunstância.

Nove décadas antes, em julho de 1889, era o comboio que chegava a Faro, sem qualquer inauguração oficial, não obstante os 20 anos de atraso da data aprazada para o efeito.

Também em 1979, logo a 16 de janeiro, a Assembleia da República aprovava a criação da Universidade do Algarve, numa iniciativa inédita em Portugal.

O Algarve e os algarvios, o reino distinto, que, na prática, nunca existiu, raras vezes foi prioridade para os desígnios nacionais, antes reiteradamente desprezado por parte do poder central. Em suma, o Hospital de Faro foi somente mais um equipamento a juntar ao extenso rol de um menosprezo secular.

 

O antigo Hospital da Misericórdia, em Faro, na atualidade

A construção

Segundo Neto Gomes, no livro «Hospital de Faro, 30 anos de história, uma vida de afectos», as primeiras notícias relativas a um novo edifício hospitalar a construir em Faro remontam a 1963.

Recorde-se que era a Santa Casa da Misericórdia local a detentora do secular hospital da cidade, de cariz assistencialista, situado na Praça D. Francisco Gomes, anexo à igreja daquela irmandade.

A exiguidade do espaço, face ao surto turístico que o Algarve vinha a registar, a evolução da medicina, aliada a alguma ingerência por parte da Mesa e das irmãs nos serviços médicos ali prestados, forçavam a construção de um novo edifício.

Em Novembro de 1967, o presidente da autarquia farense acreditava que as obras se iniciariam no ano seguinte. Mas o lento processo de expropriações dos terrenos que a nova unidade iria ocupar, na Carreira de Tiro, dilatou o seu início.

Assim, somente em janeiro de 1972 foi lançado, numa primeira fase, o concurso para a construção do edifício, projetado em 1965.

Para uma segunda fase, ficava o equipamento e o mobiliário. Estimava-se o custo total em 130 000 contos.

O anúncio surgia, na sequência da visita à região do ministro das Obras Públicas, Eng. Rui Sanches, à qual o «Jornal do Algarve» deu amplo destaque, inserindo uma imagem do alçado sul do novo hospital, bem como uma descrição pormenorizada do edifício.

 

Alçado sul do novo Hospital de Faro, publicado na 1ª Página do Jornal do Algarve, de 8 de janeiro de 1972

Na reportagem, a importância do equipamento não foi descurada: «é apreciável o benefício que da construção do hospital resultará para a nossa Província, não só sob o aspecto da desejável cobertura hospitalar, mas ainda, e sobretudo, por se tratar da maior e mais valiosa zona turística do país, não dispondo, actualmente, de um estabelecimento à altura das necessidades». A entrada em funcionamento foi então aventada para 1975.

Ao concurso, responderam 12 empresas, sendo a obra adjudicada à S. Construtora Luso-Suíça. Os trabalhos iniciaram-se em 1973, 10 anos depois de alvitrada a sua construção.

Em abril desse ano, foram os mesmos visitados pelo ministro da Saúde, Dr. Baltazar Rebelo de Sousa, numa ampla digressão pelo distrito. Durante esta, o Governador civil, Eng. Lopes Serra, solicitou ao governo, por intermédio daquele ministro, «redobrada atenção para a problemática algarvia, em procura turística constituída por gente que, muitas vezes, leva do nosso país a imagem que colhe no Algarve».

Com uma lotação primeiramente avançada de 366 camas, mas mais tarde de 433, as mesmas repartiam-se por diversas valências e em 8 pisos. O modelar edifício encontrava-se levantado ao nível do 3º piso, em outubro de 1974, poucos meses após a Revolução de Abril. No ano seguinte, o velho Hospital da Misericórdia era nacionalizado, passando a designar-se Hospital Distrital de Faro.

O calor da revolução também não trouxe celeridade aos trabalhos, e a conclusão das obras, entretanto previstas para Agosto de 1976, conhecem mais alguns atrasos.

Ainda assim, em dezembro de 1977, o novo edifício estava concluído. Por essa altura, previa-se a entrada em funcionamento no primeiro trimestre de 1978.

 

Visita do Primeiro Ministro, no Diário de Notícias, de 18 de Abril de 1979

Todavia, somente a 17 abril de 1979, o primeiro-ministro Mota Pinto, acompanhado pelos titulares das pastas dos Assuntos Sociais e das Obras Públicas, bem como dos secretários de Estado respetivos, preside, em Faro, à entrega do edifício feita pelo Ministério das Obras Públicas ao congénere dos Assuntos Sociais.

Acompanhados por outras entidades, percorreram demoradamente todo o edifício, cujo custo ascendeu a cerca de 470 mil contos, e que previa ocupar, segundo do «Diário de Notícias», 100 médicos, 100 para-médicos, 290 enfermeiros e 300 funcionários administrativos.

Como dificuldade maior, foi apresentada a carência de habitação na cidade, uma vez que a maioria dos profissionais seriam externos à região. A renda de uma casa com três assoalhadas tinha um custo de 10 000$00.

Refira-se que o velho hospital tinha 200 camas, capacidade que agora mais que duplicava. O novo edifício ia, assim, abrir por fases.

No mesmo dia da visita, é aprovado, em Conselho de Ministros, um decreto-lei especial, com a definição jurídica do hospital, com a fusão, numa só, das duas comissões instaladoras, a do novo e a do velho hospital.

