Monchique vai ter Festival de Caminhadas para revitalizar turismo após o incêndio

Há um financiamento de 430 mil euros pago a 100% para um programa com sete eixos destinado a revitalizar a economia de Monchique

Um festival de caminhadas, «cinco a sete» novos percursos pedestres e a recuperação dos existentes afetados pelo fogo, a criação de uma plataforma digital que concentre toda a oferta turística, formação para os agentes locais, o reforço de um evento já existente, o «Monchique Serra Natal», e ainda uma forte aposta na promoção externa. Eis os objetivos principais do programa «Revitalizar Monchique – o turismo como catalisador», que ontem teve o seu pontapé de saída, naquela vila serrana algarvia.

Garantir o renascimento da economia de Monchique, fortemente afetada pelo grande incêndio do Verão passado, é o mote principal deste programa, que ontem foi apresentado oficialmente nesta vila algarvia com a presença da secretária de Estado do Turismo, perante uma sala cheia de empresários e empreendedores locais.

Apoiado com um financiamento de 431.856 euros, garantido, a 100 por cento, pelo Turismo de Portugal, o projeto «Revitalizar Monchique» é liderado pela Região de Turismo do Algarve e tem como parceiros a Associação Turismo do Algarve, a Almargem – Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve e o Município de Monchique. O objetivo é «dotar a região de Monchique e Silves de condições atrativas para o desenvolvimento da atividade turística através da intervenção em zonas que foram atingidas pelo incêndio que fustigou estes dois concelhos em 2018».

A organização do Festival de Caminhadas ficará a cargo da Câmara de Monchique, cujo presidente revelou ao Sul Informação que a primeira edição do novo certame só deverá ter lugar na Primavera de 2020, a par do já tradicional Festival das Camélias.

«O Festival das Camélias costuma ter lugar em Março ou inícios de Abril e será associado a ele que irá surgir o novo Festival de Caminhadas. Para este ano, até porque os participantes gostam de organizar-se com antecedência, já não teremos tempo, embora o Festival da Camélias já deva incluir algumas caminhadas. Mas no próximo ano começamos em força!», garantiu o autarca Rui André.

Rui André com Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal

Outra aposta do Município será no reforço da sua iniciativa «Serra Natal», que agora, explicou o presidente da Câmara ao nosso jornal, «quer afirmar-se como o evento de referência na região, na quadra natalícia, a par do espetáculo de novo circo no fim do ano, promovido no âmbito do 365Algarve». «Assim como Óbidos tem o seu evento de Natal, com influência numa grande área urbana à sua volta, também aqui em Monchique queremos atrair todo o Algarve à nossa Serra Natal», sublinhou Rui André.

Quanto ao site Visitmonchique, a tal plataforma digital que irá agregar toda a informação sobre a oferta, ao nível do turismo de natureza e cultural, dos produtos locais, da restauração e do alojamento no concelho, também este projeto fica sob a alçada da Câmara Municipal e, segundo o autarca, «já está em andamento». Uma das novidades, revelou Rui André ao Sul Informação, é a intenção de colocar pequenos mupis interativos nos hotéis do litoral para divulgar toda a informação sobre Monchique.

Mas o projeto «Revitalizar Monchique» terá sete grandes eixos, que incluem os já referidos, mas ainda outros.

Anabela Santos, da Almargem, salientou que uma das apostas principais é na Via Algarviana, não só reforçando os percursos complementares no concelho, mas, sobretudo recuperando os setores dessa grande via pedonal e ciclável que passam no território monchiquense.

«Dois desses setores foram fortemente afetados pelo incêndio, quer a nível da sinalética, quer da paisagem envolvente. Por isso, teremos de ver se será necessário alterar esses setores, mudando o percurso pelo menos em alguns troços, e teremos de voltar a colocar sinalética», explicou.

Serão ainda criados «mais cinco a sete novos percursos», não só «pedonais, mas também para btt e trail». Para isso, garantiu Anabela Santos, «vamos precisar da ajuda das associações e dos agentes locais, que conhecem muito bem o terreno». «Esta candidatura não é só da ATA, da RTA, da Almargem e da Câmara de Monchique, é de todos. Por isso, os agentes locais terão de ser envolvidos, terão de envolver-se», apelou.

Depois da tragédia dos incêndios, há que descobrir «os sítios onde o fogo não chegou», de modo a fazer uma «comunicação positiva» sobre o muito que Monchique tem para oferecer no âmbito do turismo de Natureza, acrescentou.

«No Outono deste ano, pretendemos ter já estes novos produtos para lançar», revelou Anabela Santos ao Sul Informação, à margem da sessão. Até porque o fogo, se trouxe destruição, também trouxe novas oportunidades, ao pôr a descoberto «caminhos medievais que há muito estavam tapados pelo mato, ou elementos do património construído, como noras, moinhos e outros engenhos hidráulicos».

Anabela Santos e João Fernandes, presidente da RTA

Aspeto muito importante do «Revitalizar Monchique» serão as ações de capacitação para os agentes locais, na vertente da interpretação da paisagem, nomeadamente da flora, da fauna e do património cultural. Anabela Santos anunciou que serão promovidas «pelo menos duas ações de capacitação».

