Precisa de algo que não existe? Os “inventores” algarvios da Sandworx ajudam

Sandworx está a desenvolver protótipos na área das smart cities

João Duarte, à esquerda, e Mário Saleiro

Criaram a empresa Sandworx em Fevereiro de 2017, mas já “inventam” coisas desde 2011. Mário Saleiro e João Duarte são aquilo que se pode chamar inventores: criam robôs e equipamentos que não existem no mercado, adaptados às necessidades de quem os procura. Centros Ciência Viva, ou indústrias são alguns dos clientes destes jovens formados na Universidade do Algarve, que aliam a criatividade ao conhecimento em áreas como a mecânica, a eletrónica e o software.

Tudo começou com o E-lab Hackerspace, um laboratório de alunos comunitário, que brilhou em feiras em Lisboa com as suas criações, entre elas os robôs educativos “Infantes”. O trabalho desenvolvido chamou a atenção de clientes que precisavam de produtos adaptados às suas necessidades.

«Juntávamo-nos, nessa altura, para aprender, pelo gozo e pela troca de experiências. Depois começámos a ver que apareciam pessoas que queriam que desenvolvêssemos alguma coisa, e notámos que havia procura para um tipo de serviços, que não havia ninguém a prestar. A partir daí, nasceu a Sandworx», conta Mário Saleiro ao Sul Informação.

«Gostamos de muita coisa: de mecânica, de impressão digital, eletrónica e software e, juntando as várias áreas, conseguimos trabalhar em qualquer área do mercado que necessite de tecnologia. Conseguimos criar o que não há no mercado», explica.

Projection Dome desenvolvida pela Sandworx

A empresa foi criada «a pensar na automação para indústria. Apesar de, no Algarve, haver pouca indústria, há também quem precise das suas máquinas e do seu controlo». Nesta altura, a Sandworx, sediada no ninho de empresas da Universidade do Algarve, está a desenvolver «um robô para corte automático de uma planta cultivada por outra empresa algarvia. Contamos transformar um processo que demora uma hora, com o trabalho de duas pessoas, para um que envolve uma pessoa e demora um minuto».

Mário Saleiro descansa, ainda assim, quem teme que esta evolução das tecnologias e a substituição de pessoas por máquinas, possa levar a despedimentos. «Apesar de as pessoas terem medo da automação e dos robôs, não criamos máquinas para que as empresas despeçam trabalhadores, porque há muitas tarefas para as quais as pessoas são mais qualificadas do que os robôs. Simplesmente, esta é uma evolução natural: as tarefas mais rotineiras vão ser assumidas por máquinas e o ser humano fica livre para tarefas mais complexas. Temos um cérebro com muitas capacidades, que temos de usar», considera o co-fundador da Sandworx.

Apesar da ideia inicial, a Sandworx evoluiu para outras áreas como as tecnologias interativas. «Temos recebido pedidos de orçamento para áreas bastante diversas mas, no primeiro ano, trabalhámos essencialmente na área das tecnologias interativas. Os clientes eram centros Ciência Viva. Desenvolvemos uma cúpula de projeção com três metros de diâmetro, para projetar imagens e vídeos numa superfície esférica, criando um ambiente imersivo sem óculos de realidade virtual, por exemplo».

Este equipamento está no Centro Ciência Viva do Lousal, numa exposição que é a Luminar, para a qual muito contribuiu a Sandworx. «Essa exposição tem oito módulos e nós fizemos três desses módulos. Além da cúpula, criámos uma máquina de pinball, que tem o objetivo de ilustrar o processo das sinapses, e desenvolvemos um ambiente de simulação de um ROV, em que o utilizador pode controlar a sua descida até às profundezas do oceano, para ver que espécies é que lá se encontram».

Estes três módulos de exposição demoraram um ano a desenvolver, desde a ideia até à conclusão. No entanto, explica Mário Saleiro, «se fôssemos agora replicar, o tempo de desenvolvimento seria muito mais curto, porque a parte complicada já está feita».

O jovem empresário dá o exemplo de outro projeto desenvolvido «em colaboração com outra empresa algarvia, a Spic, para o qual criámos uma máquina para gravação de vinil automática, que esteve em funcionamento durante o Rock in Rio».

Também a Universidade do Algarve beneficia da presença destes criadores, uma vez que «já desenvolvemos coisas para os laboratórios da UAlg. Por vezes a investigação fica limitada por falta de equipamentos e temos laboratórios da universidade como clientes».

Até agora, a Sandworx tem trabalhado a pedido dos clientes mas já começou também a desenvolver os próprios produtos para garantir o «próprio rumo». Mário Saleiro explica que estes produtos são na área da «automação e das smart cities, na internet of things, desenvolvendo sensores sem fios. O nosso objetivo, a longo prazo, passa também por entrar na inteligência artificial».

