289 foi o indicativo para ligar jovens aos sonhos e às artes

Pedro Cabrita Reis falou com alunos do Agrupamento de Escolas Tomás Cabreira, de Faro

«Um livro, que não é um livro qualquer, que documenta um momento particular e interessante», foi apresentado, esta terça-feira, na Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro.

No entanto, este livro, o catálogo da exposição promovida, no Verão passado, pela associação 289, com o comissariado de Pedro Cabrita Reis, depressa passou para segundo plano, quando o artista, em conversa com os alunos, levou para o centro do debate temas como a arte, os sonhos e a necessidade de não desistir deles.

Pedro Cabrita Reis foi professor, na década de 80, em Portimão, e talvez daí advenha o seu à-vontade para falar com os jovens. Até porque, apesar do seu passado enquanto docente, não tem problemas em admitir que a «escola é uma maçada».

No entanto, esta “maçada” é necessária porque, como disse aos estudantes, «vocês estão aqui a aprender e, quanto mais aprenderem, mais curiosos serão. A única forma de serem pessoas é através do conhecimento».

Este encontro entre Pedro Cabrita Reis, alguns dos artistas que compõem a 289 e cerca de 100 estudantes, aconteceu por causa de um livro especial e esse foi o ponto de partida da sessão.

Tiago Batista

 

Tiago Batista, da 289, lembrou que «Pedro Cabrita Reis aceitou o convite “atrevido” para fazer uma exposição na 289. E ele fez uma exposição que era para ter 20 artistas, mas foram 80. Conseguiu fazer uma coisa especialíssima e juntou, em Faro, os grandes nomes da arte contemporânea em Portugal. É um momento que se poderá repetir, mas é difícil».

Tiago Batista prosseguiu a sua apresentação até ao momento em que disse que os alunos «andam na escola para aprender». Aí, foi interrompido por Pedro Cabrita Reis: «andam na escola porque são obrigados». O público riu, aplaudiu e estava conquistado.

Então, o artista assumiu as “rédeas” da conversa, começando por falar da exposição e da forma como foi criada por uma associação jovem, com poucas fontes de receita.

Pedro Cabrita Reis

 

«Não vale a pena chorarmos pela falta de condições, o que temos de ter é atitude combativa, produtiva, e um pensamento que nos leve a realizar. Não estamos só a falar de uma exposição ou dos artistas, estamos a falar de um modo de ser na vida. Isso deve ser o que nos norteia. Não devemos, em qualquer circunstância, abdicar daquilo que nos move interiormente. Não há aí alguém que tenha um sonho qualquer?», questionou.

Depois, Pedro Cabrita Reis fez um apelo: «espera-se dos jovens que não tenham vergonha de ser jovens e usem a vossa juventude como arma de arremesso, que não é mais do que uma coisa que se manda para rejeitar aquilo que não queremos».

A pouco e pouco, os alunos perderam a vergonha e começaram a interagir, não só com Pedro Cabrita Reis, como também com os artistas 289, que foram chamados para a frente da audiência.

Houve perguntas e partilha de histórias. Uma delas, contada por Tiago Batista, era sobre um artista que viveu a infância, literalmente, debaixo da ponte, mas que, devido à sua perseverança, vingou no mundo das artes. A pergunta surgiu: «Há aqui alguém que viva debaixo da ponte?».

Pedro Cabrita Reis

 

Então, levantou-se Afonso, um jovem que, desde muito cedo, ajudou os seus pais na agricultura, sempre com o sonho de ser designer. O sonho de Afonso não foi bem recebido pela família, que não achava que esse fosse o melhor futuro para o filho.

Depois de uma experiência frustrada na área de Ciências, o jovem, após várias discussões, ouviu uma pergunta do pai que terminaria o conflito: “filho, o que é o design?”. Afonso respondeu e, agora, estuda Design de Comunicação.

Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, também ele habituado a falar com jovens, também ex-professor, foi “apresentado” aos alunos por Pedro Cabrita Reis e agradeceu ao artista o «momento grandioso» que proporcionou. «Fez aquilo que os artistas fazem: pôr-nos a pensar nos nossos sonhos, em como sair de debaixo da ponte, na nossa realidade».

O autarca destacou também o exemplo de Afonso que «conseguiu o que quis, porque não desistiu. Fez com que pessoas que ele ama e respeita entendessem o seu ponto de vista, falando com elas, convencendo-as. Isto para dizer que devem tentar ser vocês mesmos» e «não vale a pena fazerem coisas das quais não gostam».

Rogério Bacalhau, Pedro Cabrita Reis e Paulo Santos

 

Terminada a sessão, o sentimento da Associação 289 era de dever cumprido. Tiago Batista explicou ao Sul Informação que «este é um dos objetivos da associação: criar públicos novos, que têm que ser criados nestas idades. Para isso, temos que vir à escola secundária, foi essa a nossa ideia».

Para o responsável da 289, «é muito difícil levar pessoas à cultura e os jovens têm um fator diferenciador: têm idade de se espantar com as coisas. É importante que se apercebam de outras coisas que podem fazer na vida, além do que está programado. Um caminho que não seja para a escravatura, para o horário das nove às cinco, num trabalho precário. Assim percebem que há outros mundos, que eles nunca pensaram que poderiam encontrar na vida».

Pedro Cabrita Reis concorda com esta visão. «Os jovens não têm relação com a arte, mas têm um capital extraordinário, porque são jovens e podem eventualmente vir a interessar-se. Não se pode formatar a esperança. Temos que ter curiosidade e paciência para que eles se revelem».

Pedro Cabrita Reis e os artistas da 289

 

Para isso, é preciso um importante papel da escola, porque é aqui que «começa tudo o resto. Aquilo que vai ser mais tarde a sociedade. Daqui saem os artistas e os cientistas. A escola é a forma perfeita do que seria modelo utópico para a sociedade. Se a escola é perfeita? Não é. A escola é um laboratório microcósmico daquilo que é a sociedade. Tem as doenças, as fraquezas e as forças do contexto social do país».

Em relação aos jovens, «temos que fazer o que estiver ao nosso alcance, não para criar autómatos ou réplicas, mas para criar curiosidade sobre o que existe. A escola tem que informar os jovens da importância de estarem abertos ao mundo. Não é apenas ensinar equações e desenhos, é mais fundo. É construir o pensamento de curiosidade».

A geração de jovens que ouviu Pedro Cabrita Reis, esta terça-feira, é diferente da geração de 80, que assistiu às aulas do artista, quando era professor.

No entanto, as diferenças, são apenas «no contexto. Estes jovens podem ouvir outras músicas, vestir roupas diferentes, viver de outra forma, mas o que persiste debaixo das aparências é a idade que têm. Esta é a idade da generosidade, da revolta, de querer mudar as coisas. Vestidos de fato e gravata ou com jeans rasgados, com cabelo pintado de roxo ou penteadinho ao lado, são sempre jovens. E este é um tempo precioso. Temos que fazer, durante esse tempo, algo que os faça ser grandes interiormente, no pensamento, na alma, na solidariedade e na cidadania», concluiu.

O catálogo da exposição custa 25 euros e está à venda na Associação 289, na Biblioteca Municipal de Faro, no Museu Municipal de Faro e em livrarias especializadas.

 

Fotos: Nuno Costa|Sul Informação

 

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