Esta sala de aula tem muitas oliveiras e até colmeias

Crianças de Tavira foram até Diogo Dias, uma pequena povoação da freguesia alcouteneja de Martim Longo, para conhecer e provar os produtos locais

Foto: Hugo Rodrigues|Sul Informação

Foi uma aula, mas bem diferente das normais. Cerca de duas dezenas de alunos da escola D. Paio Peres Correia, de Tavira,  subiram a serra para visitar a pequena localidade de Diogo Dias, perto de Martim Longo, no concelho de Alcoutim, falar com produtores locais e perceber melhor o que é, afinal, a Dieta Mediterrânica.

Uma saída de campo e para o campo, já que boa parte do tempo foi passada em correrias e brincadeiras no olival de Valter Luz, o agricultor anfitrião, e a provar algumas iguarias serranas, como o pão acabado de fazer – com ou sem chouriço -, tibornas com o azeite da casa e costas, um bolo típico do interior algarvio. Também houve mel e colmeias.

«O ensino não faz sentido se não estiver relacionado com o que efetivamente existe. E há muito mais coisas fora da escola do que lá dentro. Na escola, podemos sempre passar uns vídeos, ter uma aulas com mais algum interesse, mas acaba sempre por ser algo cansativo. Isto, quando estamos a falar de uma coisa que está ali ao lado», disse ao Sul Informação José Filipe, professor de Ciências Naturais na escola tavirense.

Assim, e aproveitando a nova legislação relativa à articulação curricular e flexibilização, este docente lançou o projeto “Tavira, Ecologia e Culturas”, com a turma que esteve em Diogo Dias e outras três.

Tudo para que «o programa de ciências fosse dado com a realidade física local». Desta forma, as quatro turmas da escola Dom Paio Peres Correia já foram «passear na Ria Formosa e na Mata da Conceição, ver a fauna intertidal [entre marés] e fazer um percurso pedestre na Serra.

 

Professor José Filipe

«Este ano, aproveitando a Dieta Mediterrânica – e sendo a alimentação uma parte importante do nosso programa -, decidimos fazer um cruzamento. No ano passado também fizemos uma horta. Isto fica-lhes muito mais do que os livros e os apontamentos», acredita José Filipe.

Na visita à pequena povoação da freguesia de Martim Longo, o professor tavirense contou com a ajuda da Associação In Loco, que deu a conhecer o que é a Dieta Mediterrânica, e de três produtores locais, o anfitrião Valter Luz, o multifacetado Celso Teixeira e o apicultor Joaquim Luís. Também o vereador da Câmara de Alcoutim José Galrito marcou presença e falou um pouco do concelho.

«O trabalho que temos vindo a desenvolver, nos últimos anos, é tentar chegar a vários públicos-alvo, nomeadamente às crianças, para lhes explicar o que é este estilo de vida chamado Dieta Mediterrânica», explicou ao Sul Informação Arlete Rodrigues, da Associação In Loco.

E depressa se percebe que esta é uma tarefa importante, já que muitas crianças pensavam que este património imaterial reconhecido pela UNESCO era um método «para desengordurar», ou seja, para emagrecer.

«É importante haver cada vez mais este tipo de atividades, em que as crianças vêm ao interior, para saber de onde vem o azeite, as azeitonas, o mel, o pão e tudo o que foi aqui hoje mostrado», acrescentou.

 

Arlete Rodrigues

Uma opinião partilhada por Valter Luz, dono da Luzagro, empresa que explora um vasto olival, para produção de azeitona de mesa e azeite.

«A Luzagro propôs à escola Dom Paio Peres dar a conhecer aos miúdos de onde vem o pão, de onde surge o azeite, o mel e como ele se obtém, o que é o pólen e promover uma cultura social e mais próxima de todos. Vê-se pela reação dos miúdos, na surpresa de tocar numa esteva e de tocar na terra, que eles gostam», contou Valter Luz.

«Numa cidade, deixar uma criança brincar sozinha na rua pode ser visto, hoje em dia, como um acto de irresponsabilidade. Aqui não. Sentem-se em segurança, com vida e outra dinâmica e chegam a casa com apetite e vontade de viver», acredita.

Nesta viagem, e tratando-se de uma saída no âmbito da disciplina de ciências naturais, os alunos da escola de Tavira conheceram uma exploração que usou técnicas bem modernas, para garantir que os sabores dos seus produtos são genuínos.

 

Valter Luz

É que todas as oliveira que foram plantadas nos terrenos de Valter Luz –  e são milhares – foram clonadas de uma árvore centenária existente em Diogo Dias, cuja azeitona mançanilha era reconhecida, localmente, pela sua qualidade.

Hoje, além de vender azeitona, este empresário apostou na produção de azeite e já criou uma marca própria, o “Esquisito”, com a ambição de exportar grande parte da produção.

«Queremos dar a conhecer esta zona, as suas potencialidades e que se pode acreditar que se pode fazer aqui uma agricultura inteligente e rentável», disse ao Sul Informação o jovem agricultor algarvio.

«É precisa muita resiliência, porque o terreno aqui é duro de trabalhar. Mas, em contrapartida, o produto é de excelente qualidade», acredita.

 

Produtores Joaquim Luis e Celso Teixeira

Talvez por isso, Celso Teixeira é um produtor que faz «de tudo um pouco (risos)», desde agricultura a apicultura, passando pela criação de gado ovino.

«Acho que é cada vez mais importante que as crianças percebam de onde vêm os produtos que encontram no supermercado e como é que são produzidos. Faz todo o sentido para as crianças e para nós, produtores», considerou.

Já Joaquim Luís mostrou às crianças como recolhe o pólen em estado puro, para vender. Este produto pode ser consumido diretamente ou usado como adoçante e tem associadas «várias vantagens» ao nível de saúde. «É ótimo para o sistema imunitário, para os rins e para os problemas da próstata».

Também saudável foram as muitas corridas pelos montes onde estão plantadas as oliveiras de Valter Luz e as muitas brincadeiras à antiga. E, embora não tenha faltado comida para evitar fraquezas – antes pelo contrário, a mesa foi sempre farta e apelativa – é quase certo que à noite, chegadas a casa, não faltou apetite a estas crianças tavirenses.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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