Na área das smart cities, «estamos já a desenvolver algumas soluções e já foram feitos alguns contactos com as Câmaras Municipais do Algarve. Esta é uma área muito nova que requer muito investimento e tem de ser muito bem pensada e planeada. Estamos ainda numa fase muito inicial, temos protótipos que ainda não estão prontos a comercializar».

Até agora, a Sandworx tem desenvolvido projetos para clientes empresariais, apesar de não fechar a porta ao “comum cidadão”, numa fase mais avançada na vida da empresa. «Seria muito bom desenvolver para o comum cidadão, mas temos que ter noção que temos uma equipa pequena e o conceito de negócio business-to-business é mais adequado ao tamanho da nossa equipa do que o serviço business-to-consumer. É preciso uma escala diferente que ainda não temos. É preciso, por exemplo, uma linha de assistência».

Além dos dois fundadores, a Sandworx tem mais um funcionário. São três pessoas para quem o dia «não tem oito horas. Temos conseguido trabalhar em mais do que um projeto ao mesmo tempo e encerrámos o primeiro ano com lucro. Em 2018, tivemos o dobro da faturação e, para o ano, o objetivo é duplicar novamente e fazer crescer a equipa», adianta Mário Saleiro.

Apesar de a equipa ser pequena e de o trabalho ser muito, a Sandworx só tem recusado projetos quando «há gente que nos procura como se fôssemos investidores de uma determinada ideia. Só que em vez de investirmos dinheiro, estaríamos a investir as nossas capacidades e o nosso tempo e toda a gente trabalha para ganhar dinheiro».

À porta da Sandworx, não têm chegado «ideias mirabolantes» que não sejam exequíveis pela empresa, o que acontece é que «às vezes as pessoas não têm ideia da complexidade, ou dos tempos de desenvolvimento e é necessário fazer ajustes. Temos de adaptar o pedido ao que se pode fazer de acordo com o orçamento», explica João Duarte.

No Algarve, «não há ninguém a fazer aquilo que fazemos. Há quem faça a integração de equipamentos já existentes, na área da automação, mas uma empresa que trabalhe, em conjunto, na área da mecânica, eletrónica e software, não há».

Plataforma de simulação ROV no CCV do Lousal

Devido ao facto de a Sandworx ser uma empresa única na região, Mário Saleiro e João Duarte têm, por vezes, dificuldade em encontrar matéria prima para fazer os seus projetos.

Mas este «é um problema que se vai resolvendo. No Algarve, se quisermos um parafuso muito específico, ou mandamos vir da internet, ou temos de esperar várias semanas para que outra empresa mande vir de um fornecedor. No entanto, com a nossa experiência no E-lab Hackerspace, aprendemos a adaptar de coisas de forma a conseguirmos fazer o que queremos. Esse projeto deu-nos criatividade para conseguir “remendar” soluções, com os equipamentos disponíveis no mercado. Às vezes, certos equipamentos têm componentes que podem ser utilizados e que até sai mais barato comprar o equipamento todo, do que só o componente. Claro que preferimos comprar do fabricante mas, em todo o caso, temos outros recursos».

Esta “dificuldade” fomenta a criatividade, o que acaba por funcionar como uma vantagem competitiva, por exemplo, em relação a empresas de outras regiões do país. «Na automação, o Norte tem mais experiência, porque as fábricas estão no Norte. As fábricas arrastam prestadores de serviços e fornecedores de matéria prima. Mas, por outro lado, nós temos conhecimento científico e novas tecnologias de fabricação digital, software e eletrónica e conseguimos ser inovadores, não fazendo o que toda a gente faz, fazendo de forma diferente».

A Sandworx é uma das empresas que faz parte do Algarve Tech Hub, um projeto que Mário Saleiro acredita que «vai trazer um impulso para a região ao nível tecnologia. O Algarve vai poder afirmar-se como uma região não só turística, mas também tecnológica. Nesta altura, quando um algarvio vai a algum lado e diz que trabalha em tecnologia, parece que há uma surpresa, porque toda a gente pensa que aqui é só praia e turismo. Mas não é assim: temos empresas muito boas a desenvolver projetos para o mundo inteiro».

Confrontados com o “rótulo” de inventor, Mário Saleiro e João Duarte não o recusam: «se o inventor for quem pega em várias coisas e junta para fazer outras, podemos dizer que somos inventores. O que utilizamos nos equipamentos, já alguém inventou, mas pegamos nas coisas, combinamos e modificamos. O processo de invenção não é de uma pessoa. O mérito é da humanidade. Podemos dizer que o nosso trabalho é como a cozinha: com os mesmos ingredientes, podemos fazer muita coisa», conclui Mário Saleiro.

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