Centro de Interpretação vai preservar a memória do barco que andou meio século a salvar vidas em Alvor

Em 1983, quando o salva-vidas de Alvor deixou de trabalhar e o Museu da Marinha o quis levar para Lisboa, […]

Em 1983, quando o salva-vidas de Alvor deixou de trabalhar e o Museu da Marinha o quis levar para Lisboa, a população revoltou-se, cortou os carris que o faziam descer do abrigo até ao rio, e impediu que a embarcação que tantas vidas salvou fosse levada dali.

Agora, 34 anos depois, o salva-vidas será a peça fulcral do futuro Centro Interpretativo, que vai celebrar os salvamentos, mas, sobretudo, a vida dura da comunidade piscatória de Alvor, homens e mulheres que ainda hoje se orgulham do seu salva-vidas.

Para isso, foi ontem assinado, no edifício da antiga estação salva-vidas, ali bem à beirinha da Ria de Alvor, um protocolo entre o Ministério da Defesa Nacional e a Câmara Municipal de Portimão.

O projeto, que foi candidatado pelo Município portimonense a fundos europeus do CRESC Algarve 2020, o Programa Operacional Regional do Algarve, vai custar 272.861 euros, investimento que a presidente da Câmara Isilda Gomes considerou «avultado, mas merecido e plenamente justificado».

As obras deverão começar no início de 2018, para serem inauguradas em Dezembro do mesmo ano, e vão passar pela reabilitação da estrutura de madeira do telhado, incluindo a cobertura em telha tipo marselhesa e os beirados, restauro e pinturas das paredes interiores e exteriores, modernização de todas as infraestruturas, bem como trabalhos de manutenção da própria embarcação salva-vidas e de tratamento dos carris e da zona envolvente.

Como disse a autarca Isilda Gomes na cerimónia de assinatura do protocolo, o objetivo é «valorizar a história e atualidade do património natural e marítimo de Alvor, transformando-o numa ferramenta de qualificação da zona urbana ribeirinha da vila e de sensibilização e dinamização ambiental e sociocultural da comunidade local e turística, combatendo também a sazonalidade e o estereótipo “sol e praia” associado ao turismo praticado no Algarve e promovendo a interação entre os residentes e quem nos visita».

 

Isabel Soares, responsável pelo Museu de Portimão, apresenta o projeto

 

Enquanto, à porta, duas senhoras se dedicavam a iscar aparelhos de pesca e um antigo pescador mostrava como se remenda redes, Isabel Soares, chefe de divisão do Museu de Portimão, explicava, com mais pormenor, o que se pretende com este projeto, que parte do amor que os alvorenses têm por esta embarcação movida à força de braços e remos, que entrou ao serviço em 1933 e durante 50 anos teve a função de salvar vidas.

O Centro de Interpretação será dedicado «à história dos salvamentos, à faina no mar e aos saberes a ela ligados e ainda ao conhecimento sobre a Ria de Alvor, enquanto zona húmida mais importante do Barlavento Algarvio», explicou Isabel Soares.

Ao centro da sala estará o barco, mas animado com uma «representação virtual das suas tripulações, com imagem e som». Aliás, a aposta nas novas tecnologias, do 3D e hologramas aos conteúdos interativos, será uma constante no futuro Centro Interpretativo.

Mas o salva-vidas, depois de restaurado e devolvido à sua beleza original – hoje, apesar de bem preservado, já não ostenta, por exemplo, o «brilho dos latões, que davam tanto trabalho a polir», como comentava um pescador reformado que assistiu à cerimónia – irá sair periodicamente para navegar na ria.

A responsável pelo Museu de Portimão revelou mesmo que o projeto passa por «promover dois ou três passeios comentados por ano, a bordo do salva-vidas», de modo a verdadeiramente o colocar «ao serviço da comunidade, dos turistas, mas também das escolas e dos mais jovens».

António Pereira, técnico superior do Museu de Portimão, que apresentou os trabalhos necessários em pormenor, sublinhou: «o salva-vidas não será apenas para estar aqui parado, em exposição. É uma embarcação viva, que será para sair para a ria e para o mar, sempre que necessário».

 

Assinatura do protocolo de cedência do edifício

 

Porque a missão de salvar vidas no mar continua sempre presente, o secretário de Estado da Defesa Nacional, que presidiu à cerimónia, salientou o «esforço» que tem sido feito, «no último ano e meio, de modernização e capacitação da Autoridade Marítima Nacional», equipando-a com «novas embarcações», mas também abrindo «concurso para admissão de pessoal para as estações salva-vidas».

