Alojamento para estudantes em Faro, procura-se

O número de alunos da Universidade do Algarve aumentou, mas a oferta de alojamento em Faro seguiu o caminho inverso […]

O número de alunos da Universidade do Algarve aumentou, mas a oferta de alojamento em Faro seguiu o caminho inverso e há muitos casos de estudantes que, com as aulas já a decorrer, ainda não encontraram um quarto, ou apartamento, para o novo ano letivo.

A procura aumentou e, com ela, subiram os preços. A juntar a este fator, apartamentos que outrora acolhiam estudantes, são agora arrendados, através do Airbnb, ou plataformas semelhantes, a turistas que chegam a Faro cada vez em maior número. Há ainda um complexo comercial em vias de abrir portas, a dez quilómetros da capital algarvia, que necessita de mão de obra e que também tem atraído novos residentes para a cidade.

Numa pesquisa nos portais Olx, Custo Justo ou Casa Sapo, as ofertas escasseiam e os anúncios de procura de imóveis para arrendar sucedem-se. A média da renda mensal das ofertas supera os 200 euros/quarto e nem todos os senhorios aceitam receber estudantes.

Cláudia Rodrigues, estudante do 3º ano de Marketing,  tem enfrentado estes problemas e ainda não conseguiu encontrar casa, o que faz com que, todos os dias, tenha de viajar entre Tavira e Faro, cidades separadas por 37 quilómetros, mas sem uma boa rede de transportes públicos a ligá-las.

«Há pouca oferta e a oferta que existe tem muitas restrições quanto a estudantes. Se forem pessoas que estejam de férias, os senhorios aceitam, se for da Universidade, está fora de questão, porque há quem se comporte mal. Já me aconteceu contactar donos de cinco ou seis casas, que disseram que estavam disponíveis, mas que não eram para estudantes», diz a aluna ao Sul Informação.

Também o valor pedido pelo alojamento é mais alto que em anos anteriores. «Toda a gente vê que as casas estão mais caras. Há preços exorbitantes. Há pessoas a arrendar quartos por 250 euros mais despesas, já encontrei um T3 que custava, por quarto, 275 euros mais despesas», ilustra.

Cláudia Rodrigues tem a oportunidade de se deslocar de carro todos os dias para a Universidade, mas, quem vem de mais longe, para estudar na Universidade do Algarve, vive um problema maior.

Rodrigo Teixeira

Rodrigo Teixeira, presidente da Associação Académica, diz ter conhecimento «de estudantes que tiveram de passar dias em hostels até encontrarem casa. Ouvi dizer também que houve estudantes internacionais que acamparam na Praia de Faro».

De acordo com o representante dos estudantes, «há muitos casos de alunos que se dirigem à Associação Académica à procura de casa. Recebemos alguns anúncios, mas “voam” em horas. A situação está muito complicada, já falámos com o reitor, temos de estar em contacto com a Câmara de Faro e, aproveitando a altura de eleições, sensibilizar todos os candidatos para esta questão».

Para Rodrigo Teixeira, «se Faro não tiver condições para receber os estudantes, todo o esforço feito para o crescimento da Universidade em número de alunos pode ser em vão, e não queremos que isso aconteça».

Quanto à reticência dos senhorios em arrendar quartos e casas a estudantes, o presidente da Associação Académica diz pensar «que esse fenómeno não cresceu. Há senhorios que pretendem arrendar casas a famílias, devido à maior estabilidade, mas há outra questão que é de frisar, que é o arrendamento só a raparigas, que consideramos discriminatório. Acontece muito que os senhorios aceitam apenas raparigas, com medo que os rapazes causem estragos no apartamento».

Devido à falta de oferta, há um fenómeno que tem tendência a crescer: o arrendamento ilegal. Rodrigo Teixeira diz que «há muitos senhorios que não querem passar recibo, que muitos estudantes utilizam para deduções no IRS. É ilegal, prejudica os estudantes, mas, sem alternativas, são obrigados a aceitar».

 

Residências da Universidade estão lotadas e só «empresários podem desbloquear a situação»

 

Residência Albacor

A Universidade do Algarve tem 600 camas em nove residências universitárias, sendo uma delas em Portimão, com capacidade para 21 alunos. No entanto, também aqui a procura foi grande e as residências já estão lotadas.