Para o «Diário de Notícias», o hospital constituía «um dos melhores estabelecimentos do género na Europa, pela racionalidade da sua concepção, pela mobilidade dos seus futuros serviços e pela independência do seu funcionamento».

Ao que acrescentava: «situado num distrito onde no Verão aflui um milhão de pessoas, sobretudo turistas estrangeiros, mostra-se projectado para corresponder à imagem que se pretende dar de uma zona moderna, bem equipada e bem estruturada». A entrada ao serviço foi agendada para finais de maio seguinte.

 

O Hospital de Faro na atualidade

É certo que a transferência dos serviços vinha a ocorrer desde janeiro, culminando no fim de dezembro, com o Internamento de Cirurgia e Especialidades Cirúrgicas, Serviço de Urgência e Bloco Operatório.

Mas, no início desse mesmo mês, numa visita às instalações pela comunicação social, entre ela, o «Correio do Sul», era referido que, dos 99 médicos previstos, existiam ao serviço 35, quanto aos enfermeiros de um quadro de 412 existiam 129 lugares preenchidos, já do pessoal paramédico estavam ocupados 23 lugares de um total de 65.

O que levava a «Voz de Loulé» a noticiar que o novo hospital funcionava a 10 % da sua capacidade. Para depois questionar como tinha sido possível construir uma unidade para empregar mais de 1 000 pessoas, sem edificar um bairro ou blocos de apartamentos para alojar todos esses profissionais, de que Faro e o Algarve não dispunham.

Certo é que as novas instalações abriram a 29 de dezembro de 1979. Na imprensa diária nacional, não houve qualquer referência ao momento, nesse dia ou nos seguintes.

Mas o novo hospital e os seus profissionais lá estavam para dar o seu melhor na defesa da saúde dos algarvios. Com muitos momentos felizes, mas também alguns infelizes, o espaço foi ampliado, já no virar do novo milénio, com a construção de um novo edifício do Ambulatório.

Também este conheceu diversos atrasos, e depois de concluído esteve anos à espera de entrar em funcionamento, num quase repetir da história do edifício mãe.

 

O Hospital de Faro na atualidade

O presente

Volvidos que são 40 anos sobre a abertura ao público do Hospital de Faro, projetado em 1965, as instalações encontram-se estranguladas e é inconcebível que o novo hospital central do Algarve, cuja primeira pedra foi lançada em 2008, ainda não seja uma realidade.

Só a indolência dos algarvios pelo progresso da sua região, hoje tal como no passado, aliada aos débeis políticos, mais preocupados na sua carreira política (sempre que o seu partido está no governo, esquecem a região, para depois tudo se inverter e repetir sucessivamente), do que na defesa dos reais interesses dos seus eleitores, podem justificá-lo.

As premissas que levaram à construção do hospital na década de 1970 são hoje tão atuais como então. Os milhões de turistas que nos visitam não levam uma imagem digna do país, após conhecerem as instalações do Hospital de Faro.

Pois se o Hospital de Portimão, que este ano comemorou 20 anos, dispõe de estruturas adequadas à sua missão, em Faro a própria conceção do edifício está ultrapassada, com más condições de acolhimento, com infraestruturas ultrapassadas, enfermarias grandes, corredores estreitos, salas de espera exíguas, em todo o piso da ortopedia, por exemplo, somente existem WC nas extremidades…

No exterior, os acessos são limitados e é impossível estacionar o carro. Além de que o Algarve carece de novas valências médicas, disponíveis somente em Lisboa, a 300 quilómetros de distância.

Poderão os profissionais de saúde desempenhar bem as suas funções na situação atual? Que atrativos encontram para aqui se fixarem?

Temos um curso de Medicina, e um pomposo Centro Hospitalar Universitário do Algarve, só falta o edifício modelar, uma unidade altamente diferenciada, assegurando uma atividade clínica de excelência…

E não se evoquem os custos de construção/exploração, pois a região dá ao país muitos mais divisas do que aquelas que recebe… E o Algarve é, no contexto nacional, a região com menor número de camas hospitalares por habitante.

 

Antevisão do futuro (?) Hospital Central do Algarve, a construir no Parque das Cidades

Se o Algarve se uniu contra a exploração de petróleo, porque não sucede o mesmo com a saúde? É certo que timidamente as Assembleias Municipais estão, por estes dias, a aprovar moções exigindo a concretização do novo hospital. Mas a sociedade permanece inexplicavelmente alheada.

Até agora as manifestações realizadas quedaram-se por escassas dezenas de participantes, apesar de as redes sociais registarem centenas de publicações negativas sobre o estado da saúde no distrito.

Terá a história de repetir-se, na íntegra, mais uma vez? Já passaram 11 anos desde o lançamento da 1ª pedra do novo hospital, quantos mais terão de decorrer, para nos unirmos num esforço comum na defesa de um projeto estruturante para a região e para o país… Essa união só depende de mim, de si, de nós…

Parabéns ao hospital de Faro e a todos os seus profissionais! E o meu agradecimento público pessoal pelo seu profissionalismo de que sou usufrutuário há 19 anos.

Não tenho dúvidas que a melhor prenda para todos, profissionais e algarvios, é o início da construção efetiva da nova unidade hospitalar, no Parque das Cidades. Esta é, há mais de uma década, a primeira prioridade do Algarve.

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação.

Nota: Nas transcrições, respeitou-se a ortografia da época.

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