Marcos Perestrello sublinhou ainda o «esforço de modernização das próprias estações salva-vidas». Além disso, acrescentou o governante, este ano foram instaladas, em Vila Real de Santo António e em Sagres, «duas novas unidades do sistema Costa Segura», para «reforço da vigilância» da área sob jurisdição da AMN, com «preocupações de pesca, fins de socorros, mas também de preservação do meio marinho».

Graças a todos esses investimentos, «instalações como esta vão deixando de ser necessárias». Ora, disse ainda o secretário de Estado, «esta capacitação e modernização têm que ser compensadas por um esforço de preservação da memória daquilo que somos e de como chegámos aqui», que é o que será feito na antiga Estação Salva-Vidas de Alvor.

Marcos Perestrello aproveitou para fazer «um agradecimento à Câmara de Portimão» por fazer este «investimento significativo na preservação da memória».

A terminar, a presidente Isilda Gomes sublinhou a importância do futuro Centro de Interpretação, como «espaço que guarda uma história de muitas dezenas de anos, de muitos salvamentos e de muitos homens do mar e mulheres que os acompanharam». «A Marinha vai ter muito orgulho no protocolo que aqui estivemos a assinar», acrescentou a autarca, olhando para as altas patentes ali presentes.

Só falta agora encontrar um espaço alternativo para o Clube Naval D. João II, que ali guarda o seu material e embarcações.

 

Meio século a salvar vidas

Só em 1983, quando o assoreamento da ria já nem deixava o barco sair do seu abrigo e passar a barra, e outras tecnologias de propulsão se afirmavam, é que o salva-vidas de Alvor deixou de ser utilizado, 50 anos depois de ter começado a sua missão nesta localidade piscatória do Algarve.

Mas o facto de ter salvado as vidas de muitos pescadores, como ainda hoje os mais velhos homens do mar recordam, e de ter sido à força de braços de companheiros de faina que esses salvamentos ocorreram, criou uma forte ligação da comunidade ao salva-vidas.

Pelas suas características únicas e estado de conservação, em 1983, o Museu da Marinha quis preservar a embarcação, levando-a para Lisboa, para aí ser exposta. Mas a população não deixou e cortou os carris que ligam o abrigo à ria, assim impedindo a saída do barco.

Desde aí, o salva-vidas tem estado no seu abrigo, acarinhado pelos alvorenses, mas pouco visível para os de fora. Durante algum tempo, já depois de ter sido desativado, o salva-vidas ainda continuou a ser cuidado pelo seu patrão, José Jorge, e pelo sota-patrão, Manuel Loló, ambos já falecidos.

Ao longo destes 34 anos de inatividade, barco e abrigo foram sendo alvo de alguns restauros e conservação. Mas só agora, com o projeto da criação do Centro de Interpretação é que a sua história e memória serão devolvidas aos visitantes e à população.

O salva-vidas, construído em madeira e com o tipo dinamarquês visível na madeira trincada do casco, era movido à força de braços. Da sua tripulação, apenas o patrão e o sota-patrão eram fixos. Os restantes eram recrutados entre os pescadores, nem sempre agradados com a necessidade de arriscarem a sua vida, em troco de um pagamento que não compensava os perigos.

Num excerto de vídeo mostrado na cerimónia de assinatura do protocolo, um antigo pescador recordava que a companha do salva-vidas passava «um dia inteirinho além, até que o último barco viesse para terra». Tudo isto para ganhar «17$50 e depois 20 escudos».

Mas esse esforço compensava, num tempo em que os barcos de pesca eram a remos ou à vela e passar a assoreada barra de Alvor era um perigo permanente. Muitas vidas foram salvas, muita gente de Alvor existe hoje porque essa companha de homens corajosos andou horas no mar para resgatar o seu avô ou pai. Outro antigo pescador, no mesmo testemunho em vídeo recolhido pela Casa Manuel Teixeira Gomes, recordava a vez em que «o barquinho de Alvor já estava no fundo, mas salvámos os homens».

É toda essa memória de vida dura e heroísmo que o Centro de Interpretação do Salva-Vidas de Alvor quer agora celebrar e não deixar cair no esquecimento.

 

fotos: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

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