João d’Arens: ordem para preservar

Que legado deseja deixar aos seus filhos e netos – betão ou Natureza? Eu sei a minha resposta. E você?

Há artigos fáceis de escrever, outros, nem por isso. Este foi sem dúvida difícil de redigir, por tratar-se de uma matéria que mexe com fatores económicos, muito sensíveis à maioria dos portugueses – nomeadamente a “promessa” de geração de empregos – versus questões ambientais, infelizmente ainda consideradas menos importantes para muitos.

Sendo a minha intenção clara sensibilizar e mobilizar o maior número de pessoas para fazer ouvir a sua voz de discordância, encontrar o tom certo que pudesse causar o maior impacto possível não foi fácil.

Coincidência ou não, deparei-me com um artigo online cujo título – “Loulé suspende PDM para travar onda de construção no litoral” – me deixou mais entusiasmada e inspirada.

Aqui e ali, a realidade no que toca a preocupações ambientais vai gradualmente mudando. Ainda vamos a tempo? Só o futuro o dirá…

Neste caso, a Câmara Municipal de Loulé, devido às alterações climáticas – em particular à subida do nível do mar – suspendeu o seu PDM, o que irá inviabilizar a proposta de construção de um empreendimento turístico no lugar do parque de campismo de Quarteira, inserido numa das principais zonas húmidas da região – a lagoa do Almargem – o último grande espaço verde que ainda resta entre Quarteira e Vale do Lobo.

Que perspetiva convincente poderia utilizar neste artigo de opinião para abordar a problemática do loteamento do João d’Arens, a última grande mancha verde na faixa costeira de Portimão, a nossa “última janela para o mar”?

– Salientar que a ponta de João d’Arens faz parte da memória coletiva dos portimonenses?

– Demonstrar que o João d’Arens é um local mágico com árvores, arbustos, matos, prados, vegetação própria da orla costeira, onde até existe uma espécie de planta protegida, endémica do Algarve – a Linaria algarviana – e outra muito rara, tanto em todo o Mundo, como em Portugal – o Cynomorium coccineum -, passível de interesse turístico?

– Dar ênfase à questão de que a Natureza não pode subsistir em “Microreservas Botânicas”, como propõe o Estudo de Impacto Ambiental?

– Acentuar que a construção dos três hotéis com 411 quartos está prevista numa zona próxima de frágeis falésias, não se sabendo, ao certo, que impacto terá no futuro, essa carga construtiva e o aumento da erosão hídrica?

– Sublinhar que a construção dos edifícios dos empreendimentos turísticos previstos irá provocar um impacto visual negativo, num espaço verde que a todos fascina?

– Salientar a riqueza da Avifauna, com a possibilidade de observação de aves marinhas durante o Inverno, suscetível de atrair observadores de aves nacionais e estrangeiros? Para não falar das lagartixas, osgas, cobras, camaleões e insetos, tudo importante para a biodiversidade, cada vez mais em risco.

– Levantar a questão sobre que tipos de empregos serão criados, num Algarve ainda sujeito à sazonalidade?

Na busca de encontrar o tom perfeito para um artigo impactante, decidi sair das quatro paredes e colocar-me in situ.

Peguei na minha filha mais velha, numa destas tardes solarengas (sim, muito agradáveis, mas mais um sinal que o clima está alterado…) e fomos juntas, explorar João d’Arens. Quis perceber o que poderia uma criança de cinco anos exprimir, perante a informação de que aquela paisagem corria o risco de deixar de existir, para dar lugar a betão.

Depois de deambularmos divertidas, quase perdidas, naqueles que são considerados pelo Estudo de Impacto Ambiental, “pisoteio e múltiplos trilhos na zona próxima das arribas” que causam erosão (sim, de facto, muito grave, comparada com a desmatação que a construção dos empreendimentos poderia vir a provocar…), perguntei-lhe:

– Estás a gostar de passear por aqui?
– Sim mamã, muito. Tantas árvores, florzinhas e pássaros a cantar, mesmo aqui tão próximo da nossa casa. Temos de vir cá mais vezes!
– Sabes filha, estão a pensar construir hotéis neste local.
– A sério? Porquê? O que vai acontecer às árvores e às flores?
– As árvores vão ser derrubadas e as flores vão deixar de existir.
– E os passarinhos onde vão morar? Vão ter de fugir para outro lado para serem construídas casas, onde as pessoas só vêm de vez em quando?
– É verdade filha. Não faz sentido.
– Mamã! Vais deixar que isso aconteça?

Escusado será dizer, que fiquei sem palavras.

Já li o Estudo de Impacto Ambiental diversas vezes. Provavelmente, nada do que está previsto é ilegal. É somente uma má opção de planeamento que não me convence.

A realidade de 2008 – aprovada pela Assembleia Municipal em 14 de Janeiro de 2008 com o Plano de Urbanização da Unidade Operativa de Planeamento e Gestão de Hotelaria Tradicional onde se insere a área do loteamento de João d’Arens, na sequência da Avaliação Ambiental de 2007 e do respetivo Relatório Ambiental que obteve parecer favorável da CCDR do Algarve – não é a mesma de hoje.

As alterações climáticas, a subida do nível do mar, a perda da biodiversidade, a desflorestação do Algarve – devido aos recentes e trágicos incêndios – nada disso estava previsto, há 11 anos.

O Mundo mudou, infelizmente, não para melhor em alguns aspetos. “Nos últimos dois séculos, provocámos danos irreparáveis no clima e ecossistema global; como consequência direta, mais de um quarto de todos os mamíferos da Terra está hoje em vias de extinção, tal como acontece com 40% dos anfíbios, um terço dos corais e dos tubarões, um quinto dos répteis e um sexto das aves. Atualmente, e pela primeira vez na História, decorre um processo de extinção em massa provocado por uma única espécie: o Homem”. Elizabeth Kolbert deixa-nos o recado no seu último livro (prémio Pulitzer): estamos à beira d’“A Sexta Extinção”!

É a soma de diversos “João d’Arens” por todo a Terra que trouxe a Humanidade ao ponto em que estamos.

A Câmara Municipal de Portimão tem aqui dois caminhos: o mais fácil – seguir os interesses económicos na ilusão de estar “numa política ativa e dinamizadora, de apoio ao turismo de qualidade”, ou então, optar pelo outro caminho, que é na verdade o único caminho para um futuro sustentável, apostando na preservação da Natureza, vendo em João d’Arens a grande oportunidade de fazer a diferença, criando o desejado e anunciado “Pulmão Verde de Portimão”.

A palavra de ordem é mesmo preservar.

Termino com uma pergunta: que legado deseja deixar aos seus filhos e netos – betão ou Natureza? Eu sei a minha resposta. E você?

“Somente quando for cortada a última árvore, poluído o último rio, pescado o último peixe, é que o homem vai perceber que não pode comer dinheiro!”
(Provérbio Indígena)

 

Deixe a sua opinião em Participa. A Consulta Pública termina já a 15 de Março.

 

 

Autora: Analita Alves dos Santos
Mãe preocupada com questões ambientais

 

 

 

 

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