Depois, é preciso que toda a oferta, mais estruturada e organizada, mais capacitada, seja promovida para atrair mais turistas à Serra de Monchique.

As ações de promoção estarão a cargo da Região de Turismo do Algarve, no que diz respeito ao mercado português e de Espanha, e da Associação Turismo do Algarve, para o resto da Europa. Neste caso, a maior aposta será feita nos mercados do Reino Unido, França, Alemanha e Holanda, que são os maiores consumidores de turismo de natureza.

Serão promovidas visitas educacionais para dar a conhecer a serra a jornalistas (press trips) e operadores (fam trips) desses mercados.

A ATA vai ainda ficar responsável pela tradução de todos os materiais do site visitmonchique e de outras publicações a ser criadas.

«Contamos com todos vocês e por isso vamos fazer reuniões com as associações e agentes locais, para que, no final do projeto, não se sintam defraudados e para que aquilo que fica no território seja o que procuram e o que Monchique precisa», concluiu Anabela Santos.

Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, sublinhou que o objetivo do programa de ação «Revitalizar Monchique» é «aproveitar os ativos naturais de Monchique como fator chave de revitalização».

Assim, pensou-se em «fazer a reposição de tudo o que tinha ficado destruído pelo incêndio, como os percursos, mas também se pensou em ir mais longe», com a criação de «novos trilhos, novos produtos a ser acrescentados, em como envolver os agentes locais, e também em identificar eventos que pudessem ser âncoras de comunicação».

A governante agradeceu a «capacidade de fazer acontecer no terreno», mas também o facto de o Turismo de Portugal ter sido «criativo para encontrar soluções e mecanismos alternativos para financiar a 100% este projeto». João Fernandes, presidente da RTA, comentaria mesmo, a propósito deste financiamento a 100%: «isso já não existe!».

O responsável pelo turismo algarvio elogiou também a capacidade de montar toda a estratégia em «cinco meses». Em tão pouco tempo, «foi desenvolvido este plano estratégico de ação, concertámos com os parceiros e hoje estamos aqui a assinar os contratos, o que é já um ponto de partida».

Mas a tarde de ontem foi um dia rico em anúncios para o turismo do Algarve. João Fernandes, na mesma sessão em Monchique, apresentou o projeto SustenTUR Algarve, que visa promover a sustentabilidade do património natural e cultural da região, junto dos visitantes e residentes, em estreita parceria com atores públicos e privados.

O SustenTUR, que tem um pacote financeiro de 204 mil euros e deverá decorrer até 30 de Novembro de 2020, irá promover ações de capacitação, informação e sensibilização, com o objetivo de fortalecer uma cultura de turismo na região.

Para já, explicou João Fernandes, será feitas «ações de capacitação para os alojamentos locais», como sequência do que tem já sido promovido, de «aconselhamento à medida».

João Fernandes, presidente da RTA, com Carlos Abade

Depois, será promovida a sensibilização para a importância de respeitar o património cultural e natural. As ações serão viradas para os turistas e residentes, mas sobretudo para as empresas de animação, não só do património e monumentos (em colaboração com a Direção Regional de Cultura), como do «património natural, nomeadamente em meio aquático», neste caso, muito viradas para os operadores marítimo-turísticos. O presidente da RTA referiu algumas más práticas que é preciso inverter, como o caso das visitas aos cavalos-marinhos na Ria Formosa.

Haverá ainda uma vertente deste SustenTUR dirigida aos turistas das autocaravanas, nomeadamente para os informar sobre «os parques de campismo e de autocaravanismo que existem» e que estão longe de ter a sua capacidade esgotada.

Outra ação terá a ver com a «informação sobre a rede de percursos cicláveis do Algarve», nomeadamente formando «guias para esses percursos de btt ou touring».

Finalmente, o projeto SustenTUR pretende fazer o «combate à turismofobia». Apesar de admitir que esta «turismofobia» é «mais notada nos grandes centros urbanos», João Fernandes disse que «temos de estar atentos e trabalhar com os residentes», chamando a atenção para o facto de que «o turismo gera bem estar e é o mote do desenvolvimento económico do Algarve».

A secretária de Estado Ana Mendes Godinho considerou que estes dois projetos – Revitalizar Monchique e SustenTUR – «demonstram a capacidade de o Turismo ser instrumento de mobilização do território e permitem promover o Algarve como destino de turismo de natureza, de gastronomia, cultural, com capacidade de atrair públicos ao longo de todo o ano».

A fechar a sessão, foi ainda assinado um protocolo entre o Turismo de Portugal e a associação Safe Communities Portugal. David Thomas, presidente da Safe Communities, salientou que «a segurança é muito importante, quer para residentes, quer para os turistas», acrescentando que «Portugal é reconhecido, no estrangeiro, como um dos países mais seguros do mundo».

No entanto, é preciso continuar a trabalhar em parceria com as entidades portuguesas. O protocolo, acrescentou David Thomas, «reconhece o que já está a ser feito, no trabalho que temos feito em conjunto, mas também ajudará a manter Portugal e o Algarve como um local acolhedor e seguro».

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

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