André Botelheiro, coordenador do Gabinete de Comunicação e Protocolo da Universidade do Algarve, diz que, «este ano, as candidaturas correram muito bem, mas isto quer dizer que, com muita rapidez, se esgotou a capacidade».

O responsável pela comunicação da Universidade do Algarve explica que a instituição «tem como obrigação legal, estatutária a garantia de alojamento para estudantes mais carenciados e essa é a prioridade. Os estudantes mais carenciados, os chamados bolseiros, têm prioridade na colocação nas residências».

Ainda assim, de acordo com André Botelheiro, «a Universidade tem tentado criar quotas para alojamento em residências destinado os alunos que não são bolseiros, tanto nacionais, como internacionais. Essas quotas são estabelecidas em função da dimensão destes grupos».

Apesar de as residências estarem lotadas, «não há previsão, neste momento, do crescimento da capacidade de alojamento da Universidade. Já temos uma capacidade de alojamento muito alargada. Há universidades com muito mais alunos que não têm capacidade de alojamento tão elevada como nós».

Rogério Bacalhau

Segundo André Botelheiro, «a Universidade não tem condições para resolver o problema da falta de alojamento» e «os empresários têm um papel chave para desbloquear esta situação. Há aqui uma oportunidade de negócio, que pode ser aproveitada, com a construção de residências privadas», à imagem do que já acontece em Lisboa, Porto e Coimbra.

André Botelheiro diz que esta questão «justifica a intervenção da cidade, enquanto interessada. A cidade e os farenses têm de nos apoiar na solução disto, colocando as casas vagas que têm no mercado para os estudantes».

Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, diz que, ao seu gabinete, «não chegou qualquer tipo de informação em relação à questão [falta de alojamento para estudantes], mas é provável que haja dificuldade em encontrar casas».

O autarca explica que «a cidade está com uma grande dinâmica a nível de recuperação de casas e há muitas pessoas a vir viver para cá. Sabemos que não há muita habitação disponível para arrendar ou para vender. Há prédios que estão a ser construídos, alguns que eu conheço, cujos apartamentos, ainda em planta, já estão todos vendidos».

A Câmara de Faro tem uma «bolsa de quartos e edifícios disponível para os jovens, é isso que temos feito para ajudar no alojamento. Quando as pessoas nos contactam, com quartos disponíveis, tentamos encaminhar. Mas, neste momento, não há grande disponibilidade».

 

Residências privadas estão a caminho, mas não se sabe quando

 

As residências estudantis privadas, consideradas por André Botelheiro como uma solução para a falta de alojamento, podem mesmo estar a caminho de Faro.

Rogério Bacalhau adiantou ao Sul Informação que a Câmara recebeu, «no princípio do ano, o contacto de duas empresas que estão interessadas em construir residências para estudantes. Foi-lhes dada informação a nível da possível localização e sei que há uma que está a estudar a hipótese de construir cerca de 300 residências para estudantes. No entanto, não entrou nenhum projeto na Câmara».

O Sul Informação contactou a Studentville, uma empresa especializada neste ramo de negócios, e, apesar de realçar não ter «efetivamente nenhuma residência em construção em Faro», admite que esta «é certamente uma zona de interesse para nós, onde poderemos eventualmente ter projetos futuro».

 

Hostels lançam campanha com preços mensais para estudantes

 

Hostellicious

Ainda não há residências privadas e, para já, são os hostels da capital algarvia que procuram faturar com a falta de mercado de arrendamento para estudantes na cidade.

O Baixa Terrace Hostel oferece alojamento em dormitório, entre Outubro e Maio, a partir de 359 euros mensais, e o Hostellicious, que vai abrir portas no final de Setembro, junto ao Largo do Carmo, vai reservar 50 camas para estudantes da Universidade do Algarve, por 250 euros/mês, a partir do início de Outubro.

Nuno Almeida Fernandes, um dos sócios deste novo hostel, que será o maior do Algarve, explicou ao nosso jornal que a aposta neste mercado surge «para facilitar aos estudantes da universidade a procura de um sítio para ficar, que está muito difícil este ano, com preços muito mais caros que o normal. Além disso, este hostel tem 150 camas e estamos a entrar na época baixa. Esta é uma solução intermédia para o negócio de um hostel que tem tantas camas».

Para já, serão 50 as camas para estudantes, mas, «dependendo do sucesso da iniciativa, podemos alargar a oferta», conclui Nuno Almeida Fernandes.

A procura existe.

 

 

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